O pé de coelho é talvez o amuleto da sorte mais conhecido dos filmes e da cultura norte-americana. Em Portugal nunca foi um amuleto tradicional forte: chegou sobretudo através do comércio e do cinema.
Nesta página explicamos de onde vem a crença, as condições estranhas que a tradição original exigia — muito longe do porta-chaves de loja — e porque preferimos alternativas.
Ficha
| Tipo | Amuleto «da sorte» feito de uma parte de animal |
| Forma mais conhecida | Estados Unidos, fins do século XIX |
| Raízes | Magia popular afro-americana (hoodoo) e crenças europeias |
| Condição clássica | Pata traseira esquerda, coelho morto num cemitério |
| Estudo de referência | Bill Ellis, Journal of Folklore Research, 2002 |
| Em Portugal | Sem registo como amuleto tradicional nas fontes que consultámos |
Onde nasceu a crença
Crenças sobre a sorte do pé de coelho existem em vários pontos do mundo, incluindo a Europa. Mas a forma que hoje conhecemos vem dos Estados Unidos, sobretudo da tradição popular afro-americana e do hoodoo, a magia popular do Sul.
Nos finais do século XIX o amuleto já era muito popular no país. A canção There'll Be a Hot Time in the Old Town Tonight (1896) fala em trazer um pé de coelho para afastar o azar — o «hoo-doo».
Na mesma época o amuleto chegou à política. Conta-se que o presidente Grover Cleveland terá recebido um pé de coelho morto sobre a sepultura do fora-da-lei Jesse James, e Theodore Roosevelt recebeu um montado em ouro do pugilista John L. Sullivan. São anedotas, mas mostram como a crença estava espalhada.
As condições da tradição original
Segundo o folclorista Newbell Niles Puckett, que recolheu milhares de crenças no Sul dos EUA, e segundo o investigador Bill Ellis, a sorte não vinha de qualquer pé de coelho. Havia condições:
- tinha de ser o pé traseiro esquerdo;
- o coelho devia ser morto num cemitério, de preferência sobre a campa de alguém de má fama;
- muitas vezes à meia-noite, numa noite sem lua ou de lua cheia, ou numa sexta-feira (às vezes sexta-feira 13).
Ellis mostra que muitas destas condições são «ao contrário»: esquerdo, noite, cemitério, pessoa má. Na lógica da magia popular, o que é invulgar e perigoso carrega força. Por isso o pé de coelho não era um simples «amuleto fofo»: era um objeto ligado à morte.
Ellis também liga o coelho ao Compadre Coelho (Br'er Rabbit) dos contos afro-americanos: o animal pequeno que vence os grandes pela esperteza.
Do cemitério à loja
No fim do século XIX o pé de coelho passou a ser vendido em massa. Os anúncios prometiam pés «verdadeiros», apanhados no cemitério à meia-noite. Claro que o comprador não tinha forma de o confirmar.
Um pé comprado numa loja não cumpria nenhuma das condições antigas — e mesmo assim a crença manteve-se. Hoje muitos porta-chaves são de pelo tingido ou sintético.
E em Portugal?
A tradição portuguesa também usou partes de animais como amuletos. Em 1892, Leite de Vasconcelos registou cornos, dentes de javali, a «mão de toupeira» e o cavalo-marinho, entre outros. Mas não encontrámos o pé de coelho nesse estudo nem nas listas de amuletos da etnografia portuguesa que consultámos.
O equivalente português «da sorte» era outro: o trevo de quatro folhas. Em Guimarães, em 1928, Luís de Pina recolheu esta quadra popular, bem-humorada:
O trevo de quatro folhas
Quem o achar tem fortuna;
Apesar de o ter achado
Inda não tive nenhuma!
(Quadra popular, recolhida por Luís de Pina, 1928; ortografia atualizada.)
Afirmações comuns
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «É uma tradição celta antiquíssima» | Não encontrámos prova. A forma conhecida está documentada nos EUA, século XIX |
| «Qualquer pé de coelho dá sorte» | A tradição original exigia condições muito específicas |
| «É um amuleto tradicional português» | Não aparece nas recolhas etnográficas portuguesas que consultámos |
| «Dá sorte garantida» | Nenhum amuleto garante sorte |
Porque não recomendamos pés verdadeiros
O Grimório.pt não recomenda o uso de pés de coelho verdadeiros:
- Bem-estar animal: os pés vendidos vêm de animais mortos, muitas vezes de criação intensiva para pelo ou carne.
- Coerência: a tradição original ligava este amuleto à morte e ao cemitério. Não é isso que a maioria das pessoas procura num objeto de sorte.
- Higiene: pés mal tratados podem ter bactérias e parasitas.
Pelas mesmas razões, não usamos partes de animais em nenhuma das práticas que publicamos.
Alternativas
Se gosta da ideia de um amuleto da sorte, há opções com tradição própria e sem animais:
| Alternativa | Na tradição |
|---|---|
| Ferradura | Sorte e proteção da casa; registada em Portugal |
| Trevo de quatro folhas | Sorte, pela sua raridade |
| Figa | Proteção contra o mau-olhado, muito portuguesa |
| Olho turco | Proteção contra a inveja |
| Pé de coelho de peluche ou madeira | Mantém o símbolo, sem o animal |
➜ Como fazer um amuleto caseiro
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➜ Hoodoo: a magia popular afro-americana
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Fontes
- Bill Ellis, «Why Is a Lucky Rabbit's Foot Lucky? Body Parts as Fetishes», Journal of Folklore Research, 39 (1), 2002, pp. 51–84 — resumo em Scientific American
- Newbell Niles Puckett, Folk Beliefs of the Southern Negro, Chapel Hill, University of North Carolina Press, 1926 — archive.org
- J. Leite de Vasconcellos, Sur les amulettes portugaises, Lisboa, 1892 — archive.org
- Luís de Pina, «Bruxas e Medicina (Folclore de Guimarães)», 1928 — ojs.letras.up.pt
- «Rabbit's foot», Wikipedia — en.wikipedia.org