No dia a dia, «amuleto» e «talismã» usam-se como sinónimos. E não está errado: o Dicionário Priberam dá «amuleto» como sinónimo de «talismã».
Mas na tradição mágica e nos estudos de etnografia faz-se uma distinção útil. Em resumo: o amuleto afasta o mal; o talismã atrai um bem ou dá um poder.
Resumo rápido
| Amuleto | |
|---|---|
| Função | Proteger, afastar o mal |
| Origem | Muitas vezes natural: planta, pedra, corno, objeto encontrado |
| Feitura | Nem sempre é «feito»; pode ser apenas escolhido |
| Exemplos | Figa, arruda, ferradura, olho turco, signo-saimão |
| Talismã | |
|---|---|
| Função | Atrair algo: sorte, êxito, saber, amor |
| Origem | Feito de propósito, com símbolos e palavras |
| Feitura | Segundo regras: momento astrológico, metal, inscrições |
| Exemplos | Talismãs planetários, pentáculos de Salomão |
Esta distinção é uma convenção dos estudiosos e dos autores de magia, não uma regra universal. Muitos objetos fazem as duas coisas.
De onde vêm as palavras
Amuleto vem do latim amuletum. A palavra aparece na História Natural de Plínio, o Velho (século I), para um objeto que protege quem o traz.
Talismã tem um caminho mais longo. Chegou-nos do francês talisman, que vem do árabe ṭilasm, que por sua vez vem do grego télesma — «cumprimento», «rito religioso». A própria palavra lembra que o talismã é algo feito e consagrado com um fim.
A definição de Leite de Vasconcelos
Em 1892, o etnógrafo José Leite de Vasconcelos publicou em Lisboa um estudo sobre os amuletos portugueses. Nele deu uma definição cuidada.
Para ele, o amuleto é um objeto portátil, geralmente pequeno, com uma forma natural ou artificial, a que se atribuem propriedades maravilhosas contra o mal. E explicou: escreveu «contra o mal» precisamente para afastar a ideia de talismã, que teria propriedades mais gerais.
É, até hoje, a distinção mais usada: o amuleto é defensivo; o talismã é mais amplo e ativo.
Os tipos de amuleto em Portugal
Leite de Vasconcelos dividiu os amuletos portugueses em quatro grupos, conforme a origem do seu «poder», segundo a crença:
| Tipo | Exemplos que registou |
|---|---|
| Pela forma | Meia-lua, coração, figa, signo-saimão, peixe |
| Pela matéria | Corno, dentes, conchas, chave, ferradura, pregos, «pedra de raio» |
| Mistos (forma e matéria) | Figa de azeviche, meia-lua de metal |
| Compostos | Peças que juntam vários amuletos, cristãos e pagãos |
A figa de azeviche é o exemplo perfeito de amuleto misto: vale por ser figa e por ser de azeviche.
➜ Azeviche e as figas contra o mau-olhado
Os talismãs na magia erudita
Na magia medieval e renascentista, sobretudo de influência árabe, o talismã era uma ciência ligada à astrologia.
O sábio Thābit ibn Qurra (Harran, c. 826/836 – Bagdade, 901) terá dito que «a parte mais nobre da astronomia» era a ciência dos talismãs. A sua obra sobre as «imagens» astrológicas foi traduzida para latim (De imaginibus) e lida na Europa medieval.
Segundo estes autores, um talismã devia ser feito num momento astrológico favorável, com o metal do planeta certo, e por alguém concentrado, sem dúvidas.
Os pentáculos da Clavícula de Salomão são talismãs deste tipo: desenhos com nomes divinos e símbolos, feitos em pergaminho ou metal.
➜ Selos planetários e quadrados mágicos
E os objetos religiosos?
Crucifixos, medalhas e escapulários são, para a Igreja Católica, sacramentais e objetos de devoção — não amuletos. A medalha de São Bento, por exemplo, foi aprovada pelo papa Bento XIV em 1742.
Na prática popular, porém, muitos destes objetos foram usados como amuletos. Em Guimarães, em 1928, o etnógrafo Luís de Pina encontrou medalhas de santos, cruzes e escapulários na mesma lista que a ferradura, a figa e o azeviche.
E em Portugal?
A tradição popular portuguesa é sobretudo de amuletos: a figa, a arruda, o alecrim, o sal, a ferradura, as meias-luas, o signo-saimão.
Os talismãs eruditos chegaram sobretudo através dos livros de magia, como as edições populares do Livro de São Cipriano.
➜ Amuletos na tradição de São Cipriano
Afirmações comuns
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «Amuleto e talismã são a mesma coisa» | Na linguagem comum, sim. Nos estudos e na magia erudita, distinguem-se |
| «O talismã é sempre mais poderoso» | Não há base para comparar «poderes». São funções diferentes, segundo a tradição |
| «A medalha de santo é um amuleto» | Para a Igreja é um sacramental; o uso popular é que a torna amuleto |
| «Um talismã garante sorte» | Nenhum objeto garante resultados |
E o «amuleto da sorte»?
Um trevo de quatro folhas ou uma moeda da sorte são, em rigor, mais talismãs (atraem) do que amuletos (protegem). Mas a linguagem popular não faz essa distinção — e não há mal nenhum nisso.
Para quem acredita, amuletos e talismãs são apoio da fé e da intenção, não garantias.
Continue a ler
➜ Como fazer um amuleto caseiro
Fontes
- J. Leite de Vasconcellos, Sur les amulettes portugaises, Lisboa, Imprensa Nacional, 1892 — archive.org
- Luís de Pina, «Bruxas e Medicina (Folclore de Guimarães)», 1928 — ojs.letras.up.pt
- «Amuleto» e «Talismã», Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — priberam.org
- «Talisman» e «Amulet», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Thābit ibn Qurra», Wikipedia — en.wikipedia.org