Quem pesquisa «amarração amorosa» está quase sempre a passar por um momento difícil: uma separação, um amor que não é correspondido, o medo de perder alguém.
Esta página explica o que é a amarração segundo a crença, de onde vem esta ideia, o que dizem a ética e o bom senso e o que pode esperar, com honestidade, de qualquer trabalho espiritual. É também o ponto de partida para as restantes páginas da secção.
O que é uma amarração
Amarração é um termo popular de Portugal e do Brasil. Designa um ritual que pretende «atar» uma pessoa a outra: fazê-la voltar, ficar, ou deixar de desejar outras pessoas.
A imagem é antiga e diz muito: não se trata de pedir amor, mas de prender a vontade de alguém. É por isso que a amarração é uma das práticas mais discutidas, e mais criticadas, dentro do próprio meio esotérico.
De onde vem a crença
Tabuinhas de chumbo gregas e romanas
Os gregos chamavam katadesmos («ligação») e os romanos defixio a finas folhas de chumbo gravadas com pedidos aos deuses do mundo subterrâneo. Eram enterradas em túmulos ou lançadas a poços.
Conhecem-se cerca de 1600 tabuinhas. A maioria trata de tribunais, negócios ou corridas, mas no período helenístico tornaram-se populares os feitiços eróticos, os agogai, destinados a «atrair» alguém para si.
No Museu do Louvre há uma figura de barro atada e trespassada por alfinetes, encontrada no Egito romano com uma tabuinha deste tipo.
Os Papiros Mágicos Gregos
Os chamados Papiros Mágicos Gregos, escritos no Egito entre o século II a.C. e o século V d.C., reúnem receitas de feitiços de atração muito parecidos com as amarrações de hoje.
Feitiços de amor na Idade Média
A magia amorosa foi comum em toda a Europa medieval. A Igreja condenava-a como superstição ou pacto com o demónio. Em Portugal, os processos da Inquisição registam orações, «cartas de tocar» e outros recursos para atrair ou prender alguém.
O Livro de São Cipriano
No século XIX, o Livro de São Cipriano espalhou em Portugal e no Brasil receitas para «obter amor» e «apressar casamentos». A palavra «amarração», com o sentido comercial que tem hoje, vem sobretudo dos anúncios de serviços do século XX e da internet.
➜ Amarração de São Cipriano: o que diz a tradição
Como a tradição diz que atua
Segundo a crença, uma amarração usa três coisas: uma representação da pessoa (nome, fotografia, objeto), a invocação de uma força (santo, espírito, entidade) e materiais e repetições (velas, mel, nós, orações, fases da Lua).
O antropólogo James Frazer chamou a este raciocínio magia simpática: o que se faz à imagem ou ao objeto afetaria a pessoa. É uma forma de pensar muito antiga. Não há qualquer prova de que mude os sentimentos de alguém.
➜ Como funciona uma amarração: a crença explicada
Ética: o problema do livre-arbítrio
A objeção principal é simples: a amarração procura anular a liberdade de outra pessoa.
- No cristianismo, o livre-arbítrio é visto como um dom que não deve ser violado.
- Em muitas correntes da bruxaria moderna, vale a regra de «não fazer mal a ninguém».
- Na tradição popular, fala-se do retorno: o mal feito voltaria a quem o fez.
A própria lenda de São Cipriano conta um feitiço de amor que falhou: Justina recusou, e foi essa liberdade que converteu o mago.
O Grimório.pt não ensina rituais para prender, dominar ou forçar ninguém. Explica a crença, a história e as alternativas.
Expectativas honestas
Nenhum trabalho espiritual garante resultados. Não há prazos, percentagens nem amarrações «definitivas».
Quando uma pessoa volta depois de um ritual, é impossível saber se voltaria de qualquer forma. E os «sinais» (sonhos, mensagens, coincidências) são muitas vezes lidos à luz da esperança.
Quem procura um praticante pode fazê-lo por conforto, por fé ou por tradição. É uma escolha pessoal. Mas deve ser feita com informação e sem pressa.
➜ Sintomas de amarração a fazer efeito: o que há de verdade
➜ A amarração dura para sempre?
Antes de contratar qualquer praticante
Pergunte e confirme:
- Quanto custa tudo, à partida, e se há fatura.
- O que vai ser feito, de forma concreta.
- Se lhe prometem resultados ou prazos: se sim, desconfie.
Sinais de alerta: garantias, pedidos sucessivos de dinheiro para «reforçar», ameaças («se parar, vai correr mal»), ou um «trabalho feito» contra si diagnosticado à distância. Tem direito a orçamento, a fatura e ao Livro de Reclamações.
➜ Como escolher um bruxo sério e evitar burlas
Quando a dor é grande
Um desgosto de amor pode tirar o sono e a vontade de viver o dia. Falar ajuda: com amigos, com a família, com um psicólogo. A linha SNS 24 (808 24 24 24) tem aconselhamento psicológico. Se há violência ou ameaças na relação, a APAV (116 006) pode ajudar.
As páginas desta secção
Pela forma da crença
Pela tradição
Pela situação
Promessas a desmontar
Perguntas frequentes
A amarração é o mesmo que um feitiço de amor?
São parentes. O feitiço de amor pode pedir atração ou harmonia; a amarração, na definição popular, quer «prender» alguém.
Há alguma amarração que não interfira com a vontade do outro?
Por definição, não. O que existe são orações e práticas que pedem o bem de ambos, a paz ou a chegada do amor certo.
Quanto tempo demora?
Ninguém pode dizer, porque nenhum ritual garante resultados. Quem dá prazos está a vender urgência.
Continue a ler
➜ Feitiço de amor: a crença e a história
➜ O amor no Livro de São Cipriano
Fontes
- John G. Gager, Curse Tablets and Binding Spells from the Ancient World, Oxford University Press, 1992.
- Hans Dieter Betz (ed.), The Greek Magical Papyri in Translation, University of Chicago Press, 1986.
- «Curse tablet», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Museu do Louvre, figura e tabuinha de chumbo (E 27145) — collections.louvre.fr
- Richard Kieckhefer, Magic in the Middle Ages, Cambridge University Press, 1989.