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📖 Livro de São Cipriano

As versões do Livro de São Cipriano

Existem vários Livros de São Cipriano. Conheça as diferenças entre a versão portuguesa, a espanhola e galega (Ciprianillo), as edições brasileiras e os Cyprianus escandinavos.

6 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Resumo das versões
  2. A versão portuguesa
  3. A versão espanhola e galega
  4. As versões brasileiras
  5. Os Cyprianus escandinavos
  6. Qual é a versão «verdadeira»?
  7. Onde consultar
  8. Continue a ler
  9. Fontes

Quem procura «o Livro de São Cipriano» depressa descobre que há muitos. Livros com títulos parecidos, capas diferentes e conteúdos que às vezes quase não coincidem. Não é por acaso: o Livro nunca teve um texto fixo. Cada país, cada editor e cada época acrescentou, cortou e reorganizou.

Nesta página explicamos as quatro grandes tradições e como as distinguir.

Resumo das versões

Versão Época principal Título típico Traços principais
Portuguesa Finais do século XIX O Grande Livro de S. Cypriano ou Thesouro do Feiticeiro Tom católico, orações a santos, tesouros da Galiza, cartomancia, magia «preta e branca»
Espanhola e galega Séculos XVII–XX Libro de San Cipriano, Ciprianillo, Libro Infernal Procura de tesouros, atribuição a Jonas Sulfurino, mistura com outros grimórios
Brasileira 1882 em diante Livro de São Cipriano, «Capa Preta», «Capa de Aço» Parte das edições portuguesas e acrescenta orações e elementos afro-brasileiros
Escandinava Séculos XVII–XIX Cyprianus (livros negros) Tradição independente; partilha só o nome do santo

A versão portuguesa

É a versão que dá o nome de Thesouro do Feiticeiro ao Livro. Foi impressa em Lisboa e no Porto na segunda metade do século XIX por várias casas editoras, com destaque para a Livraria Económica de Lisboa (c. 1895). Uma edição de J. Andrade & Lino de Sousa (ligados à Livraria Económica, segundo a bibliografia de Félix Castro Vicente) está digitalizada e em domínio público na Biblioteca Nacional.

O que a distingue:

  • um forte tom católico. As orações invocam Deus, a Virgem, os anjos e os santos; os exorcismos imitam fórmulas da Igreja;
  • uma vida de São Cipriano logo no início, que segue a lenda clássica;
  • capítulos práticos muito variados: sinais de malefícios, fantasmas nas encruzilhadas, desencanto de tesouros, cartomancia, leitura da sina;
  • a «magia preta e branca», a Cruz de São Bartolomeu e os «segredos da feitiçaria»;
  • um terceiro volume com os Tesouros da Galiza, os «Engrimanços», os «Poderes ocultos do Ódio e do Amor», a alquimia e a história da Feiticeira de Évora.

Na versão portuguesa, a «Feiticeira de Évora» é uma história e não uma autora. É o conto da bruxa Lagarrona, tirado da História das Antiguidades de Évora (1739). Não existe uma «versão da Bruxa de Évora» do Livro.

➜ Estrutura do Livro

A versão espanhola e galega

Em Espanha, e sobretudo na Galiza, o Livro chama-se muitas vezes Libro de San Cipriano ou, na forma popular galega, Ciprianillo.

O que a distingue:

  • a atribuição a um monge copista, Jonas Sulfurino («Jonas Sulfuroso»), que teria encontrado e copiado o livro original. É uma figura da lenda do próprio livro;
  • a ligação muito forte à procura de tesouros em castros e mamoas da Galiza. É uma tradição que remonta pelo menos ao século XVII, com o sacerdote Pedro Vázquez de Orxás (licença real de 1609);
  • a mistura com outros grimórios europeus. O Libro Infernal junta partes do Grande Grimório, da Chave de Salomão e do Petit Albert e foi traduzido para italiano em 1920 pelo próprio editor;
  • a edição de Bernardo Barreiro, Brujos y astrólogos de la Inquisición de Galicia y el famoso Libro de San Cipriano (1885).

A tradição galega e a portuguesa estão muito ligadas: os «Tesouros da Galiza» estão no centro da edição portuguesa.

As versões brasileiras

O Livro chegou ao Brasil a partir de Portugal: o primeiro anúncio conhecido é de 1876, no Rio de Janeiro, e a Livraria Quaresma publicou-o a partir de 1882. As primeiras edições brasileiras seguiam a portuguesa da Livraria Económica.

