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Bruxaria e feitiçaria em África: crenças, história e ligações a Portugal

A feitiçaria em África sem generalizações: o estudo de Evans-Pritchard, a palavra «feitiço», as bolsas de mandinga e africanos julgados pela Inquisição.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Um problema de palavras
  2. A palavra «feitiço» e Portugal
  3. O estudo clássico: os Azande
  4. Africanos acusados de feitiçaria em Portugal
  5. As bolsas de mandinga
  6. As religiões afro-brasileiras
  7. Um problema atual e grave
  8. Continue a ler
  9. Fontes

Falar de «bruxaria africana» exige cuidado. África tem 54 países e milhares de povos, línguas e religiões. Não existe uma única «magia africana», tal como não existe uma única «magia europeia».

Nesta página explicamos o que os historiadores e antropólogos estudaram, a ligação histórica com Portugal e os problemas reais que as acusações de bruxaria ainda causam hoje.

Também desfazemos um equívoco comum: religiões de origem africana, como o candomblé ou o vodu, não são «bruxaria». São religiões com deuses, sacerdotes, rituais e ética próprios.

Um problema de palavras

As palavras portuguesas «bruxaria» e «feitiçaria» vêm da história europeia. Quando os europeus as aplicaram a África, juntaram na mesma caixa coisas muito diferentes:

  • religiões locais, com os seus cultos aos antepassados e às divindades;
  • especialistas de cura, que usavam plantas, adivinhação e rituais;
  • a crença no malefício: a ideia de que certas pessoas causam mal por meios ocultos.

Em muitas línguas africanas, o curandeiro que protege e o «bruxo» que faz mal são figuras opostas. Chamar «bruxo» a um curandeiro é, muitas vezes, um insulto.

A palavra «feitiço» e Portugal

A palavra «fetiche», usada em várias línguas europeias, vem do português «feitiço». Os navegadores e comerciantes portugueses na costa ocidental africana, a partir do século XV, chamavam «feitiços» aos objetos sagrados que viam.

Os historiadores mostram que esta palavra diz mais sobre o olhar europeu do que sobre o sentido que esses objetos tinham para quem os usava.

O estudo clássico: os Azande

Em 1937, o antropólogo britânico E. E. Evans-Pritchard publicou Witchcraft, Oracles and Magic among the Azande, sobre um povo da África Central.

Mostrou que, para os Azande, a bruxaria (mangu) servia para explicar porque é que uma desgraça acontece a uma pessoa concreta. Sabiam que um celeiro cai porque as térmitas comeram os pilares; a bruxaria explicava porque caiu naquele momento, em cima daquela pessoa.

O livro distinguiu:

Conceito Sentido entre os Azande
Bruxaria Poder inato, muitas vezes inconsciente
Feitiçaria Magia feita de propósito, com objetos e fórmulas

Esta distinção vale para os Azande. Não deve ser aplicada automaticamente a todo o continente.

Africanos acusados de feitiçaria em Portugal

A escravatura trouxe para Portugal milhares de africanos, sobretudo a partir do século XV. Alguns eram procurados como curandeiros e adivinhos, e alguns acabaram julgados pela Inquisição.

A historiadora Daniela Buono Calainho estudou estes processos. Entre os casos que analisou:

  • Estêvão Luís, homem forro, ganhou fama de curandeiro em Beja, por volta de 1680. Dizia ouvir vozes que lhe indicavam as ervas para cada doença.
  • Maria Tomé, parteira de Évora, foi acusada em 1744 de provocar a morte de várias crianças.

Estes processos mostram mais sobre o medo e o preconceito da sociedade da época do que sobre os poderes dos acusados.

➜ A Inquisição em Portugal

As bolsas de mandinga

No século XVIII, circularam em Portugal, no Brasil e em África as chamadas bolsas de mandinga: pequenos saquinhos usados junto ao corpo como proteção contra ferimentos e perigos.

Podiam conter orações a santos escritas em papel, desenhos de Cristo crucificado, pedras, raízes, sementes e muitos outros objetos. A historiadora Vanicléia Silva Santos mostrou que eram objetos atlânticos: misturavam elementos africanos, católicos e islâmicos. Muitos portadores foram processados pela Inquisição.

➜ Amuletos e talismãs

As religiões afro-brasileiras

Do encontro entre religiões africanas, catolicismo e tradições indígenas nasceram no Brasil religiões como o candomblé e a umbanda. No Caribe surgiram o vodu haitiano e a santeria cubana.

Cada uma tem a sua história e a sua teologia. Presentes também em Portugal, merecem ser estudadas pelo que são e não pelo que o cinema mostra.

➜ Candomblé

➜ Umbanda

➜ Vodu do Haiti

➜ Santeria

Um problema atual e grave

As acusações de bruxaria continuam a causar violência real em vários países, dentro e fora de África. Idosos, crianças e pessoas com albinismo estão entre as principais vítimas.

Em julho de 2021, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas aprovou a Resolução 47/8, que pede aos Estados que acabem com as práticas nocivas ligadas a acusações de bruxaria e a ataques rituais.

Estudar estas crenças com respeito não é o mesmo que as aprovar. Nenhuma crença justifica a violência contra alguém acusado de bruxaria.

Continue a ler

➜ Feitiçaria portuguesa

➜ Xamanismo

➜ Magia egípcia

➜ Enciclopédia do Oculto

Fontes

  • E. E. Evans-Pritchard, Witchcraft, Oracles and Magic among the Azande, Oxford, Clarendon Press, 1937.
  • Daniela Buono Calainho, «Jambacousses e gangazambes: feiticeiros negros em Portugal», Afro-Ásia, n.º 25–26, 2001 — redalyc.org
  • Vanicléia Silva Santos, As bolsas de mandinga no espaço atlântico: século XVIII, tese de doutoramento, USP, 2008 — teses.usp.br
  • Nações Unidas, Conselho de Direitos Humanos, Resolução 47/8 (2021) — digitallibrary.un.org

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