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As bruxas de Évora: a lenda da Lagarrona e a história real

A lenda da feiticeira Lagarrona, contada em 1739 nas Antiguidades de Évora e no Livro de São Cipriano, e os processos reais da Inquisição de Évora.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. A fonte mais antiga: um livro de 1739
  2. A lenda da Lagarrona
  3. A «Feiticeira de Évora» no Livro de São Cipriano
  4. A história real: a Inquisição de Évora
  5. Porque é que a lenda sobreviveu
  6. Continue a ler
  7. Fontes

Quem conhece o Livro de São Cipriano português conhece a «Feiticeira de Évora». É uma das personagens mais famosas da magia popular portuguesa e do Brasil.

Mas de onde vem esta história? E houve mesmo feiticeiras julgadas em Évora?

Nesta página separamos com clareza a lenda (a feiticeira Lagarrona), o livro que a espalhou (o Livro de São Cipriano) e a história documentada (os processos da Inquisição de Évora).

A fonte mais antiga: um livro de 1739

A história da feiticeira aparece na História das Antiguidades de Évora, publicada em 1739. O livro saiu com o nome de Amador Patrício, que é um pseudónimo: os estudiosos atribuem a obra a Martim Cardoso de Azevedo.

É uma obra de erudição local do século XVIII, que mistura história, lendas e antiguidades da cidade. É lá que surge a feiticeira Lagarrona.

A lenda da Lagarrona

Segundo o relato de 1739, a Lagarrona era uma moura, descrita como «mágica e encantadora». A história conta-se, em resumo, assim:

  • O filho e a cristã. O filho da Lagarrona apaixonou-se por uma jovem cristã. A mãe previu, pelas suas artes, que o perderia por causa desse amor.
  • A invisibilidade. Para o proteger, tornou-o invisível e chegou a transformá-lo num burro, levado pelos ares.
  • A noiva que nunca casava. Com feitiços postos debaixo da almofada, impedia que a jovem e o noivo consumassem o casamento. Com encantamentos cosidos na roupa do noivo, fazia-o morrer em vinte e quatro horas. O mesmo aconteceu a mais dois pretendentes.
  • As ilusões. Criava visões de palácios, jardins frescos, caçadas e torneios.
  • O fim. Quando o filho foi preso e condenado, a Lagarrona tentou salvá-lo, fazendo cair nuvens negras tão espessas que escureceram o ar. Interrompida pelos oficiais de justiça, morreu. O seu corpo foi enforcado à porta de casa, e o lugar ficou com o seu nome.

A jovem cristã, sempre prometida e nunca casada, é a «sempre noiva» do título que a história teria mais tarde.

É lenda ou história?

É lenda. Não há nenhum documento que prove a existência da Lagarrona. A história tem os traços típicos das lendas portuguesas de mouras encantadas: a moura com poderes mágicos, o amor entre mouros e cristãos, os encantamentos e os tesouros escondidos.

O próprio livro de 1739 mistura factos com tradições que hoje sabemos serem lendárias, como as histórias fantasiosas sobre a origem do Templo Romano de Évora.

A «Feiticeira de Évora» no Livro de São Cipriano

No final do século XIX, os editores lisboetas do Livro de São Cipriano incluíram a história com o título:

A Feiticeira de Évora ou História da Sempre Noiva

O texto baseia-se no relato de 1739. As expressões «Feiticeira de Évora» e «Bruxa de Évora» vêm dos títulos dados pelos editores, não do texto antigo.

A história continua em edições atuais. Na edição portuguesa de 2024 do Grande Livro de São Cipriano, aparece como «A Feiticeira de Évora ou História da Sempre Noiva (feitiçarias diabólicas de Lagarrona)».

Algumas edições brasileiras contam uma história diferente, com outras personagens e novos episódios. Essas versões não correspondem ao texto de 1739.

➜ A história do Livro de São Cipriano

➜ As versões do Livro de São Cipriano

➜ São Cipriano e a magia portuguesa

A história real: a Inquisição de Évora

Enquanto a Lagarrona é lenda, a Inquisição de Évora é bem real. Funcionou entre 1536 e 1821 e julgava os casos do Alentejo e do Algarve.

O seu arquivo, hoje na Torre do Tombo, guarda mais de 11 700 processos. A grande maioria diz respeito a cristãos-novos acusados de judaísmo, não a feitiçaria.

Ainda assim, houve processos por magia e feitiçaria. A historiadora Daniela Buono Calainho estudou alguns:

  • Maria Tomé, parteira que vivia em Évora, foi acusada em 1744 de provocar a morte de várias crianças.
  • Estêvão Luís, homem forro de Beja, ganhou fama de curandeiro por volta de 1680 e foi processado.

Como no resto do país, as penas por feitiçaria eram quase sempre penitências, açoites ou degredo, e não a fogueira.

O edifício do antigo tribunal, junto à Sé de Évora, ainda existe: é o Palácio da Inquisição.

➜ A Inquisição em Portugal

➜ Bruxaria em Portugal: um país sem caça às bruxas

Porque é que a lenda sobreviveu

A Feiticeira de Évora junta três coisas que marcaram o imaginário português: as mouras encantadas, o Alentejo e o Livro de São Cipriano.

Graças ao Livro, a personagem viajou para o Brasil e tornou-se conhecida em todo o mundo de língua portuguesa. Continua a inspirar livros e a curiosidade de quem visita Évora. Mas a Lagarrona é, e sempre foi, uma personagem de lenda.

Continue a ler

➜ Alentejo: lendas e feitiçaria

➜ Bruxas famosas da história portuguesa

➜ O Livro de São Cipriano

➜ Feitiçaria portuguesa

➜ Guia completo de São Cipriano

➜ Enciclopédia do Oculto

Fontes

  • Amador Patrício [Martim Cardoso de Azevedo], História das Antiguidades de Évora, 1739.
  • O Grande Livro de São Cipriano ou O Tesouro do Feiticeiro, Nascente, 2024 — índice (PDF)
  • «As Bruxas de Évora», Espelho de Circe (análise do texto de 1739 e da versão do Livro de São Cipriano) — espelhodecirce.com.br
  • Arquivo Nacional Torre do Tombo, fundo «Inquisição de Évora» (PT/TT/TSO-IE) — digitarq.arquivos.pt
  • Daniela Buono Calainho, «Jambacousses e gangazambes: feiticeiros negros em Portugal», Afro-Ásia, 25–26, 2001 — redalyc.org

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