A água lustral é água usada para purificar pessoas, lugares e objetos. O nome vem do latim lustralis, ligado à lustratio, a cerimónia romana de purificação.
É uma das práticas rituais mais antigas que se conhecem. Passou dos templos gregos e romanos para as igrejas cristãs, na forma de água benta, e chegou à tradição esotérica atual. Nesta página contamos essa história e explicamos como se usa hoje.
Na Grécia antiga
Nos santuários gregos, era comum haver bacias de água à entrada, chamadas perirrhanteria. Quem entrava molhava as mãos ou aspergia-se, para chegar «puro» diante dos deuses.
A água usada nos sacrifícios chamava-se chernips. Lavar as mãos antes de rezar ou de fazer uma oferenda era um gesto básico da religião grega.
Em Roma: a lustratio
Para os romanos, a lustratio era uma cerimónia de purificação feita com procissões, orações e sacrifícios. Purificavam-se cidades, campos, exércitos e rebanhos.
Os recém-nascidos também eram purificados: no dies lustricus, ao 8.º dia de vida para as meninas e ao 9.º para os meninos, a criança recebia o nome.
A aspersão com água aparece na literatura. Na Eneida (livro VI), Virgílio descreve Corineu a purificar os companheiros, andando três vezes à volta deles e aspergindo-os com um ramo de oliveira molhado.
A água benta cristã
O cristianismo herdou o gesto e deu-lhe um sentido novo: a água passou a lembrar o batismo.
- As Constituições Apostólicas, um texto de cerca do ano 400, já falam de água abençoada.
- Na tradição latina, a bênção da água era acompanhada de sal bento.
- As igrejas passaram a ter pias de água benta à entrada, uma herança clara das bacias dos templos antigos.
- A aspersão dos fiéis durante a missa canta o Salmo 51: «aspergi-me com o hissope e ficarei puro».
O Catecismo da Igreja Católica inclui a água benta entre os sacramentais, sinais sagrados que preparam para a graça, e não objetos mágicos.
➜ A água na magia e na tradição
Em Portugal
Na religiosidade popular portuguesa, a água benta sempre teve lugar em casa. Levava-se da igreja numa garrafinha para benzer a casa, os campos, os animais e os doentes.
As benzedeiras usavam-na, muitas vezes com um raminho de alecrim ou de oliveira, a aspergir em cruz. Este é o uso mais próximo da antiga água lustral que chegou até nós.
Na tradição esotérica moderna
Hoje, muitos praticantes chamam «água lustral» a uma água preparada em casa, com sal e ervas, usada para limpar espaços e objetos. É uma prática moderna, inspirada na história antiga, e não uma receita romana.
Uma preparação simples, a partir das práticas mais comuns:
- Encha uma taça com água limpa.
- Junte uma pitada de sal grosso e um raminho de alecrim (Salvia rosmarinus).
- Diga uma oração ou uma intenção de limpeza.
- Asperja com o raminho os cantos da casa, a porta de entrada ou os objetos.
Precauções: não beba esta água; não a use nos olhos; o sal pode estragar madeira encerada, tecidos delicados e aparelhos elétricos; deite fora o que sobrar no fim do dia.
➜ Alecrim
Continue a ler
➜ Limpeza espiritual: guia geral
➜ Defumação: como fazer com segurança
Fontes
- «Lustratio», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Holy water», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Virgílio, Eneida, livro VI (texto latino) — The Latin Library
- «Ritual Usage of Water in Greek Sanctuaries», Klio, De Gruyter — degruyterbrill.com
- Catecismo da Igreja Católica, §§ 1667–1679 (Sacramentais) — vatican.va