Quem procura «o Livro de São Cipriano» depressa descobre que há muitos. Livros com títulos parecidos, capas diferentes e conteúdos que às vezes quase não coincidem. Não é por acaso: o Livro nunca teve um texto fixo. Cada país, cada editor e cada época acrescentou, cortou e reorganizou.
Nesta página explicamos as quatro grandes tradições e como as distinguir.
Resumo das versões
| Versão | Época principal | Título típico | Traços principais |
|---|---|---|---|
| Portuguesa | Finais do século XIX | O Grande Livro de S. Cypriano ou Thesouro do Feiticeiro | Tom católico, orações a santos, tesouros da Galiza, cartomancia, magia «preta e branca» |
| Espanhola e galega | Séculos XVII–XX | Libro de San Cipriano, Ciprianillo, Libro Infernal | Procura de tesouros, atribuição a Jonas Sulfurino, mistura com outros grimórios |
| Brasileira | 1882 em diante | Livro de São Cipriano, «Capa Preta», «Capa de Aço» | Parte das edições portuguesas e acrescenta orações e elementos afro-brasileiros |
| Escandinava | Séculos XVII–XIX | Cyprianus (livros negros) | Tradição independente; partilha só o nome do santo |
A versão portuguesa
É a versão que dá o nome de Thesouro do Feiticeiro ao Livro. Foi impressa em Lisboa e no Porto na segunda metade do século XIX por várias casas editoras, com destaque para a Livraria Económica de Lisboa (c. 1895). Uma edição de J. Andrade & Lino de Sousa (ligados à Livraria Económica, segundo a bibliografia de Félix Castro Vicente) está digitalizada e em domínio público na Biblioteca Nacional.
O que a distingue:
- um forte tom católico. As orações invocam Deus, a Virgem, os anjos e os santos; os exorcismos imitam fórmulas da Igreja;
- uma vida de São Cipriano logo no início, que segue a lenda clássica;
- capítulos práticos muito variados: sinais de malefícios, fantasmas nas encruzilhadas, desencanto de tesouros, cartomancia, leitura da sina;
- a «magia preta e branca», a Cruz de São Bartolomeu e os «segredos da feitiçaria»;
- um terceiro volume com os Tesouros da Galiza, os «Engrimanços», os «Poderes ocultos do Ódio e do Amor», a alquimia e a história da Feiticeira de Évora.
Na versão portuguesa, a «Feiticeira de Évora» é uma história e não uma autora. É o conto da bruxa Lagarrona, tirado da História das Antiguidades de Évora (1739). Não existe uma «versão da Bruxa de Évora» do Livro.
A versão espanhola e galega
Em Espanha, e sobretudo na Galiza, o Livro chama-se muitas vezes Libro de San Cipriano ou, na forma popular galega, Ciprianillo.
O que a distingue:
- a atribuição a um monge copista, Jonas Sulfurino («Jonas Sulfuroso»), que teria encontrado e copiado o livro original. É uma figura da lenda do próprio livro;
- a ligação muito forte à procura de tesouros em castros e mamoas da Galiza. É uma tradição que remonta pelo menos ao século XVII, com o sacerdote Pedro Vázquez de Orxás (licença real de 1609);
- a mistura com outros grimórios europeus. O Libro Infernal junta partes do Grande Grimório, da Chave de Salomão e do Petit Albert e foi traduzido para italiano em 1920 pelo próprio editor;
- a edição de Bernardo Barreiro, Brujos y astrólogos de la Inquisición de Galicia y el famoso Libro de San Cipriano (1885).
A tradição galega e a portuguesa estão muito ligadas: os «Tesouros da Galiza» estão no centro da edição portuguesa.
As versões brasileiras
O Livro chegou ao Brasil a partir de Portugal: o primeiro anúncio conhecido é de 1876, no Rio de Janeiro, e a Livraria Quaresma publicou-o a partir de 1882. As primeiras edições brasileiras seguiam a portuguesa da Livraria Económica.
Ao longo do século XX, as edições brasileiras afastaram-se cada vez mais do original:
- editoras como a Espiritualista e a Eco lançaram versões novas, muitas vezes com títulos que prometiam ser mais completas ou mais «antigas»: «Capa Preta», «Capa de Aço», «Verdadeiro», «Gigante»;
- foram acrescentadas ou transformadas orações que não aparecem assim nas edições portuguesas antigas. A mais famosa é a Oração da Cabra Preta;
- entraram elementos da Umbanda, da Quimbanda e do Catimbó, que fazem destas versões um retrato do sincretismo religioso brasileiro.
