São Cipriano é, provavelmente, a figura mais conhecida da magia popular portuguesa. O seu nome aparece em livros de feitiços, em orações de proteção, em rezas de amor e em histórias contadas à lareira de norte a sul do país — e também na Galiza e no Brasil.
Mas quem foi, afinal, este santo que a tradição transformou em patrono dos feiticeiros? Neste guia separamos com cuidado aquilo que está documentado, aquilo que é lenda e aquilo que pertence à tradição popular. A partir daqui pode aprofundar cada tema nas páginas indicadas.
São Cipriano em 30 segundos
| Nome | Cipriano de Antioquia, chamado «o Mago» |
| Época (segundo a lenda) | Séculos III–IV; martírio em Nicomédia, a 26 de setembro de 304 |
| Figura ligada | Santa Justina, a jovem cristã que, segundo a lenda, o levou à conversão |
| Festa | 26 de setembro (tradição católica); 2 de outubro (Igreja Ortodoxa) |
| Existiu mesmo? | Não há provas históricas. Em 1969 a Igreja Católica retirou a festa do calendário geral por esse motivo |
| Não confundir com | São Cipriano de Cartago, bispo histórico do século III |
| O «Livro de São Cipriano» | Conjunto de grimórios, sobretudo do século XIX, atribuídos ao santo — não foram escritos por ele |
Facto, lenda e tradição: como ler este guia
Quando se fala de São Cipriano, três camadas misturam-se com muita facilidade. Para não confundir o leitor, o Grimório.pt usa sempre esta distinção:
- História documentada — o que as fontes antigas e os historiadores permitem afirmar. Por exemplo: a lenda de Cipriano e Justina já circulava no século IV; a imperatriz Eudócia escreveu um poema sobre ela no século V; em 1620, um processo da Inquisição de Coimbra já menciona um livro manuscrito com o nome de São Cipriano.
- Lenda — a narrativa tradicional da vida do santo: o mago de Antioquia, os demónios, Justina, a conversão e o martírio. É uma história antiga e influente, mas não um relato comprovado.
- Tradição popular — o que o povo fez do santo ao longo dos séculos: as orações, as rezas, os feitiços e os livros que usam o seu nome. É uma tradição real e rica, mas que não deve ser apresentada como «ensinamento» do próprio Cipriano.
Quem foi São Cipriano
Segundo a lenda, Cipriano nasceu numa família pagã rica de Antioquia, uma das grandes cidades do Império Romano. Desde criança foi entregue aos cultos pagãos e viajou para aprender os mistérios e a magia dos grandes centros religiosos da época — o monte Olimpo, Argos, Mênfis no Egito e a Babilónia. Voltou a Antioquia como um mago temido.
A viragem da sua vida deu-se quando um jovem, Aglaides, lhe pediu que usasse a magia para conquistar Justina, uma jovem cristã. Os demónios de Cipriano falharam três vezes perante a fé dela. Impressionado, Cipriano queimou os seus livros de magia, converteu-se, tornou-se sacerdote e, segundo a lenda, bispo. Ele e Justina teriam morrido mártires durante a perseguição do imperador Diocleciano.
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Existiu mesmo?
É a pergunta mais comum — e a resposta honesta é: não há provas de que tenha existido. Os textos mais antigos sobre ele (a Conversão, a Confissão e o Martírio) foram escritos por autores anónimos por volta de meados do século IV e são considerados pelos estudiosos narrativas edificantes, não biografias. Não há registo de nenhum bispo de Antioquia chamado Cipriano.
Por isso, em 1969, a Igreja Católica retirou a festa de São Cipriano e Santa Justina do Calendário Romano Geral, «por falta de provas históricas da sua existência». Isso não apagou a devoção popular — que continua viva, sobretudo em Portugal, na Galiza e no Brasil.
Porque é o «padroeiro dos feiticeiros»?
A lenda original é uma história de conversão: o mago que abandona a magia. Mas o povo guardou sobretudo a primeira parte — a do feiticeiro mais poderoso do seu tempo. Com o passar dos séculos, o nome de Cipriano passou a dar autoridade a orações, fórmulas e livros de magia, e o santo tornou-se, na tradição popular, o protetor de quem pratica as artes ocultas.
Esta é uma leitura popular, não uma posição da Igreja, e é exatamente por isso que tem tanto interesse para quem estuda a magia portuguesa.
O Livro de São Cipriano
O chamado Livro de São Cipriano não é um livro único nem foi escrito pelo santo. É uma família de grimórios — livros de magia — reunidos e impressos sobretudo no século XIX. A edição portuguesa mais conhecida é O Grande Livro de S. Cypriano ou Thesouro do Feiticeiro, da Livraria Económica de Lisboa (c. 1895), que inclui a vida lendária do santo, orações, tesouros encantados da Galiza, cartomancia, magia «preta e branca» e receitas de amor.
