Durante séculos, em quase todas as aldeias de Portugal havia alguém a quem se recorria quando a medicina, a Igreja ou a sorte falhavam: uma benzedeira, um curandeiro, uma mulher «que sabia».
Esta página descreve quem eram estes especialistas e o que faziam, com base nos processos estudados pelos historiadores e nas recolhas dos etnógrafos.
O panorama histórico (porque não houve caça às bruxas) está na página Bruxaria em Portugal. A instituição que julgava estes casos está na página A Inquisição em Portugal.
➜ Bruxaria em Portugal: panorama e historiografia
➜ A Inquisição em Portugal (1536–1821)
Os especialistas
| Nome | O que fazia, segundo as fontes |
|---|---|
| Benzedeira / benzedeiro | Curava ou tentava curar com orações, palavras e bênçãos |
| Saludador | Dizia curar a raiva e outros males com o sopro, a saliva ou o toque |
| Ensalmeiro | Rezava ensalmos, orações de cura sobre o doente |
| Feiticeira | Fazia feitiços de amor, de proteção ou para desfazer malefícios |
| Adivinho / adivinha | Descobria objetos perdidos, ladrões ou o futuro |
| Nigromante | Dizia invocar espíritos, muitas vezes com livros de magia |
As fronteiras eram pouco claras. A mesma pessoa podia benzer, adivinhar e fazer feitiços de amor.
Nos 818 processos por magia estudados por José Pedro Paiva (1600–1774), os curadores eram o grupo maior (cerca de 36%), à frente das acusadas de bruxaria (29%).
➜ Diferença entre bruxo e curandeiro
As benzedeiras
A benzedeira era a especialista mais comum. Benzia contra o mau-olhado e o quebranto, as dores, as maleitas das crianças e dos animais.
Usava gestos simples: o sinal da cruz, um raminho de alecrim ou de arruda, azeite em água, uma faca ou uma linha. E sobretudo orações, muitas vezes rimadas e repetidas três ou nove vezes.
A Igreja olhava para elas com desconfiança, porque usavam orações fora da liturgia. Mas muitas eram católicas devotas e viam o seu trabalho como um dom de Deus.
Os saludadores
Os saludadores eram curadores conhecidos em Portugal e em Espanha. Eram procurados sobretudo contra a raiva, doença então incurável e muito temida, em pessoas e em gado.
Diziam ter um dom de nascença e curar com o sopro, a saliva ou o toque. O historiador Francisco Bethencourt deu-lhes lugar de destaque no seu estudo sobre o século XVI.
Nota: a raiva é uma doença mortal. Hoje existe vacina e tratamento. Qualquer mordedura de animal deve ser vista por um médico.
Os ensalmos e as orações
Os ensalmos eram orações de cura, muitas vezes com uma pequena história: Jesus ou um santo encontra alguém doente pelo caminho e cura-o. Depois, a fórmula aplica-se ao doente presente.
Há orações populares para o cobrão (zona), para a erisipela, para as dores de barriga das crianças. Muitas eram ditas enquanto se «talhava» o mal com uma faca ou uma tesoura.
Estas orações são textos populares, sem autor conhecido, transmitidos oralmente.
Importante: as orações podem dar conforto, mas não substituem o médico. Zona, erisipela e outras doenças precisam de tratamento.
As cartas de tocar
A magia amorosa foi muito procurada, sobretudo nas cidades. As cartas de tocar eram papéis ou objetos preparados com palavras e sinais, que se fazia tocar na pessoa desejada. Segundo a crença, bastava esse toque para despertar o amor.
A Inquisição perseguia estas práticas porque as considerava tentativas de forçar a vontade de outra pessoa e porque usavam, por vezes, objetos sagrados.
O Grimório.pt explica esta história, mas não ensina práticas para forçar a vontade de ninguém.
A adivinhação
Adivinhar era outra atividade comum: descobrir quem roubou, onde estava um objeto perdido, se um familiar ausente estava vivo, com quem se ia casar.
Algumas formas eram muito populares, sobretudo nas noites de São João e de Santo António, ligadas ao casamento.
O Livro de São Cipriano
No século XIX, a feitiçaria popular ganhou um livro: o Livro de São Cipriano, publicado em várias edições populares. Reuniu orações, esconjuros, receitas de amor e histórias de tesouros encantados.
Tornou-se o livro de magia mais famoso de Portugal, cercado de tabus: dizia-se que quem o lia podia enlouquecer ou que era preciso lê-lo de certa maneira.
➜ São Cipriano e a magia portuguesa
A tradição hoje
As benzedeiras ainda existem, sobretudo no interior. Os etnógrafos e historiadores continuam a recolher as suas orações antes que se percam.
Desde 1983, o Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes, em Montalegre, junta curiosos, curandeiros, investigadores e visitantes à volta destas tradições.
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Saber popular português: o mesmo tema noutras páginas
➜ Ensalmos documentados em obras antigas
➜ Feitiçaria ou bruxaria: qual a diferença?
➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal
➜ Santos populares em Portugal
➜ Oração para desfazer bruxaria
Fontes
- Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: feiticeiras, saludadores e nigromantes no século XVI, Lisboa, Universidade Aberta, 1987; 2.ª ed. revista: O imaginário da magia: feiticeiras, adivinhos e curandeiros em Portugal no século XVI, São Paulo, Companhia das Letras, 2004 (catálogo).
- José Pedro Paiva, Práticas e crenças mágicas: o medo e a necessidade dos mágicos na diocese de Coimbra (1650–1740), Coimbra, Livraria Minerva, 1992 (catálogo).
- José Pedro Paiva, Bruxaria e Superstição num País sem «Caça às Bruxas» (1600–1774), Lisboa, Editorial Notícias, 1997 (2.ª ed. 2002) (catálogo).
- José Pedro Paiva, «The Persecution of Popular Superstition in 17th and 18th Century Portugal», comunicação, 1999 — texto em linha
- José Pedro Paiva, «Inquisição e visitas pastorais: dois mecanismos complementares de controle social?», Revista de História das Ideias, 11 (1989), pp. 85–102 — Universidade de Coimbra
- Timothy D. Walker, «The role and practices of the curandeiro and saludador in early modern Portuguese society», História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 11 (supl. 1), 2004, pp. 223–237 — Arca/Fiocruz
- Adolfo Coelho, Obra etnográfica, vol. 1: Festas, costumes e outros materiais para uma etnologia de Portugal, org. João Leal, Lisboa, Dom Quixote, 1993 — inclui «Orações e ensalmos populares do Minho» e «As superstições portuguesas» (catálogo).
- Vânia Daniela Martins Moreira, Bruxaria e a «caça às bruxas»: abordagens (dissertação), Universidade do Minho — repositorium.uminho.pt
- «Congresso de Vilar de Perdizes assinala 40 anos», Observador, 19/08/2026 — observador.pt