Portugal tem uma tradição mágica própria. Não é uma cópia da bruxaria inglesa nem do esoterismo francês: nasceu da mistura entre o catolicismo popular, as crenças rurais muito antigas e a vigilância apertada da Igreja e da Inquisição.
Esta secção reúne essa herança. Aqui encontra factos documentados (processos, livros, datas), lendas e costumes populares, sempre identificados como tal.
O que torna a tradição portuguesa única
- Rezar para curar. Em Portugal, a magia popular fala quase sempre a linguagem da oração. A benzedeira invoca Nossa Senhora e os santos, não deuses pagãos.
- Crenças muito antigas. Já no século VI, São Martinho de Dume descrevia camponeses que acendiam velas junto a pedras, árvores e fontes.
- A marca da Inquisição. Entre 1536 e 1821, o Santo Ofício português julgou feiticeiras, ensalmadores e até um profeta sapateiro. Os seus processos são hoje uma das melhores fontes sobre estas crenças.
- Profecia e nação. O sebastianismo juntou esperança religiosa e destino nacional, de Bandarra a Vieira e a Fernando Pessoa.
- O Livro de São Cipriano. Tesouros, mouras encantadas e orações: poucos livros marcaram tanto o imaginário popular português e galego.
O que encontra aqui
Profecia, poetas e ocultistas
➜ O Sebastianismo e as Trovas do Bandarra
O sapateiro de Trancoso, o rei desaparecido em Alcácer-Quibir e a espera pelo «Encoberto».
➜ Fernando Pessoa e o ocultismo
Astrologia, teosofia, escrita automática e a «Mensagem».
➜ Aleister Crowley na Boca do Inferno
O falso suicídio de 1930 em Cascais, encenado com a ajuda de Pessoa.
➜ São Martinho de Dume e as superstições dos camponeses
Um sermão do século VI e a origem dos nomes «segunda-feira», «terça-feira»…
Benzer, rezar e curar
➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal
Quem são, como aprendem e o que benzem.
As fórmulas de cura por palavras e a sua perseguição.
Curandeiros que, segundo a crença, já nasciam com o dom.
A benzedura popular da zona — e porque é preciso ir ao médico.
➜ Espinhela caída e «rezar o bucho»
Males populares, benzeduras e a leitura médica.
Amuletos e sinais de proteção
A estrela de Salomão nas portas e chaminés portuguesas.
Uma cruz espanhola que se tornou amuleto em Portugal e no Brasil.
Lendas e seres do folclore
Tesouros escondidos, fontes e castelos.
➜ O trasgo e o fradinho da mão furada
Os pequenos seres travessos da casa.
➜ O diabo na tradição portuguesa
O Tinhoso, o Mafarrico e as pontes do diabo.
Calendário e costumes
Os nichos das almas do Purgatório à beira das estradas.
Giestas amarelas nas portas e janelas.
As crianças que pedem de porta em porta a 1 de novembro.
➜ Os caretos e o Entrudo transmontano
Máscaras, chocalhos e ritos de inverno.
➜ A queimada galega e o «conxuro»
Uma tradição do outro lado do Minho — e a sua origem recente.
Outras páginas sobre Portugal no Grimório.pt
A história da bruxaria e da Inquisição já tem páginas próprias na Enciclopédia:
Como ler esta secção
Muitas destas crenças ainda estão vivas. Respeitamo-las, mas separamos sempre o que está documentado (um processo da Inquisição, uma carta, uma data) do que é lenda ou crença.
Quando um tema toca na saúde, lembramos sempre o essencial: uma benzedura não substitui o médico.
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Fontes
- José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882.
- José Pedro Paiva, Bruxaria e Superstição num País sem «Caça às Bruxas» (1600-1774), Lisboa, Notícias Editorial, 1997.
- Martinho de Dume, De correctione rusticorum (c. 572) — texto latino