Antes das edições impressas houve cópias manuscritas: o investigador José Vieira Leitão encontrou a referência mais antiga conhecida no processo inquisitorial de Pedro Afonso, um curandeiro de Fornelos julgado pela Inquisição de Coimbra em 1620.
Existem versões portuguesas, espanholas e galegas, brasileiras e até uma tradição escandinava independente.
➜ O Livro de São Cipriano — guia completo
➜ História do Livro · As versões do Livro · Estrutura do Livro
Orações atribuídas a São Cipriano
As orações de São Cipriano são das mais procuradas da tradição portuguesa: para proteção, para abrir caminhos, para dinheiro e para o amor. Muitas vêm das edições impressas do Livro; outras foram acrescentadas por editores posteriores ou circulam apenas na tradição oral. Em cada oração indicamos, sempre que possível, a sua origem.
➜ Oração de São Cipriano para abrir caminhos
➜ Oração de São Cipriano para dinheiro
Rituais e tradição popular
Proteção da casa, desfazer bruxaria, feitiços de amor, trabalhos de prosperidade: a tradição popular atribui a São Cipriano uma enorme variedade de práticas. Apresentamo-las como aquilo que são — práticas tradicionais e crenças, descritas para conhecimento — e indicamos quando aparecem no Livro e quando pertencem apenas à tradição oral.
➜ Feitiços de amor do Livro de São Cipriano
São Cipriano em Portugal e na Galiza
Portugal e a Galiza são o coração europeu desta tradição. Na Galiza, o «Ciprianillo» foi durante séculos associado à procura de tesouros encantados; em Portugal, o Livro circulou em edições populares baratas e entrou no imaginário rural. No fim do século XIX, livreiros portugueses levaram-no para o Brasil, onde ganhou novas versões.
➜ São Cipriano e a magia portuguesa
A festa: 26 de setembro
O dia 26 de setembro é a data tradicional do martírio de Cipriano e Justina. Continua a ser o dia de São Cipriano para os devotos e para muitos praticantes da tradição esotérica.
➜ 26 de setembro — a festa de São Cipriano
Perguntas frequentes
São Cipriano é santo da Igreja Católica?
Foi venerado como santo durante séculos e ainda consta de tradições locais, mas a sua festa saiu do calendário universal em 1969 por falta de provas históricas.
São Cipriano escreveu o Livro de São Cipriano?
Não. Os livros com o seu nome são muito posteriores (há referências a manuscritos desde o século XVII, e os exemplares mais antigos que se conservam são do século XIX) e juntam textos de várias origens. A atribuição ao santo é tradicional, não histórica.
São Cipriano de Antioquia e São Cipriano de Cartago são a mesma pessoa?
Não. O de Cartago foi um bispo real, autor de cartas e tratados, morto em 258. Logo no século IV os dois foram confundidos — até por escritores cristãos importantes.
O Livro de São Cipriano é proibido?
Não. É um livro impresso e vende-se em livrarias em Portugal. As histórias sobre o perigo de o ler pertencem ao folclore que rodeia o livro.
Fontes
- José Leitão (trad. e coment.), The Book of St. Cyprian: The Sorcerer's Treasure, Hadean Press, 2014 (catálogo)
- José Vieira Leitão, «"Rosa é a Dama de Ouros; o José é o Rei de Ouros": O Livro de São Cipriano na obra de Camilo Castelo Branco», em S. Martins, C. Pimenta e C. Sobral (org.), Camilo Castelo Branco — Génese e Receção, Lisboa, Bertrand, 2023 — academia.edu
- Ryan Bailey, The Confession of Cyprian of Antioch: Introduction, Text, and Translation, tese de mestrado, McGill University, 2009 — eScholarship@McGill
- Owen Davies, Grimoires: A History of Magic Books, Oxford University Press, 2009 — OUP
- Jerusa Pires Ferreira, O Livro de São Cipriano: uma legenda de massas, São Paulo, Perspectiva, 1992 (catálogo)
- Inês Teixeira Barreto, «O Livro de São Cipriano: a trajetória de um manual de magia no mercado editorial brasileiro», Cadernos de Pós-Graduação em Letras (Univ. Presbiteriana Mackenzie), v. 25, n. 1, 2025, pp. 41–57 — PDF
- Catholic Encyclopedia (1913), «Sts. Cyprian and Justina» — newadvent.org
- Biblioteca Nacional de Portugal, O grande livro de S. Cypriano ou o thesouro do feiticeiro, Lisboa, J. Andrade & Lino de Sousa, [18--] — purl.pt/16504
- Fontes secundárias: «Cyprian and Justina», Wikipedia — en.wikipedia.org; «Livro de São Cipriano», Wikipédia — pt.wikipedia.org