As runas são hoje vendidas como «o oráculo dos vikings»: pedras ou peças de madeira com sinais angulosos, tiradas de um saquinho. Mas a sua história é bem diferente.
Antes de mais, as runas eram um alfabeto. Os povos germânicos usaram-nas durante mais de mil anos para escrever nomes, memórias, inscrições em pedras e objetos. O uso como oráculo, tal como o conhecemos, é sobretudo do século XX.
Nesta página separamos o que a história documenta do que é prática moderna.
O que diz a história
Os alfabetos rúnicos
Os alfabetos rúnicos chamam-se futhark, pelas primeiras seis letras: F, U, Th, A, R, K.
| Alfabeto | Características |
|---|---|
| Futhark antigo | 24 runas, em três grupos de oito; c. 150–800 d.C. |
| Futhark recente | 16 runas; Escandinávia, c. 800–1100 (Era Viking) |
| Futhorc anglo-saxónico | 29 a 33 runas; Inglaterra |
As inscrições mais antigas conhecidas são do século II, como o pente de Vimose, na Dinamarca (c. 160 d.C.). Muitas das pedras rúnicas mais famosas, na Suécia e na Dinamarca, são da Era Viking e servem de memoriais.
Havia adivinhação com runas?
Não se sabe com certeza. O historiador romano Tácito, na Germânia (c. 98 d.C.), descreve os germanos a lançar pauzinhos marcados com sinais para tirar sortes. Mas Tácito escreve antes das primeiras inscrições rúnicas conhecidas, e não diz que os sinais eram runas.
Algumas inscrições parecem ter uso mágico ou de proteção. Mas não existe nenhum manual antigo de adivinhação com runas.
O uso divinatório moderno
O oráculo de runas como hoje se vende nasceu em 1982, com o livro The Book of Runes, do americano Ralph Blum. Blum:
- deu a cada runa um significado de autoajuda;
- mudou a ordem tradicional;
- acrescentou uma «runa em branco», que nunca existiu em nenhum alfabeto histórico.
Outros autores, como Stephen Flowers (Edred Thorsson), criaram sistemas próprios, mais ligados a fontes antigas. Mas todos são interpretações modernas.
As 24 runas do futhark antigo
Os nomes das runas não estão escritos nas inscrições antigas: foram reconstruídos pelos linguistas a partir dos poemas rúnicos (o inglês antigo e os escandinavos medievais). Os significados abaixo são os nomes reconstruídos, não sentidos divinatórios.
| Runa | Nome e sentido do nome |
|---|---|
| ᚠ | Fehu — gado, riqueza |
| ᚢ | Uruz — auroque (boi selvagem) |
| ᚦ | Thurisaz — gigante ou espinho |
| ᚨ | Ansuz — deus |
| ᚱ | Raidho — viagem, cavalgada |
| ᚲ | Kenaz — tocha |
| ᚷ | Gebo — dádiva |
| ᚹ | Wunjo — alegria |
| ᚺ | Hagalaz — granizo |
| ᚾ | Naudiz — necessidade |
| ᛁ | Isaz — gelo |
| ᛃ | Jera — ano, colheita |
| ᛇ | Eihwaz — teixo |
| ᛈ | Perthro — sentido incerto (copo de dados?) |
| ᛉ | Algiz — alce |
| ᛊ | Sowilo — sol |
| ᛏ | Tiwaz — o deus Tyr |
| ᛒ | Berkanan — bétula |
| ᛖ | Ehwaz — cavalo |
| ᛗ | Mannaz — homem |
| ᛚ | Laguz — água, lago |
| ᛜ | Ingwaz — o deus Ing |
| ᛞ | Dagaz — dia |
| ᛟ | Othala — herança |
(A ordem das duas últimas varia entre inscrições.)
Um aviso: runas e extremismo
No início do século XX, o ocultista austríaco Guido von List inventou as «runas Armanen» (1908). Estas ideias foram depois aproveitadas pelo nazismo — a insígnia das SS usava a runa Sowilo. Algumas runas continuam a ser usadas por grupos extremistas.
Isto não torna as runas más: são um património cultural antigo. Mas convém conhecer esta história.
Uma nota importante
O oráculo de runas é uma prática moderna de reflexão. Não prevê o futuro. Decisões de saúde, dinheiro e justiça pedem profissionais.
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Fontes
- «Runes», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Elder Futhark», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Tácito, Germânia, cap. 10 (c. 98 d.C.)
- Ralph Blum, The Book of Runes, Nova Iorque, St. Martin's Press, 1982