Uma simpatia é um pequeno ritual popular, feito em casa com coisas simples (uma vela, mel, sal, uma erva, uma fita), para pedir amor, sorte, saúde ou proteção. Quase toda a gente conhece alguma, ensinada por uma avó, uma vizinha ou uma revista.
Mas porque se chama «simpatia»? E porque é que as simpatias seguem quase sempre as mesmas regras? A resposta está numa ideia muito antiga sobre como o mundo funciona.
De onde vem a palavra
«Simpatia» vem do grego sympátheia, «sentir com». Na filosofia antiga, sobretudo entre os estoicos, a sympátheia era a ideia de que todas as partes do universo estão ligadas e se influenciam umas às outras.
Esta ideia passou para a magia do Renascimento e para a medicina popular. Falava-se de «virtudes simpáticas» entre plantas, astros e partes do corpo. Em português, a palavra acabou por dar nome aos pequenos rituais populares, uso hoje muito comum em Portugal e no Brasil.
A «magia simpática» segundo Frazer
Em 1890, o antropólogo escocês James George Frazer publicou The Golden Bough (O Ramo de Ouro). Nele, deu o nome de magia simpática a um modo de pensar que encontrou em culturas de todo o mundo. Frazer resumiu-o em duas «leis»:
| Lei | O que diz |
|---|---|
| Semelhança | O semelhante produz o semelhante. Uma imagem age sobre o que representa. |
| Contacto (contágio) | O que esteve em contacto continua ligado, mesmo à distância. |
Com estas duas regras percebe-se quase toda a simpatia popular:
- Mel para «adoçar» uma pessoa ou uma situação: semelhança (o doce produz doçura).
- Nó numa fita para «prender» um desejo: semelhança.
- Usar uma peça de roupa ou uma fotografia da pessoa: contacto.
- Lua crescente para fazer crescer, minguante para fazer diminuir: semelhança.
Frazer via estas crenças como uma espécie de «ciência falsa», uma ideia hoje criticada pelos antropólogos por ser demasiado simplista. Mas as suas duas leis continuam a ser a forma mais clara de explicar a lógica das simpatias.
Simpatia, oração e benzedura: qual é a diferença?
- Oração: um pedido feito a Deus, a um santo ou a uma entidade. O resultado depende de quem ouve.
- Benzedura: oração com gestos, feita normalmente por uma benzedeira, sobretudo para tirar mau-olhado ou males.
- Simpatia: um gesto simbólico que, segundo a crença, age por si mesmo, pela semelhança ou pelo contacto. Muitas vezes vem acompanhada de uma oração.
Na prática, em Portugal, as três misturam-se com frequência.
As simpatias funcionam?
Não há provas científicas de que uma simpatia mude a vontade de outra pessoa, traga dinheiro ou cure uma doença.
A psicologia ajuda a perceber porque parecem «funcionar»: lembramo-nos das vezes em que o desejo se realizou e esquecemos as outras (o chamado efeito de confirmação). E fazer um gesto concreto dá sensação de controlo num momento de incerteza.
Isto não tira valor cultural às simpatias. Tira-lhes apenas o valor de garantia.
Cuidados
- Não use simpatias para tratar doenças. Consulte o seu médico.
- Fogo: velas sempre vigiadas, em castiçal estável e longe de cortinas.
- Respeite a vontade dos outros. Simpatias para «prender» ou «afastar» pessoas não são ensinadas no Grimório.pt.
➜ Como usar velas com segurança
Continue a ler
➜ Simpatias e rituais populares
Fontes
- James George Frazer, The Golden Bough, cap. III, «Sympathetic Magic» — sacred-texts.com
- Raymond S. Nickerson, «Confirmation Bias: A Ubiquitous Phenomenon in Many Guises», Review of General Psychology, 2(2), 1998 — doi.org
- Paul Rozin, Linda Millman e Carol Nemeroff, «Operation of the Laws of Sympathetic Magic in Disgust and Other Domains», Journal of Personality and Social Psychology, 1986 — PDF