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🧿 Amuletos e Talismãs

Amuleto ou talismã: qual a diferença?

Qual a diferença entre amuleto, talismã e pentáculo? Origem das palavras, a distinção de Leite de Vasconcelos, os talismãs astrológicos e exemplos portugueses.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Resumo rápido
  2. De onde vêm as palavras
  3. A definição de Leite de Vasconcelos
  4. Os talismãs na magia erudita
  5. E os objetos religiosos?
  6. E em Portugal?
  7. Afirmações comuns
  8. E o «amuleto da sorte»?
  9. Continue a ler
  10. Fontes

No dia a dia, «amuleto» e «talismã» usam-se como sinónimos. E não está errado: o Dicionário Priberam dá «amuleto» como sinónimo de «talismã».

Mas na tradição mágica e nos estudos de etnografia faz-se uma distinção útil. Em resumo: o amuleto afasta o mal; o talismã atrai um bem ou dá um poder.

Resumo rápido

Amuleto
Função Proteger, afastar o mal
Origem Muitas vezes natural: planta, pedra, corno, objeto encontrado
Feitura Nem sempre é «feito»; pode ser apenas escolhido
Exemplos Figa, arruda, ferradura, olho turco, signo-saimão
Talismã
Função Atrair algo: sorte, êxito, saber, amor
Origem Feito de propósito, com símbolos e palavras
Feitura Segundo regras: momento astrológico, metal, inscrições
Exemplos Talismãs planetários, pentáculos de Salomão

Esta distinção é uma convenção dos estudiosos e dos autores de magia, não uma regra universal. Muitos objetos fazem as duas coisas.

De onde vêm as palavras

Amuleto vem do latim amuletum. A palavra aparece na História Natural de Plínio, o Velho (século I), para um objeto que protege quem o traz.

Talismã tem um caminho mais longo. Chegou-nos do francês talisman, que vem do árabe ṭilasm, que por sua vez vem do grego télesma — «cumprimento», «rito religioso». A própria palavra lembra que o talismã é algo feito e consagrado com um fim.

A definição de Leite de Vasconcelos

Em 1892, o etnógrafo José Leite de Vasconcelos publicou em Lisboa um estudo sobre os amuletos portugueses. Nele deu uma definição cuidada.

Para ele, o amuleto é um objeto portátil, geralmente pequeno, com uma forma natural ou artificial, a que se atribuem propriedades maravilhosas contra o mal. E explicou: escreveu «contra o mal» precisamente para afastar a ideia de talismã, que teria propriedades mais gerais.

É, até hoje, a distinção mais usada: o amuleto é defensivo; o talismã é mais amplo e ativo.

Os tipos de amuleto em Portugal

Leite de Vasconcelos dividiu os amuletos portugueses em quatro grupos, conforme a origem do seu «poder», segundo a crença:

Tipo Exemplos que registou
Pela forma Meia-lua, coração, figa, signo-saimão, peixe
Pela matéria Corno, dentes, conchas, chave, ferradura, pregos, «pedra de raio»
Mistos (forma e matéria) Figa de azeviche, meia-lua de metal
Compostos Peças que juntam vários amuletos, cristãos e pagãos

A figa de azeviche é o exemplo perfeito de amuleto misto: vale por ser figa e por ser de azeviche.

➜ Azeviche e as figas contra o mau-olhado

➜ O signo-saimão

Os talismãs na magia erudita

Na magia medieval e renascentista, sobretudo de influência árabe, o talismã era uma ciência ligada à astrologia.

O sábio Thābit ibn Qurra (Harran, c. 826/836 – Bagdade, 901) terá dito que «a parte mais nobre da astronomia» era a ciência dos talismãs. A sua obra sobre as «imagens» astrológicas foi traduzida para latim (De imaginibus) e lida na Europa medieval.

Segundo estes autores, um talismã devia ser feito num momento astrológico favorável, com o metal do planeta certo, e por alguém concentrado, sem dúvidas.

Os pentáculos da Clavícula de Salomão são talismãs deste tipo: desenhos com nomes divinos e símbolos, feitos em pergaminho ou metal.

➜ O pentáculo

➜ Horas planetárias

➜ Selos planetários e quadrados mágicos

E os objetos religiosos?

Crucifixos, medalhas e escapulários são, para a Igreja Católica, sacramentais e objetos de devoção — não amuletos. A medalha de São Bento, por exemplo, foi aprovada pelo papa Bento XIV em 1742.

Na prática popular, porém, muitos destes objetos foram usados como amuletos. Em Guimarães, em 1928, o etnógrafo Luís de Pina encontrou medalhas de santos, cruzes e escapulários na mesma lista que a ferradura, a figa e o azeviche.

➜ Medalha de São Bento

E em Portugal?

A tradição popular portuguesa é sobretudo de amuletos: a figa, a arruda, o alecrim, o sal, a ferradura, as meias-luas, o signo-saimão.

Os talismãs eruditos chegaram sobretudo através dos livros de magia, como as edições populares do Livro de São Cipriano.

➜ Amuletos na tradição de São Cipriano

Afirmações comuns

Afirmação comum O que se sabe
«Amuleto e talismã são a mesma coisa» Na linguagem comum, sim. Nos estudos e na magia erudita, distinguem-se
«O talismã é sempre mais poderoso» Não há base para comparar «poderes». São funções diferentes, segundo a tradição
«A medalha de santo é um amuleto» Para a Igreja é um sacramental; o uso popular é que a torna amuleto
«Um talismã garante sorte» Nenhum objeto garante resultados

E o «amuleto da sorte»?

Um trevo de quatro folhas ou uma moeda da sorte são, em rigor, mais talismãs (atraem) do que amuletos (protegem). Mas a linguagem popular não faz essa distinção — e não há mal nenhum nisso.

Para quem acredita, amuletos e talismãs são apoio da fé e da intenção, não garantias.

Continue a ler

➜ Como fazer um amuleto caseiro

➜ A ferradura

➜ Magia renascentista

➜ Todos os amuletos

Fontes

  • J. Leite de Vasconcellos, Sur les amulettes portugaises, Lisboa, Imprensa Nacional, 1892 — archive.org
  • Luís de Pina, «Bruxas e Medicina (Folclore de Guimarães)», 1928 — ojs.letras.up.pt
  • «Amuleto» e «Talismã», Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — priberam.org
  • «Talisman» e «Amulet», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Thābit ibn Qurra», Wikipedia — en.wikipedia.org

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