Ao longo do século XX, as edições brasileiras afastaram-se cada vez mais do original:

  • editoras como a Espiritualista e a Eco lançaram versões novas, muitas vezes com títulos que prometiam ser mais completas ou mais «antigas»: «Capa Preta», «Capa de Aço», «Verdadeiro», «Gigante»;
  • foram acrescentadas ou transformadas orações que não aparecem assim nas edições portuguesas antigas. A mais famosa é a Oração da Cabra Preta;
  • entraram elementos da Umbanda, da Quimbanda e do Catimbó, que fazem destas versões um retrato do sincretismo religioso brasileiro.

As edições brasileiras são muito vendidas também em Portugal. Por isso, muita gente pensa que certas orações e rituais «vêm do Livro de São Cipriano» quando, na verdade, vêm destas edições tardias.

Os Cyprianus escandinavos

Na Escandinávia, sobretudo na Noruega, existem os chamados Cyprianus: «livros negros» (svartebøker) manuscritos de magia popular, com fórmulas de proteção, cura e malefício. O mais antigo livro negro escandinavo conhecido, o de Vinje, é do fim do século XV. Muitos apresentam-se como obra de Cipriano: os de Elverum, por exemplo, dizem resumir um Cyprianus de 1682.

São uma tradição distinta. Partilham com o Livro ibérico apenas o nome do santo, como autoridade mágica, e não o conteúdo.

Qual é a versão «verdadeira»?

Não há uma versão verdadeira e outra falsa. Há edições mais antigas e edições mais recentes, e tradições diferentes. Para quem estuda a tradição portuguesa, a referência é a edição do Thesouro do Feiticeiro do final do século XIX. Para quem estuda o Brasil, as edições da Quaresma e as posteriores contam outra história, igualmente interessante.

O mais importante é saber qual versão se tem nas mãos. Três perguntas ajudam:

  1. Quem editou e quando? Uma edição portuguesa moderna que reproduz o texto do século XIX é diferente de uma edição brasileira do século XX.
  2. Tem a Oração da Cabra Preta? Se tem, é uma edição brasileira ou inspirada nelas.
  3. Tem os «Tesouros da Galiza» e a «Feiticeira de Évora»? São marcas da tradição portuguesa da Livraria Económica.

Onde consultar

  • Edição portuguesa do século XIX, gratuita e em domínio público: Biblioteca Nacional Digital — purl.pt/16504.
  • Edição portuguesa atual, em três partes: O Grande Livro de São Cipriano ou O Tesouro do Feiticeiro, Nascente (2.ª ed., 2024).
  • Estudo e tradução comentada: José Leitão, The Book of St. Cyprian: The Sorcerer's Treasure (Hadean Press, 2014).

➜ História do Livro de São Cipriano

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Continue a ler

➜ Ler a Vida de S. Cypriano e o índice de uma edição lisboeta antiga

Fontes

  • José Leitão (trad. e coment.), The Book of St. Cyprian: The Sorcerer's Treasure, Hadean Press, 2014 (catálogo)
  • Félix Francisco Castro Vicente, «The Books of Saint Cyprian» (bibliografia de edições), em Dan Harms (ed.), Papers Falling from an Attic Window, 2010 — danharms.wordpress.com
  • Inês Teixeira Barreto, «O Livro de São Cipriano: a trajetória de um manual de magia no mercado editorial brasileiro», Cadernos de Pós-Graduação em Letras (Univ. Presbiteriana Mackenzie), v. 25, n. 1, 2025, pp. 41–57 — PDF
  • Jerusa Pires Ferreira, O Livro de São Cipriano: uma legenda de massas, São Paulo, Perspectiva, 1992 (catálogo)
  • Bernardo Barreiro, Brujos y astrólogos de la Inquisición de Galicia y el famoso Libro de San Cipriano, 1885; reed. Madrid, Akal, 1973 (catálogo)
  • Ane Ohrvik, Medicine, Magic and Art in Early Modern Norway: Conceptualizing Knowledge, Palgrave Macmillan, 2018 — link.springer.com
  • Luca Taglianetti, «The Architecture of Magic. Toward a Canon of Scandinavian svartebøker?», Folia Scandinavica Posnaniensia, 37 (2025) — PDF
  • Biblioteca Nacional de Portugal, O grande livro de S. Cypriano ou o thesouro do feiticeiro, Lisboa, J. Andrade & Lino de Sousa, [18--] — purl.pt/16504
  • «As Bruxas de Évora», Espelho de Circe — espelhodecirce.com.br
  • «El Ciprianillo…», El Español / Quincemil (2023) — elespanol.com
  • Antigo livro de São Cipriano, o Gigante e verdadeiro Capa de Aço, N. A. Molina — Google Livros
  • Fontes secundárias: «Book of Saint Cyprian», Wikipedia — en.wikipedia.org; «Cyprianus», Wikipedia — en.wikipedia.org

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