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Paganismo: antigo e moderno

O que significa paganismo: origem da palavra, as religiões pré-cristãs (incluindo Endovélico na Lusitânia), São Martinho de Dume e o paganismo moderno.

3 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. De onde vem a palavra
  2. As religiões antigas
  3. O paganismo no território português
  4. Sobrevivências? Com cautela
  5. O paganismo moderno
  6. Crenças comuns
  7. Paganismo não é satanismo
  8. Continue a ler
  9. Fontes

«Pagão» é uma palavra que mudou muito de sentido. Durante séculos foi usada pelos cristãos para designar, de forma negativa, quem seguia as religiões antigas — gregos, romanos, celtas, germânicos.

Hoje, paganismo moderno (ou neopaganismo) é o nome que muitos grupos dão a si próprios: religiões atuais que se inspiram nesses cultos antigos e na natureza.

São duas realidades diferentes e convém não as confundir.

De onde vem a palavra

Vem do latim paganus, que significava «habitante do pagus», ou seja, da aldeia, do campo. Os historiadores ainda discutem porque passou a designar os não cristãos. Uma explicação comum é que o cristianismo se espalhou primeiro nas cidades e o culto antigo resistiu mais tempo no campo.

As religiões antigas

Antes do cristianismo, a Europa tinha muitas religiões diferentes, não uma só. Eram geralmente:

  • politeístas — muitos deuses e deusas;
  • ligadas a lugares sagrados: fontes, montes, bosques, pedras;
  • marcadas pelo calendário agrícola e pelas estações;
  • centradas em rituais e oferendas, mais do que em dogmas escritos.

Com os imperadores cristãos, os cultos antigos foram sendo proibidos. Entre 391 e 392, leis do imperador Teodósio proibiram os sacrifícios pagãos em todo o Império.

O paganismo no território português

Endovélico

O exemplo mais famoso é Endovélico, um deus da Lusitânia pré-romana. O seu santuário, em São Miguel da Mota, no Alentejo, deixou numerosas inscrições e altares votivos. Na época romana foi associado a Esculápio, deus da medicina, e o seu culto manteve-se durante vários séculos.

São Martinho de Dume e os «rústicos»

No século VI, o bispo São Martinho de Dume (ou de Braga) escreveu De correctione rusticorum («Da correção dos rústicos»). Nele condena costumes que ainda existiam no Noroeste peninsular:

  • acender velas junto a pedras, árvores e fontes;
  • deitar pão em fontes e observar os dias dos deuses;
  • dar aos dias da semana nomes de deuses pagãos.

É por isso que se atribui em parte à sua influência o facto de o português dizer segunda-feira, terça-feira… em vez de nomes de deuses, como noutras línguas. A adoção destes nomes foi, contudo, um processo lento e da Igreja em geral, não obra de um só homem.

➜ Druidas

➜ Feitiçaria portuguesa

Sobrevivências? Com cautela

Muitas vezes diz-se que certas festas populares — como as fogueiras de São João — são «restos pagãos». É uma hipótese plausível em alguns casos, mas raramente pode ser provada. Costumes mudam, misturam-se e reinventam-se ao longo dos séculos.

➜ Santos populares em Portugal

O paganismo moderno

No século XX, sobretudo a partir dos anos 1950, surgiram na Europa e na América novas religiões que se inspiram nas antigas. As principais correntes:

Corrente Inspiração
Wicca Bruxaria moderna, deusa e deus
Druidismo Tradições celtas
Paganismo nórdico (Ásatrú) Deuses germânicos e escandinavos
Helenismo Deuses gregos
Paganismo eclético Mistura pessoal de várias fontes

O historiador Ronald Hutton mostrou que estas religiões são, na maioria, criações modernas inspiradas no passado — e não continuações diretas e ininterruptas dos cultos antigos. Muitos praticantes aceitam hoje essa conclusão sem que isso diminua o valor da sua fé.

Na Islândia, o Ásatrúarfélagið foi reconhecido oficialmente como comunidade religiosa em 1973.

Crenças comuns

  • A natureza vista como sagrada.
  • Festas ligadas às estações: solstícios, equinócios e datas intermédias (a «Roda do Ano»).
  • Frequentemente, crença em vários deuses ou numa deusa e num deus.
  • Grande liberdade individual e ausência de uma autoridade central.

➜ Solstício de verão

➜ Equinócio da primavera

Paganismo não é satanismo

É uma confusão frequente. Os pagãos modernos, em geral, nem sequer acreditam no Diabo, que é uma figura da tradição cristã. Paganismo, bruxaria e satanismo são coisas diferentes.

Continue a ler

➜ Wicca

➜ Xamanismo

➜ New Age

Fontes

  • Hutton, Ronald, The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft, Oxford University Press, 1999
  • Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, «Etimologia dos dias da semana» — ciberduvidas.iscte-iul.pt
  • Wikipédia, «Endovélico» — pt.wikipedia.org
  • Wikipedia, «De correctione rusticorum» — en.wikipedia.org

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