No Renascimento, a magia deixou de ser apenas assunto de feiticeiros e benzedeiras. Passou a ser discutida por filósofos, médicos e matemáticos respeitados, em cortes e universidades.
Esta «alta magia» nasceu da redescoberta de textos antigos — sobretudo o Corpus Hermeticum — e marcou profundamente o esoterismo ocidental até hoje.
O ponto de partida: Hermes Trismegisto
Por volta de 1463, em Florença, Marsílio Ficino traduziu para latim, a pedido de Cosme de Médici, um conjunto de tratados gregos atribuídos a Hermes Trismegisto. A tradução foi impressa em 1471.
Na época, julgava-se que Hermes era um sábio egípcio muito antigo, contemporâneo de Moisés. Por isso, estes textos pareciam uma sabedoria original, anterior a Platão.
Em 1614, o erudito Isaac Casaubon demonstrou, pela análise da língua, que os textos eram muito mais tardios, dos primeiros séculos da era cristã.
As figuras principais
| Nome | Contributo |
|---|---|
| Marsílio Ficino (1433–1499) | Magia natural, música e astros para harmonizar a alma |
| Pico della Mirandola (1463–1494) | Juntou a Cabala à filosofia cristã |
| Cornélio Agrippa (1486–1535) | Três Livros de Filosofia Oculta |
| Paracelso (1493–1541) | Medicina, alquimia e «sinais» da natureza |
| John Dee (1527–1608/09) | Matemática, astrologia e conversas com anjos |
| Giordano Bruno (1548–1600) | Filosofia, memória e cosmos infinito |
Ficino e Pico
Ficino defendia uma magia «natural»: usar música, perfumes, cores e pedras para atrair a influência benéfica dos astros. Tinha cuidado em afastá-la de qualquer invocação de demónios.
Pico della Mirandola foi mais longe. Nas suas 900 Teses (1486), afirmou que a magia e a Cabala confirmavam a verdade cristã. Várias teses foram condenadas pelo Papa.
➜ Cabala
Agrippa e a Filosofia Oculta
Heinrich Cornelius Agrippa escreveu cedo, por volta de 1510, os De occulta philosophia libri tres, publicados na versão completa em 1533. É a grande síntese da magia renascentista:
- Magia natural — ervas, pedras, animais;
- Magia celeste — astros, números, figuras;
- Magia cerimonial — nomes divinos, anjos, religião.
Foi uma obra de consulta para ocultistas durante séculos. O chamado Quarto Livro, publicado após a sua morte, não é considerado de Agrippa.
John Dee
John Dee foi matemático, geógrafo e conselheiro da rainha Isabel I de Inglaterra. Escreveu a Monas Hieroglyphica (1564), sobre um símbolo que resumiria o cosmos.
A partir de 1582, com o médium Edward Kelley, registou sessões em que dizia receber mensagens de anjos através de uma pedra de observação. Daí nasceu o chamado sistema enoquiano, retomado séculos depois pela Golden Dawn.
Os seus diários são documentos históricos. Se houve de facto contacto com anjos é uma questão de crença.
Giordano Bruno
Giordano Bruno, antigo frade dominicano, defendia um universo infinito e usava imagens mágicas nas suas artes da memória. Foi condenado pela Inquisição romana e queimado em Roma em 1600. As acusações eram sobretudo teológicas.
Magia, ciência e religião
No Renascimento, magia, astrologia, alquimia e ciência não estavam separadas como hoje. Muitas figuras da revolução científica interessaram-se também por hermetismo e alquimia.
A historiadora Frances Yates (Giordano Bruno and the Hermetic Tradition, 1964) defendeu que esta tradição influenciou o nascimento da ciência moderna. A tese foi muito discutida e hoje é vista com mais cautela.
➜ Alquimia
A herança
Da magia renascentista vieram ideias que continuam presentes no ocultismo moderno:
- as correspondências entre planetas, metais, cores e ervas;
- os selos e quadrados mágicos planetários;
- a ligação entre Cabala, magia e astrologia.
Os manifestos Rosa-Cruz (1614–1617) e, mais tarde, a Golden Dawn herdaram diretamente este universo.
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Fontes
- Yates, Frances A., Giordano Bruno and the Hermetic Tradition, Routledge, 1964
- Copenhaver, Brian P., Hermetica, Cambridge University Press, 1992
- Stanford Encyclopedia of Philosophy, «Marsilio Ficino» — plato.stanford.edu
- Stanford Encyclopedia of Philosophy, «Giordano Bruno» — plato.stanford.edu