Saltar para o conteúdo

🏛️ Enciclopédia do Oculto

Feitiçaria portuguesa: práticas e especialistas populares

As práticas da feitiçaria popular portuguesa: benzedeiras, saludadores, ensalmos, cartas de tocar, adivinhação e o Livro de São Cipriano.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Os especialistas
  2. As benzedeiras
  3. Os saludadores
  4. Os ensalmos e as orações
  5. As cartas de tocar
  6. A adivinhação
  7. O Livro de São Cipriano
  8. A tradição hoje
  9. Continue a ler
  10. Fontes

Durante séculos, em quase todas as aldeias de Portugal havia alguém a quem se recorria quando a medicina, a Igreja ou a sorte falhavam: uma benzedeira, um curandeiro, uma mulher «que sabia».

Esta página descreve quem eram estes especialistas e o que faziam, com base nos processos estudados pelos historiadores e nas recolhas dos etnógrafos.

O panorama histórico (porque não houve caça às bruxas) está na página Bruxaria em Portugal. A instituição que julgava estes casos está na página A Inquisição em Portugal.

➜ Bruxaria em Portugal: panorama e historiografia

➜ A Inquisição em Portugal (1536–1821)

Os especialistas

Nome O que fazia, segundo as fontes
Benzedeira / benzedeiro Curava ou tentava curar com orações, palavras e bênçãos
Saludador Dizia curar a raiva e outros males com o sopro, a saliva ou o toque
Ensalmeiro Rezava ensalmos, orações de cura sobre o doente
Feiticeira Fazia feitiços de amor, de proteção ou para desfazer malefícios
Adivinho / adivinha Descobria objetos perdidos, ladrões ou o futuro
Nigromante Dizia invocar espíritos, muitas vezes com livros de magia

As fronteiras eram pouco claras. A mesma pessoa podia benzer, adivinhar e fazer feitiços de amor.

Nos 818 processos por magia estudados por José Pedro Paiva (1600–1774), os curadores eram o grupo maior (cerca de 36%), à frente das acusadas de bruxaria (29%).

➜ Diferença entre bruxo e curandeiro

As benzedeiras

A benzedeira era a especialista mais comum. Benzia contra o mau-olhado e o quebranto, as dores, as maleitas das crianças e dos animais.

Usava gestos simples: o sinal da cruz, um raminho de alecrim ou de arruda, azeite em água, uma faca ou uma linha. E sobretudo orações, muitas vezes rimadas e repetidas três ou nove vezes.

A Igreja olhava para elas com desconfiança, porque usavam orações fora da liturgia. Mas muitas eram católicas devotas e viam o seu trabalho como um dom de Deus.

➜ Desfazer o mau-olhado

➜ O alecrim na tradição

Os saludadores

Os saludadores eram curadores conhecidos em Portugal e em Espanha. Eram procurados sobretudo contra a raiva, doença então incurável e muito temida, em pessoas e em gado.

Diziam ter um dom de nascença e curar com o sopro, a saliva ou o toque. O historiador Francisco Bethencourt deu-lhes lugar de destaque no seu estudo sobre o século XVI.

Nota: a raiva é uma doença mortal. Hoje existe vacina e tratamento. Qualquer mordedura de animal deve ser vista por um médico.

Os ensalmos e as orações

Os ensalmos eram orações de cura, muitas vezes com uma pequena história: Jesus ou um santo encontra alguém doente pelo caminho e cura-o. Depois, a fórmula aplica-se ao doente presente.

Há orações populares para o cobrão (zona), para a erisipela, para as dores de barriga das crianças. Muitas eram ditas enquanto se «talhava» o mal com uma faca ou uma tesoura.

Estas orações são textos populares, sem autor conhecido, transmitidos oralmente.

Importante: as orações podem dar conforto, mas não substituem o médico. Zona, erisipela e outras doenças precisam de tratamento.

