Quem procura o Livro de São Cipriano encontra quase sempre títulos como «Capa Preta», «Capa de Aço», «O Legítimo», «O Gigante e Verdadeiro». Muitos pensam que são livros antigos e secretos, diferentes do livro «normal».
Não são. São nomes comerciais de edições populares brasileiras do século XX. Partem da edição portuguesa do século XIX, mas acrescentaram, cortaram e transformaram muito do texto.
Nesta página contamos de onde vêm e como os distinguir das edições portuguesas.
➜ As versões do Livro de São Cipriano
Resumo
| Pergunta | Resposta curta |
|---|---|
| O que é o «Capa Preta»? | Um nome de capa usado por várias edições brasileiras |
| É mais antigo que o português? | Não. As edições portuguesas são anteriores |
| Tem um autor? | Muitas edições são anónimas; várias são assinadas por «N. A. Molina» |
| É igual ao português? | Não. Tem textos acrescentados no Brasil |
Como o livro chegou ao Brasil
O Livro de São Cipriano chegou ao Brasil vindo de Portugal. Segundo a historiadora Inês Barreto, o primeiro anúncio conhecido é de 1876, no jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. Os primeiros exemplares eram importados de Lisboa.
Em 1882, a Livraria Quaresma, do Rio, publicou a sua própria edição: O Grande Livro de São Cypriano ou o Thesouro do Feiticeiro — o mesmo título das edições portuguesas.
O sucesso foi enorme. Um relatório de 1916 registou mais de mil exemplares vendidos num só mês. Em 1948, o jornalista Cassiano Nunes chamou-lhe um best-seller «ao lado da Bíblia».
➜ História do Livro de São Cipriano
O nascimento das edições «brasileiras»
A partir dos anos 1940, o livro começou a mudar. Várias editoras lançaram versões novas, cada uma a prometer ser mais completa e mais verdadeira do que a anterior:
- Brasil Editora (c. 1940) — O Livro Gigante de São Cipriano – O Mais Completo e Verdadeiro;
- Editora Espiritualista (antiga Aurora), a partir de 1957 — várias versões, entre elas as de «N. A. Molina», como O Antigo Livro de São Cipriano: O Gigante e Verdadeiro Capa de Aço, e um Livro Negro de São Cipriano;
- Editora Eco e outras, entre os anos 1950 e 1970.
N. A. Molina é um dos nomes mais presentes nestas edições. A sua identidade é desconhecida e pode ser um pseudónimo. Livros com o seu nome continuam à venda.
O que significa «Capa Preta» e «Capa de Aço»
São nomes de capa, não de tradições antigas. «Capa Preta» remete para a cor da capa e para a fama de livro «proibido». «Capa de Aço» sugere um livro resistente, «blindado».
Há edições diferentes com o mesmo nome e o mesmo nome em edições diferentes. Dois livros «Capa Preta» podem ter conteúdos bem diferentes.
Alguns textos de apresentação prometem amor, dinheiro, emprego e sorte ao jogo, e avisam que o livro nunca deve ser emprestado. São frases de venda. Nenhum livro garante resultados.
O que mudou em relação às edições portuguesas
O que continua
- a vida lendária de São Cipriano;
- muitas orações católicas populares, esconjuros e exorcismos;
- partes de cartomancia, sonhos e receitas populares.
O que foi acrescentado
- orações que não existem nas edições portuguesas antigas. A mais famosa é a Oração da Cabra Preta, que Inês Barreto liga ao Catimbó do Rio Grande do Norte;
- elementos da Umbanda e da Quimbanda, como pontos, entidades e oferendas;
- mais «trabalhos» de amor e de dinheiro, alguns de natureza coerciva.
Muitos destes acréscimos pedem para controlar a vontade de outra pessoa. Explicamos a sua existência como facto editorial; não os reproduzimos.
Um livro português que «voltou» brasileiro
As edições brasileiras vendem-se muito em Portugal. Por isso, muita gente em Portugal pensa que a Oração da Cabra Preta ou certos rituais «vêm do Livro de São Cipriano» português. Na verdade, vêm destas edições brasileiras do século XX.
Isto não as torna falsas: são um documento valioso do sincretismo religioso brasileiro. Mas são outra coisa.
Como identificar a edição que tem em casa
- Veja a editora e o ano. Brasil Editora, Espiritualista, Eco ou «N. A. Molina» indicam tradição brasileira.
- Procure a Oração da Cabra Preta. Se lá estiver, é uma edição brasileira ou inspirada nelas.
- Desconfie de promessas na capa. «Legítimo», «proibido», «600 páginas» são argumentos comerciais.
➜ Como ler o Livro de São Cipriano
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➜ Guia completo de São Cipriano
Fontes
- Inês Teixeira Barreto, O Livro de São Cipriano: a trajetória de um grimório (Universidade Presbiteriana Mackenzie) — PDF
- Inês Barreto, «O Livro de São Cipriano», O Voo da Bruxa — ovoodabruxa.substack.com
- «Book of Saint Cyprian», Wikipedia — en.wikipedia.org
- José Leitão, The Book of St. Cyprian: The Sorcerer's Treasure, Hadean Press, 2014.