Na Galiza, o Livro de São Cipriano tem um nome carinhoso e temido: Ciprianillo, «o pequeno Cipriano». Durante gerações, foi o livro de quem sonhava encontrar ouro escondido debaixo das mámoas e dos castros.
A promessa era simples: uma lista de lugares onde mouros e romanos teriam enterrado riquezas, e as fórmulas para as «desencantar».
A realidade foi menos dourada. Quase ninguém ficou rico. Mas a procura destruiu muitos monumentos pré-históricos — e deixou marcas na literatura e no folclore galego e português.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Ciprianillo; Libro de San Cipriano; Libro de San Ciprián |
| Região | Galiza, com ligações ao Norte de Portugal |
| Data | Discutida: entre o séc. XVI e o início do séc. XIX |
| Autoria | Anónima; atribuída a São Cipriano |
| Conteúdo | Listas de tesouros, conjuros, remédios, feitiços de amor, mau-olhado |
| Primeira edição conhecida | Bernardo Barreiro, Corunha, 1885 |
O que é o Ciprianillo
«Ciprianillo» é o nome popular galego de vários livros de magia atribuídos a São Cipriano. Não é um texto único: circularam manuscritos e edições diferentes.
O que os une é a parte dos tesouros: listas de locais concretos onde estariam escondidas riquezas, com indicações do tipo «junto a uma fonte» ou «debaixo de uma pedra», e conjuros para as libertar dos encantamentos que as guardariam.
Além disso, trazia o que se esperava de um livro de São Cipriano: esconjuros e exorcismos, remédios contra o mau-olhado, feitiços de amor e fórmulas para as trovoadas.
Os tesouros dos «mouros»
Na tradição galega e portuguesa, as construções antigas — castros, mámoas (antas cobertas de terra), minas romanas — eram atribuídas aos «mouros». A crença popular dizia que estes tinham deixado tesouros encantados, guardados por seres mágicos.
É a mesma crença das mouras encantadas do folclore português.
Isto é lenda e tradição. As mámoas são túmulos do Neolítico, muito anteriores aos muçulmanos.
A licença de 1609: um facto documentado
A caça aos tesouros galegos não era só coisa de lenda. A 26 de maio de 1609, o rei Filipe III de Espanha concedeu ao sacerdote Pedro Vázquez de Orxás uma licença para escavar mámoas entre Caldas de Reis e Padrón. A Coroa ficaria com uma parte do ouro encontrado.
Segundo as fontes galegas, pouco depois o próprio Vázquez queixava-se de que centenas de mámoas tinham sido abertas ilegalmente por outros caçadores de tesouros.
Os buscadores ficaram conhecidos como «ciprianistas» ou «ciprianillos». A fama que ficou deles foi a de gente que perdia o dinheiro — e às vezes o juízo — atrás de tesouros que nunca apareciam.
Quando foi escrito?
Não se sabe ao certo. Há três posições:
| Proposta | Data |
|---|---|
| Opinião mais comum | Séculos XVI–XVII |
| Bernardo Barreiro (1885) | Séc. XIX ou pouco antes, porque não aparece nos processos da Inquisição |
| Álvarez Blázquez | Fim do séc. XVIII ou início do XIX, talvez em Santiago, por alguém que troçava das superstições |
Circula também a lenda de que o original teria vinte volumes, guardados acorrentados em bibliotecas por ordem da Inquisição. Não há documentos que o confirmem.
As edições
- 1885 — Bernardo Barreiro, Brujos y astrólogos de la Inquisición de Galicia y el famoso libro de San Cipriano (Corunha). É a primeira edição galega conhecida. Segundo alguns autores, Barreiro publicou-o para desacreditar a crença no livro. Foi reeditado em Madrid em 1973.
- 1974 — primeira edição em língua galega, preparada por Xosé María Álvarez Blázquez.
- Houve ainda edições anónimas em Madrid e em Leipzig, e versões portuguesas e brasileiras.
O número de tesouros muda de edição para edição. Segundo o investigador Modesto Rodríguez Figueiredo, a edição de Leipzig lista 146, e uma edição publicada no Rio de Janeiro pela Livraria Garnier chega aos 174.
A ligação ao livro português
O Livro de São Cipriano português herdou esta tradição. O seu terceiro volume inclui os «Tesouros da Galiza» e há ainda um capítulo sobre o «desencanto dos tesouros».
Rodríguez Figueiredo notou que algumas listas incluem também lugares em território português. A fronteira entre a Galiza e o Norte de Portugal nunca separou estas crenças.
➜ São Cipriano e a magia portuguesa
➜ História do Livro de São Cipriano
O preço da lenda: o património destruído
A procura de tesouros teve um custo real. Mámoas e castros foram esventrados durante séculos, sobretudo a partir do século XVII. Hoje, esses monumentos estão protegidos por lei, em Espanha e em Portugal.
Escavar sítios arqueológicos sem autorização é crime. A melhor forma de honrar esta tradição é conhecê-la — e proteger os monumentos.
Na literatura
O poeta galego Manuel Curros Enríquez dedicou-lhe o poema «O Ciprianillo», no livro Aires da miña terra (1880). Criticava as falsas promessas do livro e dizia que a verdadeira riqueza da Galiza estava na sua cultura e na sua língua.
Continue a ler
➜ As versões do Livro de São Cipriano
➜ O Livro de São Cipriano «Capa Preta»
➜ Guia completo de São Cipriano
Fontes
- «O Ciprianillo», Galipedia — gl.wikipedia.org
- Modesto Rodríguez Figueiredo, «Do Libro de San Ciprián e do Castelo de Mau Vizinho», Trabalhos de Antropologia e Etnologia (Porto) — PDF
- «El Ciprianillo, un libro mágico que desvela todos los tesoros…», El Español / Quincemil, 2023 — elespanol.com
- Bernardo Barreiro, Brujos y astrólogos de la Inquisición de Galicia y el famoso libro de San Cipriano, Corunha, 1885.