As edições brasileiras são muito vendidas também em Portugal. Por isso, muita gente pensa que certas orações e rituais «vêm do Livro de São Cipriano» quando, na verdade, vêm destas edições tardias.
Os Cyprianus escandinavos
Na Escandinávia, sobretudo na Noruega, existem os chamados Cyprianus: «livros negros» (svartebøker) manuscritos de magia popular, com fórmulas de proteção, cura e malefício. O mais antigo livro negro escandinavo conhecido, o de Vinje, é do fim do século XV. Muitos apresentam-se como obra de Cipriano: os de Elverum, por exemplo, dizem resumir um Cyprianus de 1682.
São uma tradição distinta. Partilham com o Livro ibérico apenas o nome do santo, como autoridade mágica, e não o conteúdo.
Qual é a versão «verdadeira»?
Não há uma versão verdadeira e outra falsa. Há edições mais antigas e edições mais recentes, e tradições diferentes. Para quem estuda a tradição portuguesa, a referência é a edição do Thesouro do Feiticeiro do final do século XIX. Para quem estuda o Brasil, as edições da Quaresma e as posteriores contam outra história, igualmente interessante.
O mais importante é saber qual versão se tem nas mãos. Três perguntas ajudam:
- Quem editou e quando? Uma edição portuguesa moderna que reproduz o texto do século XIX é diferente de uma edição brasileira do século XX.
- Tem a Oração da Cabra Preta? Se tem, é uma edição brasileira ou inspirada nelas.
- Tem os «Tesouros da Galiza» e a «Feiticeira de Évora»? São marcas da tradição portuguesa da Livraria Económica.
Onde consultar
- Edição portuguesa do século XIX, gratuita e em domínio público: Biblioteca Nacional Digital — purl.pt/16504.
- Edição portuguesa atual, em três partes: O Grande Livro de São Cipriano ou O Tesouro do Feiticeiro, Nascente (2.ª ed., 2024).
- Estudo e tradução comentada: José Leitão, The Book of St. Cyprian: The Sorcerer's Treasure (Hadean Press, 2014).
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➜ Ler a Vida de S. Cypriano e o índice de uma edição lisboeta antiga
Fontes
- José Leitão (trad. e coment.), The Book of St. Cyprian: The Sorcerer's Treasure, Hadean Press, 2014 (catálogo)
- Félix Francisco Castro Vicente, «The Books of Saint Cyprian» (bibliografia de edições), em Dan Harms (ed.), Papers Falling from an Attic Window, 2010 — danharms.wordpress.com
- Inês Teixeira Barreto, «O Livro de São Cipriano: a trajetória de um manual de magia no mercado editorial brasileiro», Cadernos de Pós-Graduação em Letras (Univ. Presbiteriana Mackenzie), v. 25, n. 1, 2025, pp. 41–57 — PDF
- Jerusa Pires Ferreira, O Livro de São Cipriano: uma legenda de massas, São Paulo, Perspectiva, 1992 (catálogo)
- Bernardo Barreiro, Brujos y astrólogos de la Inquisición de Galicia y el famoso Libro de San Cipriano, 1885; reed. Madrid, Akal, 1973 (catálogo)
- Ane Ohrvik, Medicine, Magic and Art in Early Modern Norway: Conceptualizing Knowledge, Palgrave Macmillan, 2018 — link.springer.com
- Luca Taglianetti, «The Architecture of Magic. Toward a Canon of Scandinavian svartebøker?», Folia Scandinavica Posnaniensia, 37 (2025) — PDF
- Biblioteca Nacional de Portugal, O grande livro de S. Cypriano ou o thesouro do feiticeiro, Lisboa, J. Andrade & Lino de Sousa, [18--] — purl.pt/16504
- «As Bruxas de Évora», Espelho de Circe — espelhodecirce.com.br
- «El Ciprianillo…», El Español / Quincemil (2023) — elespanol.com
- Antigo livro de São Cipriano, o Gigante e verdadeiro Capa de Aço, N. A. Molina — Google Livros
- Fontes secundárias: «Book of Saint Cyprian», Wikipedia — en.wikipedia.org; «Cyprianus», Wikipedia — en.wikipedia.org