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📜 São Cipriano

São Cipriano e Justina: a lenda completa

A lenda de São Cipriano e Santa Justina contada do início ao fim: Aglaides, os demónios vencidos pelo sinal da cruz, a conversão do mago, o martírio em Nicomédia e o que a história significa.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. As personagens
  2. 1. A jovem que escolheu a fé
  3. 2. O pedido de Aglaides
  4. 3. Os três ataques
  5. 4. A pergunta de Cipriano
  6. 5. A conversão
  7. 6. O bispo e a abadessa
  8. 7. O martírio
  9. 8. As relíquias
  10. O que a lenda quer dizer
  11. A lenda nas artes
  12. Justina nas orações populares
  13. Fontes

A história de Cipriano e Justina é uma das lendas cristãs mais antigas e mais contadas. Um mago poderoso, uma jovem que não se deixa vencer, demónios derrotados por um sinal da cruz — e uma conversão que transformou o feiticeiro em santo.

É também a origem de toda a tradição de São Cipriano. Sem esta lenda não haveria orações de São Cipriano nem Livro de São Cipriano.

Nota do Grimório: o que se segue é uma lenda. Vem de textos gregos de meados do século IV, escritos para edificar os fiéis, e não há provas de que as personagens tenham existido. Contamo-la tal como a tradição a transmitiu, indicando onde as versões divergem. Para o que é história documentada, veja A História de São Cipriano.

As personagens

  • Cipriano — mago pagão de Antioquia, formado nos grandes santuários do mundo antigo.
  • Justina — jovem de Antioquia, nascida pagã, convertida ao cristianismo. Algumas versões chamam-lhe Justa antes do batismo.
  • Aglaides — jovem rico e culto da cidade, apaixonado por Justina.
  • Teoctisto — soldado que, no fim, morre com eles.

1. A jovem que escolheu a fé

Justina vivia em Antioquia com os pais, pagãos. Um dia ouviu falar de Cristo e converteu-se. Segundo o texto da Conversão, os pais seguiram-na, e o pai chegou a ser ordenado sacerdote. Justina decidiu consagrar a sua vida a Deus e não casar.

2. O pedido de Aglaides

Aglaides viu Justina e apaixonou-se. Pediu-a em casamento e foi recusado. Algumas versões contam que tentou mesmo levá-la à força, e que ela o afastou com o sinal da cruz.

Humilhado, Aglaides procurou o homem mais temido de Antioquia: Cipriano, o mago. Pediu-lhe que, pela magia, fizesse Justina amá-lo.

3. Os três ataques

Cipriano aceitou. Recorreu aos seus livros e aos seus espíritos e enviou um demónio a Justina, com a missão de despertar nela o desejo por Aglaides.

Justina sentiu-se perturbada durante a noite. Levantou-se, rezou e fez o sinal da cruz — e o demónio fugiu.

Cipriano enviou então um demónio mais poderoso. O resultado foi o mesmo. Por fim, segundo a lenda, chamou o próprio príncipe dos demónios, que prometeu vencer a jovem. Também ele fugiu perante a oração e o sinal da cruz.

4. A pergunta de Cipriano

Três vezes vencido, Cipriano confrontou o demónio: como podia uma jovem vencer as forças que tinham dominado tantas pessoas? O demónio acabou por confessar que nada podia contra o sinal de Cristo.

Foi o momento da viragem. Cipriano percebeu que servia um senhor mais fraco do que o Deus de Justina.

5. A conversão

Cipriano renunciou aos demónios e fez, ele próprio, o sinal da cruz. Procurou o bispo da cidade, levou-lhe os seus livros de magia e queimou-os diante dele — um gesto que se tornou o símbolo da sua conversão. Depois foi batizado.

A Confissão de Cipriano, um dos textos antigos, é apresentada como o discurso em que ele conta publicamente toda a sua vida de mago, para mostrar de onde vinha.

6. O bispo e a abadessa

Segundo a lenda, a conversão de Cipriano foi tão profunda que ele subiu todos os graus da Igreja: leitor, diácono, sacerdote e, por fim, bispo. Justina tornou-se responsável por uma comunidade de mulheres consagradas.

Aqui as versões divergem: as tradições gregas mais tardias chegam a fazer de Cipriano bispo de Cartago, misturando-o com o outro São Cipriano, que é histórico.

7. O martírio

Durante a perseguição do imperador Diocleciano (ou de Décio, conforme as versões), Cipriano e Justina foram presos. A tradição conta que foram torturados — Cipriano suspenso e rasgado, Justina agredida — e lançados numa fornalha, de onde saíram ilesos.

Levados a Nicomédia, foram condenados à morte e decapitados nas margens do rio Galo, a 26 de setembro de 304. Um soldado chamado Teoctisto, comovido com a coragem dos dois, declarou-se cristão e foi executado com eles.

8. As relíquias

Os corpos teriam sido recolhidos por marinheiros cristãos e levados para Roma. A tradição ocidental diz que foram mais tarde colocados na basílica de São João de Latrão.

O que a lenda quer dizer

Lida no seu tempo, a história tem uma mensagem clara: a fé cristã é mais forte do que a magia pagã. O mago mais poderoso do mundo não consegue vencer uma jovem que reza. Por isso Cipriano abandona a magia e queima os seus livros.

É irónico — e muito interessante — que a tradição popular tenha feito exatamente o contrário: guardou o mago e esqueceu os livros queimados. Nos séculos seguintes, o nome de Cipriano passou a dar autoridade a orações e fórmulas mágicas, e ele tornou-se o protetor dos feiticeiros. Na tradição esotérica, esta dupla natureza é vista como um trunfo: alguém que conheceu as trevas e escolheu a luz saberia melhor do que ninguém proteger contra o mal.

A lenda nas artes

  • Século V — a imperatriz bizantina Eudócia escreve um poema épico em três livros sobre Cipriano e Justina.
  • Século XIII — a Legenda Áurea, de Tiago de Voragine, inclui a história no capítulo «de Santa Justina, virgem», e espalha-a por toda a Europa medieval.
  • 1637 — Calderón de la Barca escreve El mágico prodigioso. Nesta versão, Cipriano apaixona-se ele próprio por Justina e vende a alma ao demónio para a conquistar. Muitos estudiosos veem aqui um antecessor da lenda de Fausto.
  • Arte religiosa — Cipriano aparece muitas vezes com vestes de bispo e Justina com a palma, símbolo dos mártires.

Justina nas orações populares

Em algumas orações populares atribuídas a São Cipriano, Justina é invocada ao lado dele. Faz sentido com a lenda: foi ela quem resistiu a toda a magia de Cipriano.

➜ Orações de São Cipriano

➜ A História de São Cipriano

➜ 26 de setembro — a festa de Cipriano e Justina

➜ Voltar ao Guia Completo de São Cipriano

Fontes

  • Catholic Encyclopedia (1913), «Sts. Cyprian and Justina» — newadvent.org
  • Orthodox Church in America, «Hieromartyr Cyprian, Virgin Martyr Justina, and Martyr Theoctistus» — oca.org
  • Synaxarion of Saints Cyprian and Justina — johnsanidopoulos.com
  • «Cyprien et Justine», Wikipédia — fr.wikipedia.org
  • Brian Sowers, In Her Own Words: The Life and Poetry of Aelia Eudocia — chs.harvard.edu
  • Pedro Calderón de la Barca, El mágico prodigioso (1637)

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