A história de Cipriano e Justina é uma das lendas cristãs mais antigas e mais contadas. Um mago poderoso, uma jovem que não se deixa vencer, demónios derrotados por um sinal da cruz — e uma conversão que transformou o feiticeiro em santo.
É também a origem de toda a tradição de São Cipriano. Sem esta lenda não haveria orações de São Cipriano nem Livro de São Cipriano.
Nota do Grimório: o que se segue é uma lenda. Vem de textos gregos de meados do século IV, escritos para edificar os fiéis, e não há provas de que as personagens tenham existido. Contamo-la tal como a tradição a transmitiu, indicando onde as versões divergem. Para o que é história documentada, veja A História de São Cipriano.
As personagens
- Cipriano — mago pagão de Antioquia, formado nos grandes santuários do mundo antigo.
- Justina — jovem de Antioquia, nascida pagã, convertida ao cristianismo. Algumas versões chamam-lhe Justa antes do batismo.
- Aglaides — jovem rico e culto da cidade, apaixonado por Justina.
- Teoctisto — soldado que, no fim, morre com eles.
1. A jovem que escolheu a fé
Justina vivia em Antioquia com os pais, pagãos. Um dia ouviu falar de Cristo e converteu-se. Segundo o texto da Conversão, os pais seguiram-na, e o pai chegou a ser ordenado sacerdote. Justina decidiu consagrar a sua vida a Deus e não casar.
2. O pedido de Aglaides
Aglaides viu Justina e apaixonou-se. Pediu-a em casamento e foi recusado. Algumas versões contam que tentou mesmo levá-la à força, e que ela o afastou com o sinal da cruz.
Humilhado, Aglaides procurou o homem mais temido de Antioquia: Cipriano, o mago. Pediu-lhe que, pela magia, fizesse Justina amá-lo.
3. Os três ataques
Cipriano aceitou. Recorreu aos seus livros e aos seus espíritos e enviou um demónio a Justina, com a missão de despertar nela o desejo por Aglaides.
Justina sentiu-se perturbada durante a noite. Levantou-se, rezou e fez o sinal da cruz — e o demónio fugiu.
Cipriano enviou então um demónio mais poderoso. O resultado foi o mesmo. Por fim, segundo a lenda, chamou o próprio príncipe dos demónios, que prometeu vencer a jovem. Também ele fugiu perante a oração e o sinal da cruz.
4. A pergunta de Cipriano
Três vezes vencido, Cipriano confrontou o demónio: como podia uma jovem vencer as forças que tinham dominado tantas pessoas? O demónio acabou por confessar que nada podia contra o sinal de Cristo.
Foi o momento da viragem. Cipriano percebeu que servia um senhor mais fraco do que o Deus de Justina.
5. A conversão
Cipriano renunciou aos demónios e fez, ele próprio, o sinal da cruz. Procurou o bispo da cidade, levou-lhe os seus livros de magia e queimou-os diante dele — um gesto que se tornou o símbolo da sua conversão. Depois foi batizado.
A Confissão de Cipriano, um dos textos antigos, é apresentada como o discurso em que ele conta publicamente toda a sua vida de mago, para mostrar de onde vinha.
6. O bispo e a abadessa
Segundo a lenda, a conversão de Cipriano foi tão profunda que ele subiu todos os graus da Igreja: leitor, diácono, sacerdote e, por fim, bispo. Justina tornou-se responsável por uma comunidade de mulheres consagradas.
Aqui as versões divergem: as tradições gregas mais tardias chegam a fazer de Cipriano bispo de Cartago, misturando-o com o outro São Cipriano, que é histórico.
7. O martírio
Durante a perseguição do imperador Diocleciano (ou de Décio, conforme as versões), Cipriano e Justina foram presos. A tradição conta que foram torturados — Cipriano suspenso e rasgado, Justina agredida — e lançados numa fornalha, de onde saíram ilesos.
Levados a Nicomédia, foram condenados à morte e decapitados nas margens do rio Galo, a 26 de setembro de 304. Um soldado chamado Teoctisto, comovido com a coragem dos dois, declarou-se cristão e foi executado com eles.
8. As relíquias
Os corpos teriam sido recolhidos por marinheiros cristãos e levados para Roma. A tradição ocidental diz que foram mais tarde colocados na basílica de São João de Latrão.
O que a lenda quer dizer
Lida no seu tempo, a história tem uma mensagem clara: a fé cristã é mais forte do que a magia pagã. O mago mais poderoso do mundo não consegue vencer uma jovem que reza. Por isso Cipriano abandona a magia e queima os seus livros.
É irónico — e muito interessante — que a tradição popular tenha feito exatamente o contrário: guardou o mago e esqueceu os livros queimados. Nos séculos seguintes, o nome de Cipriano passou a dar autoridade a orações e fórmulas mágicas, e ele tornou-se o protetor dos feiticeiros. Na tradição esotérica, esta dupla natureza é vista como um trunfo: alguém que conheceu as trevas e escolheu a luz saberia melhor do que ninguém proteger contra o mal.
A lenda nas artes
- Século V — a imperatriz bizantina Eudócia escreve um poema épico em três livros sobre Cipriano e Justina.
- Século XIII — a Legenda Áurea, de Tiago de Voragine, inclui a história no capítulo «de Santa Justina, virgem», e espalha-a por toda a Europa medieval.
- 1637 — Calderón de la Barca escreve El mágico prodigioso. Nesta versão, Cipriano apaixona-se ele próprio por Justina e vende a alma ao demónio para a conquistar. Muitos estudiosos veem aqui um antecessor da lenda de Fausto.
- Arte religiosa — Cipriano aparece muitas vezes com vestes de bispo e Justina com a palma, símbolo dos mártires.
Justina nas orações populares
Em algumas orações populares atribuídas a São Cipriano, Justina é invocada ao lado dele. Faz sentido com a lenda: foi ela quem resistiu a toda a magia de Cipriano.
➜ 26 de setembro — a festa de Cipriano e Justina
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Fontes
- Catholic Encyclopedia (1913), «Sts. Cyprian and Justina» — newadvent.org
- Orthodox Church in America, «Hieromartyr Cyprian, Virgin Martyr Justina, and Martyr Theoctistus» — oca.org
- Synaxarion of Saints Cyprian and Justina — johnsanidopoulos.com
- «Cyprien et Justine», Wikipédia — fr.wikipedia.org
- Brian Sowers, In Her Own Words: The Life and Poetry of Aelia Eudocia — chs.harvard.edu
- Pedro Calderón de la Barca, El mágico prodigioso (1637)