«Sou boa pessoa, cuido de mim, e o amor nunca aparece.» Ou aparece, mas nunca fica. Se se revê nesta frase, não está sozinho. É uma das dores mais comuns e uma das perguntas mais pesquisadas.
Este artigo não lhe vai dizer que tem um «trabalho feito» nem vender-lhe uma solução mágica. Vai explicar o que diz a crença popular e, sobretudo, as causas reais que costumam estar por trás, com pistas concretas.
O que diz a crença
Na tradição popular e esotérica, a falta de amor é às vezes explicada por causas espirituais: mau-olhado, inveja, um «trabalho» feito por alguém, «karma» de vidas passadas ou um «bloqueio» energético.
Estas explicações são crenças. Não há forma de as confirmar. E têm um risco: ao pôr a causa fora de nós, num inimigo invisível, podem afastar-nos do que realmente podemos mudar, e deixar-nos à mercê de quem cobra para «desbloquear».
As causas mais comuns na vida real
Poucas oportunidades de conhecer pessoas
Com a idade, o trabalho e a vida em família, o círculo social encolhe. Muitas pessoas simplesmente conhecem pouca gente nova. Não é um bloqueio: é falta de ocasiões.
Repetir o mesmo padrão
«Escolho sempre o mesmo tipo de pessoa e acaba sempre igual.» Isto é muito comum e a psicologia conhece-o bem. As experiências da infância e das primeiras relações moldam quem nos atrai e como nos ligamos. É o que estuda a teoria da vinculação, criada por John Bowlby e aplicada ao amor adulto por Cindy Hazan e Phillip Shaver em 1987. Um psicólogo pode ajudar a perceber e a mudar esse padrão.
Feridas que ainda não fecharam
Uma traição, um divórcio ou uma perda deixam marcas. Às vezes, sem darmos conta, protegemo-nos tanto que ninguém consegue chegar perto.
Autoestima em baixo
Quando não gostamos de nós, aceitamos pouco ou fugimos de quem gosta de nós. Isto não se resolve com um ritual, mas resolve-se, com tempo e, às vezes, com ajuda.
Tristeza ou ansiedade
Desânimo prolongado, cansaço, isolamento e falta de vontade podem ser sinais de depressão ou ansiedade. Nesses casos, o primeiro passo não é procurar amor: é cuidar de si.
O que pode fazer
- Alargue o círculo: associações, voluntariado, cursos, grupos de caminhada, coros, atividades da paróquia ou da junta de freguesia.
- Fale com alguém de confiança sobre o que sente.
- Procure um psicólogo se o padrão se repete ou se a tristeza é constante. O médico de família pode encaminhá-lo.
- Ligue para o SNS 24 (808 24 24 24), que tem aconselhamento psicológico gratuito.
- Se a espiritualidade o ajuda, use-a para ganhar calma e esperança: uma oração, um momento de silêncio. Não para esperar que o amor caia do céu.
Um aviso importante
Quem está sozinho e a sofrer é o alvo preferido de burlas espirituais. Desconfie de quem:
- lhe diz que tem um «bloqueio» ou um «trabalho feito» logo à primeira conversa;
- promete que a pessoa amada «volta» ou que o amor chega «em X dias»;
- pede pagamentos sucessivos ou o ameaça com «piora se parar».
Enganar alguém para obter dinheiro pode ser crime de burla. Pode apresentar queixa na PSP, GNR ou Ministério Público.
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Fontes
- SNS 24, Aconselhamento psicológico — sns24.gov.pt
- Cindy Hazan e Phillip Shaver, «Romantic love conceptualized as an attachment process», Journal of Personality and Social Psychology, 52(3), 1987
- Ordem dos Psicólogos Portugueses — ordemdospsicologos.pt
- Código Penal, artigo 217.º (Burla), Diário da República — diariodarepublica.pt