A encruzilhada, o lugar onde dois ou mais caminhos se cruzam, é um dos espaços mais carregados de simbolismo nas tradições mágicas e religiosas.
Nesta página contamos porque é que a encruzilhada ganhou esse lugar, na Europa antiga e nas religiões afro-brasileiras, e explicamos o que é a «amarração em encruzilhada» anunciada hoje. Não damos instruções para a fazer.
A encruzilhada como símbolo
Uma encruzilhada é um lugar de escolha: é ali que se decide o caminho. É também um lugar de passagem, que não pertence a ninguém. Muitas culturas viram nela uma fronteira entre este mundo e outro.
Na Grécia e em Roma: Hécate
Na Grécia antiga, a deusa Hécate estava ligada às portas, aos limites e às encruzilhadas. Os romanos chamavam-lhe Trívia, «a dos três caminhos».
Uma vez por mês, na Lua escura, deixava-se à porta de casa a chamada ceia de Hécate (deipnon): pão, bolos, ovos, peixe, mel. A intenção era honrar a deusa e aplacar as almas inquietas que a acompanhavam, não prender ninguém.
Nas religiões afro-brasileiras: Exu
No candomblé, Exu é o orixá dos caminhos e, sobretudo, das encruzilhadas. É o mensageiro entre os seres humanos e as divindades, e recebe oferendas antes de todos os outros orixás.
Dois esclarecimentos importantes:
- A identificação de Exu com o diabo é um erro de tradução do século XIX, de missionários cristãos. Na tradição iorubá, Exu não é um ser maligno.
- Os exus da umbanda têm uma cosmologia diferente do orixá Exu do candomblé.
As oferendas deixadas em encruzilhadas, que por vezes se veem também em Portugal, vêm sobretudo destas tradições. Para quem as pratica, são atos religiosos, que merecem respeito.
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A «amarração em encruzilhada»
Os anúncios apresentam a encruzilhada como um «portal» onde as entidades teriam «mais poder» para trazer a pessoa amada.
Aqui convém separar:
- O simbolismo da encruzilhada é antigo e documentado.
- A ideia de que um ritual na encruzilhada prende alguém é uma crença, sem qualquer prova.
- Usar entidades de religiões vivas como «ferramentas» para amarrar alguém é visto por muitos praticantes dessas religiões como um desrespeito.
O Grimório.pt não ensina rituais para prender a vontade de ninguém.
➜ Amarração amorosa: a crença e a ética
Segurança e respeito pelo espaço público
Deixar velas acesas, garrafas, alimentos ou animais na via pública é perigoso (incêndios, acidentes), suja o espaço de todos e pode ser proibido. Qualquer prática com animais está fora de questão.
➜ Como usar velas com segurança
Expectativas honestas
Nenhum trabalho espiritual garante resultados, seja feito em casa, num templo ou numa encruzilhada. O lugar não torna a promessa verdadeira.
Antes de contratar
Desconfie de quem:
- diz que o seu caso é «tão difícil» que só a encruzilhada resolve (e cobra mais por isso);
- promete resultados ou prazos;
- pede dinheiro para oferendas cada vez maiores.
Peça preço total por escrito e fatura.
➜ Como escolher um bruxo sério e evitar burlas
Perguntas frequentes
Encontrei uma oferenda numa encruzilhada. É perigoso?
Não há prova de que faça mal a quem passa. Por respeito, não mexa. Se houver fogo aceso ou risco, avise as autoridades.
Exu é o diabo?
Não. Essa associação é um erro histórico de tradução. Exu é o orixá mensageiro e dos caminhos.
A encruzilhada tem significado em Portugal?
Como lugar de escolha e de passagem, sim, como em quase todas as culturas. As oferendas de tipo afro-brasileiro são mais recentes.
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Fontes
- «Hecate», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Exu (orixá)», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- Sarah Iles Johnston, Restless Dead: Encounters between the Living and the Dead in Ancient Greece, University of California Press, 1999.