Thelema é o movimento religioso e mágico fundado pelo ocultista inglês Aleister Crowley (1875–1947) a partir de 1904. O nome vem da palavra grega thélēma, que significa «vontade».
A sua frase mais conhecida — «Faz o que tu queres será o todo da Lei» — é muitas vezes lida como um convite a fazer tudo o que apetece. Para os thelemitas, não é isso: trata-se de descobrir e seguir a vontade verdadeira de cada um.
Esta página explica a história e as ideias da Thelema. Sobre a vida de Crowley, veja a página própria.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Fundador | Aleister Crowley |
| Data de origem | 8–10 de abril de 1904, Cairo |
| Texto central | Liber AL vel Legis (O Livro da Lei) |
| Ideia central | A vontade verdadeira (True Will) |
| Organizações | A∴A∴ (1907), Ordo Templi Orientis (OTO) |
| Rito principal | A Missa Gnóstica (1913) |
O Livro da Lei (Cairo, 1904)
Em abril de 1904, Crowley estava no Cairo em lua de mel com a mulher, Rose Kelly. Segundo o seu relato, durante três dias — 8, 9 e 10 de abril — escreveu os três capítulos do Livro da Lei, um por dia, durante uma hora, a partir do meio-dia.
Crowley afirmou que o texto lhe foi ditado por uma entidade chamada Aiwass. Isto é o relato do próprio Crowley; não há forma de o verificar. Os críticos veem no livro uma obra do próprio autor.
O Livro da Lei está protegido por direitos de autor, por isso não o transcrevemos.
As três ideias centrais
O livro contém três frases que resumem a Thelema:
| Frase | Sentido para os thelemitas |
|---|---|
| «Faz o que tu queres será o todo da Lei» | Seguir a vontade verdadeira, não o capricho |
| «Todo o homem e toda a mulher é uma estrela» | Cada pessoa tem uma natureza divina e um caminho próprio |
| «Amor é a lei, amor sob vontade» | O amor (agape) orientado pelo propósito |
A vontade verdadeira é, na Thelema, o propósito profundo de cada pessoa, distinto dos desejos do ego. A prática mágica — a «Grande Obra» — serviria para a descobrir.
O número 93
Em grego, as palavras thelema (vontade) e agape (amor) somam ambas 93 na isopsefia (valor numérico das letras). Por isso os thelemitas se cumprimentam com «93».
Rabelais e a Abadia de Thélème
A ideia não nasceu do nada. No século XVI, o escritor francês François Rabelais imaginou, em Gargântua, a Abadia de Thélème, cuja única regra era «Fay ce que vouldras» — «Faz o que quiseres».
Crowley viu nessa abadia um precursor da sua doutrina. Os estudiosos discutem se Rabelais escreveu com intenção filosófica ou apenas satírica.
Os éons
Crowley dividiu a história religiosa em éons:
- Éon de Ísis — religiões da deusa-mãe, na pré-história;
- Éon de Osíris — religiões do deus-pai, do sacrifício e da obediência;
- Éon de Hórus — iniciado em 1904, a era da liberdade e da vontade individual;
- Éon de Maat — um éon futuro, de data incerta.
Esta divisão é uma doutrina da Thelema, não uma classificação usada pelos historiadores das religiões.
A A∴A∴
A A∴A∴ foi fundada em 1907 por Crowley e George Cecil Jones. É uma ordem de treino espiritual por graus que sobem a Árvore da Vida cabalística. Nasceu depois da cisão da Golden Dawn, onde Crowley tinha sido iniciado em 1898.
O ensino era divulgado na revista The Equinox (a partir de 1909).
A Ordo Templi Orientis (OTO)
A OTO nasceu no mundo de língua alemã, ligada à maçonaria de altos graus, com Carl Kellner e Theodor Reuss. Crowley entrou em 1910, dirigiu o ramo britânico a partir de 1912 e foi eleito chefe da ordem em 1925. Transformou a OTO numa ordem thelemita.
O braço religioso da OTO é a Ecclesia Gnostica Catholica, cujo rito central é a Missa Gnóstica, escrita por Crowley em Moscovo em 1913.
A Abadia de Thelema em Cefalù
Em 1920, Crowley e Leah Hirsig instalaram-se numa casa em Cefalù, na Sicília, a que chamaram Abadia de Thelema — uma comunidade e escola mágica.
Em 1923 morreu ali um jovem estudante de Oxford, Raoul Loveday, provavelmente de febre causada por água contaminada. A imprensa sensacionalista inglesa atacou Crowley e o governo de Mussolini expulsou-o de Itália nesse ano.
Portugal e a Thelema
Em setembro de 1930, Crowley esteve em Lisboa, depois de trocar cartas com Fernando Pessoa. Pessoa traduziu para português o seu poema Hino a Pã, e os dois encenaram o falso suicídio de Crowley na Boca do Inferno, em Cascais.
➜ Crowley em Lisboa e a Boca do Inferno
➜ Fernando Pessoa e o ocultismo
Depois de Crowley
Após a morte de Crowley (1947), a OTO passou por Karl Germer e, mais tarde, por Grady McMurtry, que a reorganizou nos anos 1970. Surgiram também correntes derivadas, como a Ordem Tifoniana de Kenneth Grant.
Nos Estados Unidos, o engenheiro de foguetes Jack Parsons foi um dos thelemitas mais conhecidos da década de 1940.