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Vodu do Haiti: a religião por trás dos mitos

O vodu haitiano com rigor: Bondye e os lwa, oungan e manbo, vèvè, a lenda de Bois-Caïman, o reconhecimento oficial em 2003 e os mitos do cinema.

3 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Origem
  2. Em que acreditam os vodouisants
  3. Sacerdotes, templos e ritual
  4. Vodu e catolicismo
  5. Bois-Caïman: história ou lenda?
  6. Reconhecimento oficial
  7. Os mitos do cinema
  8. Continue a ler
  9. Fontes

Para muita gente, «vodu» evoca bonecos espetados com alfinetes, zombies e magia negra. Esta imagem vem sobretudo do cinema e da literatura sensacionalista do século XX.

O vodu haitiano (em crioulo, Vodou) é outra coisa: uma religião viva, com uma teologia, sacerdotes, templos, música e dança, praticada por milhões de haitianos. Esta página apresenta-a com rigor e respeito.

Origem

A palavra vem de vodun, que na língua fon (do atual Benim) significa «espírito» ou «divindade».

O vodu formou-se na colónia francesa de Saint-Domingue (o atual Haiti), nos séculos XVII e XVIII. Aí, africanos escravizados de muitas origens — sobretudo do Daomé (Benim), da região iorubá e do Congo — juntaram as suas tradições. Obrigados ao batismo, integraram também elementos do catolicismo.

Em que acreditam os vodouisants

Bondye

Existe um Deus supremo, Bondye (do francês Bon Dieu, «Bom Deus»). É criador de tudo, mas considerado distante dos assuntos humanos.

Os lwa

Entre Deus e os humanos estão os lwa (ou loa): espíritos com personalidade própria, cores, dias, comidas e símbolos preferidos. Comunicam através dos sonhos e da possessão ritual, em que um lwa «monta» um participante durante a cerimónia.

Os lwa organizam-se em «nações» (nanchon). As duas principais:

Nação Carácter
Rada Espíritos «doces», de origem sobretudo daomeana
Petwo Espíritos «quentes», ligados ao fogo e ao Congo

Alguns lwa muito conhecidos: Papa Legba, guardião das encruzilhadas e das portas; Erzulie Freda, ligada ao amor; Ogou, ao ferro e à guerra; e os Gede, espíritos da morte e da fertilidade, liderados pelo Baron Samdi.

➜ A encruzilhada

Sacerdotes, templos e ritual

  • Oungan (sacerdote) e manbo (sacerdotisa) dirigem as cerimónias, as iniciações e fazem trabalho de cura e aconselhamento.
  • O templo chama-se ounfò. A sala principal, o peristil, tem ao centro um poste, o potomitan, por onde os lwa desceriam.
  • Os vèvè são desenhos simbólicos traçados no chão com farinha de milho ou cinza, cada um próprio de um lwa.
  • Tambores, cânticos e dança são essenciais.

Vodu e catolicismo

Muitos vodouisants consideram-se também católicos. Os lwa foram associados a santos: Papa Legba a São Lázaro ou a São Pedro, Erzulie Dantor à Virgem Negra de Częstochowa, por exemplo.

Ao longo do século XX, a Igreja Católica e depois igrejas protestantes lideraram campanhas contra o vodu. Em 1941–1942, uma campanha apoiada pelo governo destruiu muitos templos.

Bois-Caïman: história ou lenda?

Segundo a tradição haitiana, em agosto de 1791 realizou-se uma cerimónia vodu em Bois-Caïman, dirigida por Dutty Boukman, que teria dado início à revolta dos escravizados e, depois, à Revolução Haitiana.

A revolta de 1791 é um facto histórico. Os pormenores da cerimónia, porém, são discutidos pelos historiadores: as fontes são escassas e tardias. É um episódio de enorme importância na memória nacional haitiana.

Reconhecimento oficial

A Constituição haitiana de 1987 consagrou a liberdade religiosa. Em 2003, um decreto do presidente Jean-Bertrand Aristide reconheceu oficialmente o vodu como religião, permitindo aos seus sacerdotes celebrar casamentos e outros atos civis.

Os mitos do cinema

  • Bonecos com alfinetes — não são uma prática central do vodu haitiano. A imagem popularizou-se sobretudo através de filmes, lojas turísticas de Nova Orleães e literatura de ficção.
  • Zombies — a figura do zonbi existe no folclore haitiano, mas a versão do morto-vivo canibal é invenção do cinema, a partir do filme White Zombie (1932).
  • «Religião do mal» — esta ideia foi muito difundida durante a ocupação norte-americana do Haiti (1915–1934), por livros sensacionalistas.

Muitos anúncios de «vudu para o amor» ou «vudu para vingança» usam o nome desta religião de forma comercial. Pouco têm a ver com o vodu haitiano real, e o Grimório.pt não ensina práticas para prejudicar ou controlar outra pessoa.

Continue a ler

➜ Santería

➜ Bruxaria africana

➜ Candomblé

Fontes

  • Open Encyclopedia of Anthropology, «Haitian Vodou» — anthroencyclopedia.com
  • Brown, Karen McCarthy, Mama Lola: A Vodou Priestess in Brooklyn, University of California Press, 1991
  • Wikipedia, «Haitian Vodou» — en.wikipedia.org
  • Wikipedia, «History of Haitian Vodou» — en.wikipedia.org

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