O hoodoo — também chamado rootwork («trabalho de raízes») ou conjure — é um conjunto de práticas mágicas, crenças e remédios populares criado pelos afro-americanos escravizados no Sul dos Estados Unidos.
Não é uma religião organizada, com sacerdotes e deuses próprios. É sobretudo magia prática do dia a dia: amuletos, ervas, raízes, pós e orações para proteção, sorte, amor, justiça ou cura.
Muitas vezes é confundido com o vodu. Nesta página explicamos a diferença, a origem histórica e quem documentou esta tradição.
Ficha
| Tema | Resumo |
|---|---|
| Nomes | Hoodoo, rootwork, conjure |
| Praticantes | Root doctor, conjure doctor, rootworker |
| Origem | Sul dos EUA, entre africanos escravizados e descendentes |
| Raízes | África Ocidental e Central (sobretudo Congo), saber indígena sobre plantas, cristianismo e grimórios europeus |
| Tipo | Magia popular (não é uma religião organizada) |
| Primeiro registo da palavra | 1870, em inglês |
De onde vem
O hoodoo nasceu da mistura de várias tradições:
- Africanas — sobretudo da região do Congo (povo bakongo), de onde veio uma parte importante dos africanos levados para os EUA, mas também tradições iorubás, fon e outras.
- Indígenas norte-americanas — o conhecimento das plantas locais.
- Europeias — a Bíblia, o cristianismo protestante e, mais tarde, grimórios impressos.
A origem da palavra não é certa. Pode derivar de «voodoo» ou de uma palavra da língua ewe (África Ocidental). O primeiro registo escrito em inglês data de 1870.
Com a Grande Migração do século XX, os afro-americanos que partiram do Sul para as cidades do Norte levaram consigo estas práticas.
Hoodoo não é vodu
É a confusão mais comum.
| Tradição | Características |
|---|---|
| Vodu (Haiti, Luisiana) | Religião organizada, com sacerdotes, iniciação, espíritos (lwa) e cerimónias coletivas |
| Hoodoo | Magia popular individual, sem culto a divindades próprias; muitos praticantes eram cristãos |
Os historiadores reconhecem que, no século XIX, a fronteira entre as duas palavras era pouco nítida, sobretudo em Nova Orleães. Mas hoje distinguem-se claramente.
➜ Marie Laveau, a «rainha do vodu»
O que caracteriza o hoodoo
O mojo bag
O amuleto mais conhecido é o mojo bag: um saquinho, normalmente de flanela, com raízes, ervas, moedas, minerais ou outros objetos, levado junto ao corpo. É descrito pelos praticantes como uma «oração dentro de um saco».
Tem muitos nomes: toby, lucky hand, conjure bag. A palavra mojo virá do kikongo (língua do Congo), ligada aos objetos sagrados chamados nkisi.
A raiz de High John
High John the Conqueror é, ao mesmo tempo, uma figura lendária — segundo a tradição, um príncipe africano escravizado que nunca perdeu o espírito de liberdade — e uma raiz.
A raiz vem de uma planta aparentada com a batata-doce, Ipomoea purga (ou jalapa). É um laxante forte se ingerida: na tradição, leva-se no saquinho, não se come. Aparece em canções de blues, como Hoochie Coochie Man, gravada por Muddy Waters.
Outros elementos
- Encruzilhadas, vistas como lugares onde habita um espírito que recebe oferendas.
- Velas coloridas em frascos de vidro, com rótulos como «Fast Luck» ou «Love Drawing», vendidas em lojas.
- Pós e «magia das pegadas» (foot track magic), de origem africana.
- Grimórios impressos, sobretudo os Sexto e Sétimo Livros de Moisés, comprados por correspondência a lojas de Chicago, Memphis ou Baltimore.
➜ Os Sexto e Sétimo Livros de Moisés
Quem documentou o hoodoo
Zora Neale Hurston
A escritora e antropóloga Zora Neale Hurston (1891–1960), aluna de Franz Boas, publicou o estudo Hoodoo in America no Journal of American Folklore (1931).
No livro Mules and Men (1935), a segunda parte relata a sua pesquisa em Nova Orleães, onde trabalhou com vários praticantes e recolheu histórias sobre Marie Laveau. Em Tell My Horse (1938) estudou o vodu no Haiti e na Jamaica.
Harry Middleton Hyatt
O pastor anglicano Harry Middleton Hyatt fez a maior recolha alguma vez feita sobre o tema. Entre 1936 e 1940 entrevistou cerca de 1600 pessoas em vários estados do Sul, gravando-as em cilindros.
O resultado, Hoodoo — Conjuration — Witchcraft — Rootwork, saiu em cinco volumes entre 1970 e 1978, com mais de 13 000 fórmulas e crenças registadas. É ainda hoje a principal fonte para estudar o hoodoo tradicional.
O hoodoo hoje
A partir do século XX, farmacêuticos e comerciantes — muitas vezes brancos — começaram a vender «produtos de hoodoo» em lojas e por catálogo. Isto espalhou a prática, mas também a comercializou e afastou-a das comunidades onde nasceu.
Hoje há um movimento de afro-americanos que reivindicam o hoodoo como herança cultural e criticam a sua apropriação. Algumas crenças conhecidas em todo o mundo, como o pé de coelho da sorte, vêm desta tradição.
Tal como em qualquer tradição mágica, não há provas de que estas práticas produzam os efeitos desejados. O valor do hoodoo é sobretudo histórico e cultural: é uma forma de resistência e de identidade de um povo escravizado.
Continue a ler
➜ Santería
Fontes
- Wikipedia, «Hoodoo (spirituality)» — en.wikipedia.org
- Wikipedia, «Mules and Men» e «Zora Neale Hurston» — en.wikipedia.org
- Wikipedia, «Mojo (African-American culture)» — en.wikipedia.org
- Chireau, Yvonne P., Black Magic: Religion and the African American Conjuring Tradition, University of California Press, 2003
- Hyatt, Harry Middleton, Hoodoo — Conjuration — Witchcraft — Rootwork, 5 vols., 1970–1978