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Hoodoo: a magia popular afro-americana

O que é o hoodoo (rootwork, conjure): origem africana no Sul dos EUA, Zora Neale Hurston, Harry M. Hyatt, o mojo bag e porque não é o mesmo que vodu.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. De onde vem
  3. Hoodoo não é vodu
  4. O que caracteriza o hoodoo
  5. Quem documentou o hoodoo
  6. O hoodoo hoje
  7. Continue a ler
  8. Fontes

O hoodoo — também chamado rootwork («trabalho de raízes») ou conjure — é um conjunto de práticas mágicas, crenças e remédios populares criado pelos afro-americanos escravizados no Sul dos Estados Unidos.

Não é uma religião organizada, com sacerdotes e deuses próprios. É sobretudo magia prática do dia a dia: amuletos, ervas, raízes, pós e orações para proteção, sorte, amor, justiça ou cura.

Muitas vezes é confundido com o vodu. Nesta página explicamos a diferença, a origem histórica e quem documentou esta tradição.

Ficha

Tema Resumo
Nomes Hoodoo, rootwork, conjure
Praticantes Root doctor, conjure doctor, rootworker
Origem Sul dos EUA, entre africanos escravizados e descendentes
Raízes África Ocidental e Central (sobretudo Congo), saber indígena sobre plantas, cristianismo e grimórios europeus
Tipo Magia popular (não é uma religião organizada)
Primeiro registo da palavra 1870, em inglês

De onde vem

O hoodoo nasceu da mistura de várias tradições:

  • Africanas — sobretudo da região do Congo (povo bakongo), de onde veio uma parte importante dos africanos levados para os EUA, mas também tradições iorubás, fon e outras.
  • Indígenas norte-americanas — o conhecimento das plantas locais.
  • Europeias — a Bíblia, o cristianismo protestante e, mais tarde, grimórios impressos.

A origem da palavra não é certa. Pode derivar de «voodoo» ou de uma palavra da língua ewe (África Ocidental). O primeiro registo escrito em inglês data de 1870.

Com a Grande Migração do século XX, os afro-americanos que partiram do Sul para as cidades do Norte levaram consigo estas práticas.

Hoodoo não é vodu

É a confusão mais comum.

Tradição Características
Vodu (Haiti, Luisiana) Religião organizada, com sacerdotes, iniciação, espíritos (lwa) e cerimónias coletivas
Hoodoo Magia popular individual, sem culto a divindades próprias; muitos praticantes eram cristãos

Os historiadores reconhecem que, no século XIX, a fronteira entre as duas palavras era pouco nítida, sobretudo em Nova Orleães. Mas hoje distinguem-se claramente.

➜ Vodu do Haiti

➜ Marie Laveau, a «rainha do vodu»

O que caracteriza o hoodoo

O mojo bag

O amuleto mais conhecido é o mojo bag: um saquinho, normalmente de flanela, com raízes, ervas, moedas, minerais ou outros objetos, levado junto ao corpo. É descrito pelos praticantes como uma «oração dentro de um saco».

Tem muitos nomes: toby, lucky hand, conjure bag. A palavra mojo virá do kikongo (língua do Congo), ligada aos objetos sagrados chamados nkisi.

A raiz de High John

High John the Conqueror é, ao mesmo tempo, uma figura lendária — segundo a tradição, um príncipe africano escravizado que nunca perdeu o espírito de liberdade — e uma raiz.

A raiz vem de uma planta aparentada com a batata-doce, Ipomoea purga (ou jalapa). É um laxante forte se ingerida: na tradição, leva-se no saquinho, não se come. Aparece em canções de blues, como Hoochie Coochie Man, gravada por Muddy Waters.

Outros elementos

  • Encruzilhadas, vistas como lugares onde habita um espírito que recebe oferendas.
  • Velas coloridas em frascos de vidro, com rótulos como «Fast Luck» ou «Love Drawing», vendidas em lojas.
  • Pós e «magia das pegadas» (foot track magic), de origem africana.
  • Grimórios impressos, sobretudo os Sexto e Sétimo Livros de Moisés, comprados por correspondência a lojas de Chicago, Memphis ou Baltimore.

➜ Os Sexto e Sétimo Livros de Moisés

➜ A encruzilhada

➜ Formas de velas

Quem documentou o hoodoo

Zora Neale Hurston

A escritora e antropóloga Zora Neale Hurston (1891–1960), aluna de Franz Boas, publicou o estudo Hoodoo in America no Journal of American Folklore (1931).

No livro Mules and Men (1935), a segunda parte relata a sua pesquisa em Nova Orleães, onde trabalhou com vários praticantes e recolheu histórias sobre Marie Laveau. Em Tell My Horse (1938) estudou o vodu no Haiti e na Jamaica.

Harry Middleton Hyatt

O pastor anglicano Harry Middleton Hyatt fez a maior recolha alguma vez feita sobre o tema. Entre 1936 e 1940 entrevistou cerca de 1600 pessoas em vários estados do Sul, gravando-as em cilindros.

O resultado, Hoodoo — Conjuration — Witchcraft — Rootwork, saiu em cinco volumes entre 1970 e 1978, com mais de 13 000 fórmulas e crenças registadas. É ainda hoje a principal fonte para estudar o hoodoo tradicional.

O hoodoo hoje

A partir do século XX, farmacêuticos e comerciantes — muitas vezes brancos — começaram a vender «produtos de hoodoo» em lojas e por catálogo. Isto espalhou a prática, mas também a comercializou e afastou-a das comunidades onde nasceu.

Hoje há um movimento de afro-americanos que reivindicam o hoodoo como herança cultural e criticam a sua apropriação. Algumas crenças conhecidas em todo o mundo, como o pé de coelho da sorte, vêm desta tradição.

➜ O pé de coelho

Tal como em qualquer tradição mágica, não há provas de que estas práticas produzam os efeitos desejados. O valor do hoodoo é sobretudo histórico e cultural: é uma forma de resistência e de identidade de um povo escravizado.

Continue a ler

➜ Santería

➜ Bruxaria africana

➜ Candomblé

➜ Magia judaica popular

Fontes

  • Wikipedia, «Hoodoo (spirituality)» — en.wikipedia.org
  • Wikipedia, «Mules and Men» e «Zora Neale Hurston» — en.wikipedia.org
  • Wikipedia, «Mojo (African-American culture)» — en.wikipedia.org
  • Chireau, Yvonne P., Black Magic: Religion and the African American Conjuring Tradition, University of California Press, 2003
  • Hyatt, Harry Middleton, Hoodoo — Conjuration — Witchcraft — Rootwork, 5 vols., 1970–1978

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