Quase todas as terras de Portugal têm uma: uma moura encantada que vive numa fonte, num castelo, numa anta ou num penedo. Aparece na noite de São João a pentear os cabelos com um pente de ouro, ou transforma-se em serpente.
As mouras são figuras do folclore, não do paranormal. Pertencem à tradição oral, às lendas de terra e ao estudo dos etnógrafos.
Nesta página explicamos quem são, o que dizem os estudiosos e porque aparecem tão ligadas aos tesouros escondidos e ao Livro de São Cipriano.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Moura encantada (também «moira») |
| Tipo | Figura feminina do folclore |
| Região | Portugal e Galiza; paralelos nas Astúrias e noutras regiões |
| Lugares | Fontes, rios, poços, castelos, pontes, antas, castros, grutas |
| Formas | Donzela, serpente, fiandeira, mulher velha, animais |
| Data forte | Noite e manhã de São João |
| Associada a | Tesouros («ouro dos mouros») e desencantamentos |
Quem são as mouras
Para José Leite de Vasconcelos, as mouras encantadas são seres obrigados por uma força sobrenatural oculta a viver num estado de cerco, como se estivessem adormecidos. Consiglieri Pedroso chamou-lhes «génios femininos das águas».
Nas lendas, a moura está presa por um encantamento e só pode ser libertada por alguém que cumpra certas condições. Muitas vezes guarda um tesouro.
«Moura»: mulher moura ou outra coisa?
O nome parece falar das mouras muçulmanas da Idade Média. Muitas lendas contam, de facto, que os mouros fugiram na Reconquista e deixaram tesouros enterrados, guardados por uma princesa encantada.
Mas os estudiosos notam que as mouras aparecem sobretudo em monumentos muito mais antigos: antas, mamoas, castros. Por isso há outras propostas para a origem do nome:
- ligação a uma palavra céltica que significaria «morto», o que faria dos «mouros» os antigos habitantes, os antepassados;
- ligação às moiras gregas, as deusas do destino.
Nenhuma destas etimologias está provada. O certo é que, na tradição popular, «mouro» passou a querer dizer quase tudo o que era antigo, pagão e de antes do tempo cristão.
Onde aparecem e em que forma
As mouras vivem em lugares de passagem, onde o mundo de cá toca no outro: fontes, poços, rios, pontes, grutas, penedos e ruínas.
As formas mais conhecidas são:
- A donzela de cabelos de ouro, que se penteia junto a uma fonte.
- A moura-serpente, que guarda uma fonte ou um tesouro.
- A moura fiandeira, que carrega pedras à cabeça enquanto fia — a lenda atribui-lhe a construção de castros e antas.
- A moura que pede parteira ou a velha, formas mais raras.
A noite de São João é o momento principal. Diz a tradição que é quando as mouras aparecem e quando o encanto pode ser quebrado.
O desencanto e o «ouro dos mouros»
As lendas repetem um padrão. A moura oferece riquezas a quem a desencantar — mas o «ouro dos mouros» vem disfarçado: figos, carvões, meadas de fio, pedras.
Para a libertar é preciso guardar segredo, não olhar para trás, dar-lhe pão sem sal ou leite, dizer certas palavras. Se a pessoa falha, o encanto dobra e o tesouro perde-se. Quando tudo corre bem, a moura pode casar com quem a libertou ou desaparecer.
Mouras, tesouros e o Livro de São Cipriano
As mouras explicam uma parte importante da fama do Livro de São Cipriano na Península.
Na Galiza, a busca de tesouros nos castros e mamoas foi uma atividade real. Em 1609, o padre Pedro Vázquez de Orxás obteve do rei uma licença para escavar. Daí nasceu a fama do Ciprianillo, o livro dos tesoureiros.
As edições portuguesas do Livro de São Cipriano trazem um capítulo sobre o «Desencanto dos Tesouros» e os «Tesouros da Galiza». Prometem aquilo que as lendas das mouras contavam: tesouros escondidos e fórmulas para os tirar do encanto.
Essa promessa é crença. Os factos são outros: a caça aos tesouros danificou muitos monumentos pré-históricos, e hoje escavar sítios arqueológicos sem autorização é proibido por lei.
➜ Estrutura do Livro de São Cipriano
Quem recolheu estas lendas
- Almeida Garrett evocou as mouras no poema D. Branca: figuras brancas, de cabelos como fios de ouro, a dançar junto às fontes na noite de São João.
- Francisco Xavier de Ataíde Oliveira publicou As mouras encantadas e os encantamentos no Algarve (1898).
- Martins Sarmento usou lendas de mouras para localizar monumentos antigos.
- Alexandre Parafita, em A Mitologia dos Mouros (2006), reuniu 263 lendas e variantes e distinguiu os «mouros históricos» dos «mouros míticos».
Continue a ler
➜ São Cipriano e a magia portuguesa
➜ O trasgo e os seres domésticos
Fontes
- «Moura encantada», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- «Enchanted Moura», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Alexandre Parafita, A Mitologia dos Mouros, Porto, Gailivro, 2006
- F. X. de Ataíde Oliveira, As mouras encantadas e os encantamentos no Algarve, 1898
- José Leite de Vasconcelos, Opúsculos, vol. V (Etnologia)