Um rito iniciático é uma cerimónia que marca a entrada de alguém num novo estado: adulto, membro de um grupo, sacerdote, detentor de um conhecimento reservado.
Existem em quase todas as culturas humanas — desde povos tradicionais até às ordens esotéricas modernas. E seguem, curiosamente, um esquema muito parecido.
Esta página olha para os ritos iniciáticos como fenómeno histórico e cultural. Para o lado pessoal e espiritual da iniciação, veja também:
As três fases de Van Gennep
Em 1909, o etnólogo Arnold van Gennep publicou Les rites de passage. Mostrou que estes ritos têm quase sempre três fases:
| Fase | O que acontece |
|---|---|
| Separação | A pessoa deixa o seu estado anterior |
| Margem (limiar) | Fica «entre dois mundos», à prova |
| Agregação | Regressa com um novo estatuto |
Mais tarde, o antropólogo Victor Turner estudou a fase do meio, a que chamou liminaridade: um tempo estranho, em que as regras normais ficam suspensas e o iniciado não é «nem uma coisa nem outra».
A ideia simbólica central é quase sempre a mesma: morrer para a vida antiga e renascer para uma nova.
Na Antiguidade: os mistérios
Os Mistérios de Elêusis
Perto de Atenas, durante cerca de dois mil anos, celebraram-se os Mistérios de Elêusis, dedicados a Deméter e Perséfone. Milhares de pessoas foram iniciadas.
O segredo foi tão bem guardado que ainda hoje não se sabe exatamente o que acontecia no ritual final. Os autores antigos falam de uma esperança de destino feliz depois da morte.
Os mistérios de Mitra
No Império Romano, o culto de Mitra, muito popular entre soldados, tinha sete graus de iniciação, cada um associado a um planeta. Os rituais decorriam em santuários subterrâneos, os mithraea.
Nas religiões
No cristianismo, o Batismo, a Confirmação (Crisma) e a Eucaristia são chamados precisamente «sacramentos da iniciação cristã». O batismo por imersão exprime bem a ideia de morrer e renascer.
Nas religiões afro-americanas, como a santería ou o candomblé, a iniciação envolve um período de recolhimento e um longo tempo de aprendizagem, com regras próprias.
➜ Santería
Nas ordens esotéricas
A partir do século XVIII, as sociedades iniciáticas ocidentais organizaram-se em graus:
- Franc-Maçonaria — três graus simbólicos: Aprendiz, Companheiro e Mestre.
- Golden Dawn (1888) — uma escada de graus inspirada na Árvore da Vida da Cabala.
- Wicca — tradicionalmente, três graus de iniciação num coven.
Nestes grupos, o rito serve para transmitir símbolos, ensinamentos e pertença. O conteúdo é muitas vezes guardado em segredo pelos membros.
➜ Wicca
Ritos de passagem na vida comum
Nem todos os ritos são religiosos. Os antropólogos também veem ritos de passagem em costumes laicos: a entrada na universidade, o serviço militar (em Portugal, a antiga «ida às sortes» marcava a passagem dos rapazes à idade adulta), casamentos e funerais.
Sinais de alerta
Uma iniciação séria nunca deve pôr em risco a saúde, a liberdade ou o dinheiro de ninguém. Desconfie de grupos que:
- exigem quantias elevadas para «subir de grau»;
- pedem que corte relações com família e amigos;
- impõem jejuns extremos, privação de sono ou substâncias;
- proíbem fazer perguntas ou sair do grupo.
Em caso de dúvida, fale com alguém de confiança fora do grupo.
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Fontes
- Van Gennep, Arnold, Les rites de passage, Paris, 1909 — Wikipedia, «Rite of passage»
- Turner, Victor, The Ritual Process: Structure and Anti-Structure, 1969
- Burkert, Walter, Ancient Mystery Cults, Harvard University Press, 1987
- Catecismo da Igreja Católica, §1212 (sacramentos da iniciação cristã) — vatican.va