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Xamanismo: o xamã entre os mundos

O que é o xamanismo: a palavra siberiana šaman, o xamã como curador e intermediário, o tambor e o transe, Eliade, o neoxamanismo e os riscos.

3 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. De onde vem a palavra
  2. O xamã na Sibéria
  3. Um termo discutido
  4. Exemplos pelo mundo
  5. O neoxamanismo
  6. Um aviso importante: substâncias
  7. O que o xamanismo nos ensina
  8. Continue a ler
  9. Fontes

Um xamã é, de forma geral, uma pessoa que — segundo a crença da sua comunidade — consegue comunicar com o mundo dos espíritos para curar, adivinhar ou proteger o grupo. Para isso entra num estado alterado de consciência, muitas vezes com a ajuda do tambor, do canto ou da dança.

O xamanismo não é uma religião única. É um nome que os estudiosos ocidentais deram a práticas semelhantes encontradas em povos muito diferentes, da Sibéria à Amazónia. As tradições de cada povo são religiões vivas, que merecem respeito e rigor.

De onde vem a palavra

A palavra «xamã» vem do russo šaman, que por sua vez vem das línguas tungúsicas da Sibéria, provavelmente do evenki.

Chegou à Europa Ocidental no século XVII, através dos contactos russos com os povos siberianos. O holandês Nicolaes Witsen divulgou-a num livro sobre a Tartária publicado em 1692, com uma gravura de um xamã tungúsico.

O xamã na Sibéria

Na Sibéria e na Ásia Central, o xamã tinha papéis muito concretos:

  • Curar doenças, que se julgava terem causa espiritual;
  • Acompanhar as almas dos mortos;
  • Adivinhar o lugar da caça ou o futuro do grupo;
  • Mediar com os espíritos da natureza e dos antepassados.

Usava muitas vezes um tambor — visto como a sua «montada» para viajar entre mundos — e um traje próprio com metais, fitas e símbolos.

Durante o período soviético, estas práticas foram fortemente reprimidas. Desde os anos 90, houve um renascimento em várias regiões, como Tuva, a Buriácia e Sakha (Iacútia).

Um termo discutido

Em 1951, o historiador das religiões Mircea Eliade publicou O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase. Defendeu que o xamanismo era uma forma muito antiga e quase universal de religiosidade, centrada no «voo mágico» da alma.

Muitos antropólogos criticaram depois esta visão:

  • aplicar a mesma palavra a povos tão diferentes apaga as diferenças entre culturas;
  • pode alimentar o estereótipo romântico do «bom selvagem»;
  • cada povo tem nomes próprios para estas figuras.

Por isso, hoje muitos investigadores preferem falar de xamanismos no plural, ou usar os termos de cada cultura.

Exemplos pelo mundo

Região Exemplos
Sibéria e Mongólia Xamãs evenkis, iacutos, buriates, tuvanos
Ártico O angakkuq dos inuítes
Amazónia Os pajés de muitos povos indígenas
Coreia As mudang, na maioria mulheres
Lapónia Os noaidi do povo sámi

No Brasil, a palavra pajé, de origem tupi, designa o especialista religioso de muitos povos indígenas.

O neoxamanismo

A partir dos anos 70 e 80, surgiu no Ocidente o neoxamanismo: práticas inspiradas nos xamãs, adaptadas a pessoas urbanas. O antropólogo Michael Harner, com o livro The Way of the Shaman (1980), criou o chamado «xamanismo nuclear», centrado na «viagem» ao som do tambor.

O neoxamanismo levanta críticas:

  • apropriação cultural — uso de rituais e objetos sagrados fora do seu contexto, por vezes contra a vontade dos povos de origem;
  • comercialização — cursos e cerimónias caras, sem ligação às comunidades.

➜ New Age

Um aviso importante: substâncias

Algumas tradições amazónicas usam bebidas com substâncias psicoativas, como a ayahuasca. Em cerimónias comerciais para turistas, têm sido registados problemas graves de saúde e até mortes, sobretudo em pessoas com doenças cardíacas ou mentais, ou que tomam medicamentos.

O Grimório.pt não recomenda o consumo destas substâncias. Nenhuma prática espiritual substitui o acompanhamento de um médico ou psicólogo.

O que o xamanismo nos ensina

Para quem estuda o oculto, o xamanismo mostra como muitas culturas pensaram o mundo como habitado por espíritos e como procuraram pessoas capazes de fazer a ponte entre esses mundos. Estas são crenças das respetivas culturas, e é assim que devem ser apresentadas.

Continue a ler

➜ Ritos iniciáticos

➜ Paganismo

➜ Experiências fora do corpo

➜ Bruxaria africana

Fontes

  • Eliade, Mircea, Le chamanisme et les techniques archaïques de l'extase, Payot, 1951
  • Hutton, Ronald, Shamans: Siberian Spirituality and the Western Imagination, Hambledon and London, 2001
  • Encyclopedia.com, «Shamanism: Siberian and Inner Asian Shamanism» — encyclopedia.com
  • Wikipedia, «Shamanism» — en.wikipedia.org

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