➜ Orações por finalidade

➜ Oração para a saúde

As cartas de tocar

A magia amorosa foi muito procurada, sobretudo nas cidades. As cartas de tocar eram papéis ou objetos preparados com palavras e sinais, que se fazia tocar na pessoa desejada. Segundo a crença, bastava esse toque para despertar o amor.

A Inquisição perseguia estas práticas porque as considerava tentativas de forçar a vontade de outra pessoa e porque usavam, por vezes, objetos sagrados.

O Grimório.pt explica esta história, mas não ensina práticas para forçar a vontade de ninguém.

➜ Oração para o amor

A adivinhação

Adivinhar era outra atividade comum: descobrir quem roubou, onde estava um objeto perdido, se um familiar ausente estava vivo, com quem se ia casar.

Algumas formas eram muito populares, sobretudo nas noites de São João e de Santo António, ligadas ao casamento.

➜ A noite de São João

➜ Santos populares

O Livro de São Cipriano

No século XIX, a feitiçaria popular ganhou um livro: o Livro de São Cipriano, publicado em várias edições populares. Reuniu orações, esconjuros, receitas de amor e histórias de tesouros encantados.

Tornou-se o livro de magia mais famoso de Portugal, cercado de tabus: dizia-se que quem o lia podia enlouquecer ou que era preciso lê-lo de certa maneira.

➜ São Cipriano e a magia portuguesa

➜ A Feiticeira de Évora

A tradição hoje

As benzedeiras ainda existem, sobretudo no interior. Os etnógrafos e historiadores continuam a recolher as suas orações antes que se percam.

Desde 1983, o Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes, em Montalegre, junta curiosos, curandeiros, investigadores e visitantes à volta destas tradições.

Continue a ler

Saber popular português: o mesmo tema noutras páginas

➜ Benzeduras portuguesas

➜ Talhar o cobrão

➜ Espinhela caída

➜ Quebranto

➜ Ensalmos documentados em obras antigas

➜ Feitiçaria ou bruxaria: qual a diferença?

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

➜ Ensalmos e ensalmadores

➜ Os saludadores

➜ Tradição Portuguesa

➜ Bruxaria em Portugal

➜ Santos populares em Portugal

➜ Oração para desfazer bruxaria

➜ Enciclopédia do Oculto

Fontes

  • Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: feiticeiras, saludadores e nigromantes no século XVI, Lisboa, Universidade Aberta, 1987; 2.ª ed. revista: O imaginário da magia: feiticeiras, adivinhos e curandeiros em Portugal no século XVI, São Paulo, Companhia das Letras, 2004 (catálogo).
  • José Pedro Paiva, Práticas e crenças mágicas: o medo e a necessidade dos mágicos na diocese de Coimbra (1650–1740), Coimbra, Livraria Minerva, 1992 (catálogo).
  • José Pedro Paiva, Bruxaria e Superstição num País sem «Caça às Bruxas» (1600–1774), Lisboa, Editorial Notícias, 1997 (2.ª ed. 2002) (catálogo).
  • José Pedro Paiva, «The Persecution of Popular Superstition in 17th and 18th Century Portugal», comunicação, 1999 — texto em linha
  • José Pedro Paiva, «Inquisição e visitas pastorais: dois mecanismos complementares de controle social?», Revista de História das Ideias, 11 (1989), pp. 85–102 — Universidade de Coimbra
  • Timothy D. Walker, «The role and practices of the curandeiro and saludador in early modern Portuguese society», História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 11 (supl. 1), 2004, pp. 223–237 — Arca/Fiocruz
  • Adolfo Coelho, Obra etnográfica, vol. 1: Festas, costumes e outros materiais para uma etnologia de Portugal, org. João Leal, Lisboa, Dom Quixote, 1993 — inclui «Orações e ensalmos populares do Minho» e «As superstições portuguesas» (catálogo).
  • Vânia Daniela Martins Moreira, Bruxaria e a «caça às bruxas»: abordagens (dissertação), Universidade do Minho — repositorium.uminho.pt
  • «Congresso de Vilar de Perdizes assinala 40 anos», Observador, 19/08/2026 — observador.pt

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Enciclopédia do Oculto ›