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📖 Livro de São Cipriano

O Ciprianillo, o livro dos tesouros da Galiza

O Ciprianillo, o livro de São Cipriano da Galiza: listas de tesouros escondidos, os caçadores de mámoas e castros, a licença de 1609 e a ligação ao livro português.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. O que é o Ciprianillo
  3. Os tesouros dos «mouros»
  4. A licença de 1609: um facto documentado
  5. Quando foi escrito?
  6. As edições
  7. A ligação ao livro português
  8. O preço da lenda: o património destruído
  9. Na literatura
  10. Continue a ler
  11. Fontes

Na Galiza, o Livro de São Cipriano tem um nome carinhoso e temido: Ciprianillo, «o pequeno Cipriano». Durante gerações, foi o livro de quem sonhava encontrar ouro escondido debaixo das mámoas e dos castros.

A promessa era simples: uma lista de lugares onde mouros e romanos teriam enterrado riquezas, e as fórmulas para as «desencantar».

A realidade foi menos dourada. Quase ninguém ficou rico. Mas a procura destruiu muitos monumentos pré-históricos — e deixou marcas na literatura e no folclore galego e português.

Ficha

Campo Informação
Nome Ciprianillo; Libro de San Cipriano; Libro de San Ciprián
Região Galiza, com ligações ao Norte de Portugal
Data Discutida: entre o séc. XVI e o início do séc. XIX
Autoria Anónima; atribuída a São Cipriano
Conteúdo Listas de tesouros, conjuros, remédios, feitiços de amor, mau-olhado
Primeira edição conhecida Bernardo Barreiro, Corunha, 1885

O que é o Ciprianillo

«Ciprianillo» é o nome popular galego de vários livros de magia atribuídos a São Cipriano. Não é um texto único: circularam manuscritos e edições diferentes.

O que os une é a parte dos tesouros: listas de locais concretos onde estariam escondidas riquezas, com indicações do tipo «junto a uma fonte» ou «debaixo de uma pedra», e conjuros para as libertar dos encantamentos que as guardariam.

Além disso, trazia o que se esperava de um livro de São Cipriano: esconjuros e exorcismos, remédios contra o mau-olhado, feitiços de amor e fórmulas para as trovoadas.

Os tesouros dos «mouros»

Na tradição galega e portuguesa, as construções antigas — castros, mámoas (antas cobertas de terra), minas romanas — eram atribuídas aos «mouros». A crença popular dizia que estes tinham deixado tesouros encantados, guardados por seres mágicos.

É a mesma crença das mouras encantadas do folclore português.

Isto é lenda e tradição. As mámoas são túmulos do Neolítico, muito anteriores aos muçulmanos.

➜ As mouras encantadas

A licença de 1609: um facto documentado

A caça aos tesouros galegos não era só coisa de lenda. A 26 de maio de 1609, o rei Filipe III de Espanha concedeu ao sacerdote Pedro Vázquez de Orxás uma licença para escavar mámoas entre Caldas de Reis e Padrón. A Coroa ficaria com uma parte do ouro encontrado.

Segundo as fontes galegas, pouco depois o próprio Vázquez queixava-se de que centenas de mámoas tinham sido abertas ilegalmente por outros caçadores de tesouros.

Os buscadores ficaram conhecidos como «ciprianistas» ou «ciprianillos». A fama que ficou deles foi a de gente que perdia o dinheiro — e às vezes o juízo — atrás de tesouros que nunca apareciam.

Quando foi escrito?

Não se sabe ao certo. Há três posições:

Proposta Data
Opinião mais comum Séculos XVI–XVII
Bernardo Barreiro (1885) Séc. XIX ou pouco antes, porque não aparece nos processos da Inquisição
Álvarez Blázquez Fim do séc. XVIII ou início do XIX, talvez em Santiago, por alguém que troçava das superstições

Circula também a lenda de que o original teria vinte volumes, guardados acorrentados em bibliotecas por ordem da Inquisição. Não há documentos que o confirmem.

As edições

  • 1885 — Bernardo Barreiro, Brujos y astrólogos de la Inquisición de Galicia y el famoso libro de San Cipriano (Corunha). É a primeira edição galega conhecida. Segundo alguns autores, Barreiro publicou-o para desacreditar a crença no livro. Foi reeditado em Madrid em 1973.
  • 1974 — primeira edição em língua galega, preparada por Xosé María Álvarez Blázquez.
  • Houve ainda edições anónimas em Madrid e em Leipzig, e versões portuguesas e brasileiras.

O número de tesouros muda de edição para edição. Segundo o investigador Modesto Rodríguez Figueiredo, a edição de Leipzig lista 146, e uma edição publicada no Rio de Janeiro pela Livraria Garnier chega aos 174.

A ligação ao livro português

O Livro de São Cipriano português herdou esta tradição. O seu terceiro volume inclui os «Tesouros da Galiza» e há ainda um capítulo sobre o «desencanto dos tesouros».

Rodríguez Figueiredo notou que algumas listas incluem também lugares em território português. A fronteira entre a Galiza e o Norte de Portugal nunca separou estas crenças.

➜ São Cipriano e a magia portuguesa

➜ História do Livro de São Cipriano

O preço da lenda: o património destruído

A procura de tesouros teve um custo real. Mámoas e castros foram esventrados durante séculos, sobretudo a partir do século XVII. Hoje, esses monumentos estão protegidos por lei, em Espanha e em Portugal.

Escavar sítios arqueológicos sem autorização é crime. A melhor forma de honrar esta tradição é conhecê-la — e proteger os monumentos.

Na literatura

O poeta galego Manuel Curros Enríquez dedicou-lhe o poema «O Ciprianillo», no livro Aires da miña terra (1880). Criticava as falsas promessas do livro e dizia que a verdadeira riqueza da Galiza estava na sua cultura e na sua língua.

Continue a ler

➜ O Livro de São Cipriano

➜ As versões do Livro de São Cipriano

➜ O Livro de São Cipriano «Capa Preta»

➜ Guia completo de São Cipriano

Fontes

  • «O Ciprianillo», Galipedia — gl.wikipedia.org
  • Modesto Rodríguez Figueiredo, «Do Libro de San Ciprián e do Castelo de Mau Vizinho», Trabalhos de Antropologia e Etnologia (Porto) — PDF
  • «El Ciprianillo, un libro mágico que desvela todos los tesoros…», El Español / Quincemil, 2023 — elespanol.com
  • Bernardo Barreiro, Brujos y astrólogos de la Inquisición de Galicia y el famoso libro de San Cipriano, Corunha, 1885.

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