Saltar para o conteúdo

✨ Espiritualidade

Karma: o que é (e o que não é)

O que é o karma: a palavra sânscrita, as Upanishads, as diferenças entre hinduísmo, budismo e jainismo, e os mitos modernos do «karma instantâneo».

3 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. A palavra
  2. A ideia nas Upanishads
  3. Quatro conceitos que andam juntos
  4. Três religiões, três visões
  5. Como o karma chegou ao Ocidente
  6. O que o karma não é
  7. Uma ideia com paralelos
  8. Continue a ler
  9. Fontes

«Isso é karma!» Ouve-se em Portugal quase como sinónimo de castigo ou de «cá se fazem, cá se pagam».

Mas o karma é um conceito religioso com cerca de três mil anos, nascido na Índia, com sentidos diferentes no hinduísmo, no budismo e no jainismo. Esta página explica o conceito e corrige alguns mitos modernos.

Se procura saber se o karma pode ser «limpo», veja a página dedicada.

➜ Limpeza de karma: o que se pode fazer

A palavra

Karma (em sânscrito karman) significa simplesmente ação, obra ou ato. Nos hinos védicos mais antigos, a palavra refere-se sobretudo aos atos rituais, como os sacrifícios.

A ideia nas Upanishads

O sentido moral aparece nas Upanishads, textos filosóficos indianos do primeiro milénio a.C. A Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (4.4.5) resume-o assim, em tradução livre: como a pessoa age, assim se torna. Quem faz o bem torna-se bom; quem faz o mal torna-se mau.

É o núcleo da ideia: os atos moldam quem os pratica, nesta vida e, segundo a crença, nas vidas seguintes.

Quatro conceitos que andam juntos

Conceito O que é
Karma A ação e as suas consequências
Saṃsāra O ciclo de nascimentos e mortes
Dharma O dever, a ordem justa, o ensinamento
Mokṣa / Nirvāṇa A libertação do ciclo

O karma não é um fim em si. Nas tradições indianas, o objetivo último é libertar-se do ciclo que o karma alimenta.

Três religiões, três visões

  • Hinduísmo: o karma liga-se à reencarnação do ātman. As escolas hindus discordam sobre o papel de Deus neste processo.
  • Budismo: o que conta é a intenção (cetanā). Não há um juiz divino nem um eu permanente.
  • Jainismo: o karma é entendido como uma matéria subtil que adere à alma e a pesa.

(Para mais pormenores sobre cada uma, veja a página sobre limpeza de karma.)

Como o karma chegou ao Ocidente

A palavra entrou no vocabulário europeu no século XIX, através dos estudos orientais e, sobretudo, da Sociedade Teosófica. Os teósofos apresentaram o karma como uma lei universal de causa e efeito, aplicada à evolução espiritual.

Daí passou para o espiritismo, a Nova Era e a linguagem do dia a dia.

➜ Teosofia

➜ Nova Era

O que o karma não é

Não é um castigo divino

No budismo e em várias escolas hindus, o karma não é aplicado por um deus que pune. É visto como uma consequência natural dos atos, mais parecida com uma semente que dá fruto.

Não é «karma instantâneo»

A ideia de que quem nos fez mal «vai pagar» em breve é popular, mas não vem das tradições indianas, onde as consequências podem amadurecer muito mais tarde, ou noutra vida.

Não é a «Lei Tríplice»

A regra de que «o que se faz volta a triplicar» pertence à Wicca moderna (século XX). É outra ideia, com outra origem.

➜ A bruxaria volta contra quem a faz?

Não é destino fixo

As tradições indianas insistem que as ações presentes contam. O karma não é uma sentença; é um convite à responsabilidade.

Não justifica o sofrimento dos outros

Dizer a alguém doente ou pobre que «é o seu karma» é cruel e contrário ao espírito destas religiões, que valorizam a compaixão.

Uma ideia com paralelos

A intuição de que colhemos o que semeamos existe também na tradição cristã: «o que o homem semear, isso mesmo colherá» (Gálatas 6,7). As explicações são diferentes, mas a lição prática é parecida: agir com cuidado e bondade.

Continue a ler

➜ A alma

➜ Meditação

➜ Oração para o perdão

Fontes

  • «Karma», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, 4.4.5 (trad. Patrick Olivelle, Upaniṣads, Oxford University Press, 1996).
  • Wendy Doniger O'Flaherty (ed.), Karma and Rebirth in Classical Indian Traditions, University of California Press, 1980.

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Espiritualidade ›