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🏺 Tradição Portuguesa

As mouras encantadas: lendas, tesouros e encantamentos

As mouras encantadas do folclore português e galego: quem são, onde aparecem, a noite de São João, os tesouros dos mouros e a ligação ao Livro de São Cipriano.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. Quem são as mouras
  3. «Moura»: mulher moura ou outra coisa?
  4. Onde aparecem e em que forma
  5. O desencanto e o «ouro dos mouros»
  6. Mouras, tesouros e o Livro de São Cipriano
  7. Quem recolheu estas lendas
  8. Continue a ler
  9. Fontes

Quase todas as terras de Portugal têm uma: uma moura encantada que vive numa fonte, num castelo, numa anta ou num penedo. Aparece na noite de São João a pentear os cabelos com um pente de ouro, ou transforma-se em serpente.

As mouras são figuras do folclore, não do paranormal. Pertencem à tradição oral, às lendas de terra e ao estudo dos etnógrafos.

Nesta página explicamos quem são, o que dizem os estudiosos e porque aparecem tão ligadas aos tesouros escondidos e ao Livro de São Cipriano.

Ficha

Campo Informação
Nome Moura encantada (também «moira»)
Tipo Figura feminina do folclore
Região Portugal e Galiza; paralelos nas Astúrias e noutras regiões
Lugares Fontes, rios, poços, castelos, pontes, antas, castros, grutas
Formas Donzela, serpente, fiandeira, mulher velha, animais
Data forte Noite e manhã de São João
Associada a Tesouros («ouro dos mouros») e desencantamentos

Quem são as mouras

Para José Leite de Vasconcelos, as mouras encantadas são seres obrigados por uma força sobrenatural oculta a viver num estado de cerco, como se estivessem adormecidos. Consiglieri Pedroso chamou-lhes «génios femininos das águas».

Nas lendas, a moura está presa por um encantamento e só pode ser libertada por alguém que cumpra certas condições. Muitas vezes guarda um tesouro.

«Moura»: mulher moura ou outra coisa?

O nome parece falar das mouras muçulmanas da Idade Média. Muitas lendas contam, de facto, que os mouros fugiram na Reconquista e deixaram tesouros enterrados, guardados por uma princesa encantada.

Mas os estudiosos notam que as mouras aparecem sobretudo em monumentos muito mais antigos: antas, mamoas, castros. Por isso há outras propostas para a origem do nome:

  • ligação a uma palavra céltica que significaria «morto», o que faria dos «mouros» os antigos habitantes, os antepassados;
  • ligação às moiras gregas, as deusas do destino.

Nenhuma destas etimologias está provada. O certo é que, na tradição popular, «mouro» passou a querer dizer quase tudo o que era antigo, pagão e de antes do tempo cristão.

➜ As fadas e as moiras

Onde aparecem e em que forma

As mouras vivem em lugares de passagem, onde o mundo de cá toca no outro: fontes, poços, rios, pontes, grutas, penedos e ruínas.

As formas mais conhecidas são:

  • A donzela de cabelos de ouro, que se penteia junto a uma fonte.
  • A moura-serpente, que guarda uma fonte ou um tesouro.
  • A moura fiandeira, que carrega pedras à cabeça enquanto fia — a lenda atribui-lhe a construção de castros e antas.
  • A moura que pede parteira ou a velha, formas mais raras.

A noite de São João é o momento principal. Diz a tradição que é quando as mouras aparecem e quando o encanto pode ser quebrado.

➜ Solstício de verão

O desencanto e o «ouro dos mouros»

As lendas repetem um padrão. A moura oferece riquezas a quem a desencantar — mas o «ouro dos mouros» vem disfarçado: figos, carvões, meadas de fio, pedras.

Para a libertar é preciso guardar segredo, não olhar para trás, dar-lhe pão sem sal ou leite, dizer certas palavras. Se a pessoa falha, o encanto dobra e o tesouro perde-se. Quando tudo corre bem, a moura pode casar com quem a libertou ou desaparecer.

Mouras, tesouros e o Livro de São Cipriano

As mouras explicam uma parte importante da fama do Livro de São Cipriano na Península.

Na Galiza, a busca de tesouros nos castros e mamoas foi uma atividade real. Em 1609, o padre Pedro Vázquez de Orxás obteve do rei uma licença para escavar. Daí nasceu a fama do Ciprianillo, o livro dos tesoureiros.

As edições portuguesas do Livro de São Cipriano trazem um capítulo sobre o «Desencanto dos Tesouros» e os «Tesouros da Galiza». Prometem aquilo que as lendas das mouras contavam: tesouros escondidos e fórmulas para os tirar do encanto.

Essa promessa é crença. Os factos são outros: a caça aos tesouros danificou muitos monumentos pré-históricos, e hoje escavar sítios arqueológicos sem autorização é proibido por lei.

➜ O Ciprianillo galego

➜ Estrutura do Livro de São Cipriano

Quem recolheu estas lendas

  • Almeida Garrett evocou as mouras no poema D. Branca: figuras brancas, de cabelos como fios de ouro, a dançar junto às fontes na noite de São João.
  • Francisco Xavier de Ataíde Oliveira publicou As mouras encantadas e os encantamentos no Algarve (1898).
  • Martins Sarmento usou lendas de mouras para localizar monumentos antigos.
  • Alexandre Parafita, em A Mitologia dos Mouros (2006), reuniu 263 lendas e variantes e distinguiu os «mouros históricos» dos «mouros míticos».

Continue a ler

➜ São Cipriano e a magia portuguesa

➜ O trasgo e os seres domésticos

➜ Tradição portuguesa

Fontes

  • «Moura encantada», Wikipédia — pt.wikipedia.org
  • «Enchanted Moura», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Alexandre Parafita, A Mitologia dos Mouros, Porto, Gailivro, 2006
  • F. X. de Ataíde Oliveira, As mouras encantadas e os encantamentos no Algarve, 1898
  • José Leite de Vasconcelos, Opúsculos, vol. V (Etnologia)

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