Um xamã é, de forma geral, uma pessoa que — segundo a crença da sua comunidade — consegue comunicar com o mundo dos espíritos para curar, adivinhar ou proteger o grupo. Para isso entra num estado alterado de consciência, muitas vezes com a ajuda do tambor, do canto ou da dança.
O xamanismo não é uma religião única. É um nome que os estudiosos ocidentais deram a práticas semelhantes encontradas em povos muito diferentes, da Sibéria à Amazónia. As tradições de cada povo são religiões vivas, que merecem respeito e rigor.
De onde vem a palavra
A palavra «xamã» vem do russo šaman, que por sua vez vem das línguas tungúsicas da Sibéria, provavelmente do evenki.
Chegou à Europa Ocidental no século XVII, através dos contactos russos com os povos siberianos. O holandês Nicolaes Witsen divulgou-a num livro sobre a Tartária publicado em 1692, com uma gravura de um xamã tungúsico.
O xamã na Sibéria
Na Sibéria e na Ásia Central, o xamã tinha papéis muito concretos:
- Curar doenças, que se julgava terem causa espiritual;
- Acompanhar as almas dos mortos;
- Adivinhar o lugar da caça ou o futuro do grupo;
- Mediar com os espíritos da natureza e dos antepassados.
Usava muitas vezes um tambor — visto como a sua «montada» para viajar entre mundos — e um traje próprio com metais, fitas e símbolos.
Durante o período soviético, estas práticas foram fortemente reprimidas. Desde os anos 90, houve um renascimento em várias regiões, como Tuva, a Buriácia e Sakha (Iacútia).
Um termo discutido
Em 1951, o historiador das religiões Mircea Eliade publicou O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase. Defendeu que o xamanismo era uma forma muito antiga e quase universal de religiosidade, centrada no «voo mágico» da alma.
Muitos antropólogos criticaram depois esta visão:
- aplicar a mesma palavra a povos tão diferentes apaga as diferenças entre culturas;
- pode alimentar o estereótipo romântico do «bom selvagem»;
- cada povo tem nomes próprios para estas figuras.
Por isso, hoje muitos investigadores preferem falar de xamanismos no plural, ou usar os termos de cada cultura.
Exemplos pelo mundo
| Região | Exemplos |
|---|---|
| Sibéria e Mongólia | Xamãs evenkis, iacutos, buriates, tuvanos |
| Ártico | O angakkuq dos inuítes |
| Amazónia | Os pajés de muitos povos indígenas |
| Coreia | As mudang, na maioria mulheres |
| Lapónia | Os noaidi do povo sámi |
No Brasil, a palavra pajé, de origem tupi, designa o especialista religioso de muitos povos indígenas.
O neoxamanismo
A partir dos anos 70 e 80, surgiu no Ocidente o neoxamanismo: práticas inspiradas nos xamãs, adaptadas a pessoas urbanas. O antropólogo Michael Harner, com o livro The Way of the Shaman (1980), criou o chamado «xamanismo nuclear», centrado na «viagem» ao som do tambor.
O neoxamanismo levanta críticas:
- apropriação cultural — uso de rituais e objetos sagrados fora do seu contexto, por vezes contra a vontade dos povos de origem;
- comercialização — cursos e cerimónias caras, sem ligação às comunidades.
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Um aviso importante: substâncias
Algumas tradições amazónicas usam bebidas com substâncias psicoativas, como a ayahuasca. Em cerimónias comerciais para turistas, têm sido registados problemas graves de saúde e até mortes, sobretudo em pessoas com doenças cardíacas ou mentais, ou que tomam medicamentos.
O Grimório.pt não recomenda o consumo destas substâncias. Nenhuma prática espiritual substitui o acompanhamento de um médico ou psicólogo.
O que o xamanismo nos ensina
Para quem estuda o oculto, o xamanismo mostra como muitas culturas pensaram o mundo como habitado por espíritos e como procuraram pessoas capazes de fazer a ponte entre esses mundos. Estas são crenças das respetivas culturas, e é assim que devem ser apresentadas.
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Fontes
- Eliade, Mircea, Le chamanisme et les techniques archaïques de l'extase, Payot, 1951
- Hutton, Ronald, Shamans: Siberian Spirituality and the Western Imagination, Hambledon and London, 2001
- Encyclopedia.com, «Shamanism: Siberian and Inner Asian Shamanism» — encyclopedia.com
- Wikipedia, «Shamanism» — en.wikipedia.org