Muitas pessoas procuram uma limpeza de karma quando sentem que os mesmos problemas se repetem: a mesma relação difícil, o mesmo bloqueio no trabalho, a mesma sensação de «castigo».
Antes de falar em limpeza, vale a pena perceber o que é o karma nas religiões onde a palavra nasceu. A resposta é bem diferente da ideia de uma «dívida» que alguém pode apagar com um ritual pago.
A palavra e a origem
Karma vem do sânscrito karman, que significa «ação» ou «obra». É um conceito das religiões nascidas na Índia.
Um dos textos mais antigos a tratá-lo é a Brihadaranyaka Upanishad, que diz, em resumo, que quem faz boas ações se torna bom, e quem faz más ações se torna mau.
O karma em três religiões
Hinduísmo
As ações deixam marcas que moldam a vida presente e as vidas seguintes (o ciclo de renascimentos, samsara). As escolas hindus não concordam todas sobre como isto funciona.
Budismo
Para o budismo, o que conta é a intenção. Num texto antigo, o Buda diz que a intenção é aquilo a que chama karma. O karma não é um destino fixo: depende de muitas condições e pode ser transformado pela conduta.
Jainismo
O jainismo tem uma visão única: o karma é uma espécie de matéria subtil que se cola à alma com as ações e que se liberta pela disciplina, pela não-violência e pelo desapego.
Como o karma chegou ao Ocidente
O karma tornou-se popular no Ocidente no fim do século XIX, através da Sociedade Teosófica. Aí passou a ser apresentado como uma «lei de causa e efeito» universal.
Mais tarde, o New Age e a Wicca criaram versões próprias, como a «lei do retorno». Estas ideias não são iguais ao karma tal como é entendido na Índia.
➜ Karma
➜ Teosofia
Pode o karma ser «limpo» por outra pessoa?
Nas tradições de origem, não se compra nem se encomenda a limpeza do karma. O caminho passa pela conduta da própria pessoa: ações, intenções, meditação, devoção, disciplina. Algumas correntes falam de graça divina ou de rituais de expiação, mas nenhuma as reduz a um serviço pago.
A expressão «limpeza de karma» é moderna e pertence ao esoterismo comercial. Desconfie de quem diz ver «dívidas de vidas passadas» e pede dinheiro para as apagar.
O que depende de si
Se sente que carrega padrões que se repetem, estas práticas inspiram-se nas tradições de origem:
- Olhar para os padrões com honestidade. Escrever o que se repete e que escolhas o alimentam.
- Reparar o que é possível. Pedir desculpa, pagar uma dívida, fazer as pazes.
- Perdoar, a si e aos outros, sem fingir que o mal não aconteceu.
- Meditar alguns minutos por dia, observando a intenção antes de agir.
- Fazer o bem sem esperar retorno.
Este texto foi redigido pelo Grimório.pt:
Aceito o que fiz e o que me fizeram.
Reparo o que posso, largo o que não posso.
Que as minhas próximas ações nasçam de uma boa intenção.
Quando procurar ajuda
Padrões que se repetem, como relações que magoam, dificuldade em sair de dívidas ou tristeza constante, têm muitas vezes explicações que um psicólogo ajuda a ver. Não é fraqueza: é a forma mais concreta de mudar de padrão.
O SNS 24 (808 24 24 24) tem uma linha de aconselhamento psicológico.
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Fontes
- «Karma», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Karma», Encyclopaedia Britannica — britannica.com
- «Nibbedhika Sutta» (AN 6.63), tradução de Thanissaro Bhikkhu — accesstoinsight.org