«Isso é karma!» Ouve-se em Portugal quase como sinónimo de castigo ou de «cá se fazem, cá se pagam».
Mas o karma é um conceito religioso com cerca de três mil anos, nascido na Índia, com sentidos diferentes no hinduísmo, no budismo e no jainismo. Esta página explica o conceito e corrige alguns mitos modernos.
Se procura saber se o karma pode ser «limpo», veja a página dedicada.
➜ Limpeza de karma: o que se pode fazer
A palavra
Karma (em sânscrito karman) significa simplesmente ação, obra ou ato. Nos hinos védicos mais antigos, a palavra refere-se sobretudo aos atos rituais, como os sacrifícios.
A ideia nas Upanishads
O sentido moral aparece nas Upanishads, textos filosóficos indianos do primeiro milénio a.C. A Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (4.4.5) resume-o assim, em tradução livre: como a pessoa age, assim se torna. Quem faz o bem torna-se bom; quem faz o mal torna-se mau.
É o núcleo da ideia: os atos moldam quem os pratica, nesta vida e, segundo a crença, nas vidas seguintes.
Quatro conceitos que andam juntos
| Conceito | O que é |
|---|---|
| Karma | A ação e as suas consequências |
| Saṃsāra | O ciclo de nascimentos e mortes |
| Dharma | O dever, a ordem justa, o ensinamento |
| Mokṣa / Nirvāṇa | A libertação do ciclo |
O karma não é um fim em si. Nas tradições indianas, o objetivo último é libertar-se do ciclo que o karma alimenta.
Três religiões, três visões
- Hinduísmo: o karma liga-se à reencarnação do ātman. As escolas hindus discordam sobre o papel de Deus neste processo.
- Budismo: o que conta é a intenção (cetanā). Não há um juiz divino nem um eu permanente.
- Jainismo: o karma é entendido como uma matéria subtil que adere à alma e a pesa.
(Para mais pormenores sobre cada uma, veja a página sobre limpeza de karma.)
Como o karma chegou ao Ocidente
A palavra entrou no vocabulário europeu no século XIX, através dos estudos orientais e, sobretudo, da Sociedade Teosófica. Os teósofos apresentaram o karma como uma lei universal de causa e efeito, aplicada à evolução espiritual.
Daí passou para o espiritismo, a Nova Era e a linguagem do dia a dia.
➜ Teosofia
➜ Nova Era
O que o karma não é
Não é um castigo divino
No budismo e em várias escolas hindus, o karma não é aplicado por um deus que pune. É visto como uma consequência natural dos atos, mais parecida com uma semente que dá fruto.
Não é «karma instantâneo»
A ideia de que quem nos fez mal «vai pagar» em breve é popular, mas não vem das tradições indianas, onde as consequências podem amadurecer muito mais tarde, ou noutra vida.
Não é a «Lei Tríplice»
A regra de que «o que se faz volta a triplicar» pertence à Wicca moderna (século XX). É outra ideia, com outra origem.
➜ A bruxaria volta contra quem a faz?
Não é destino fixo
As tradições indianas insistem que as ações presentes contam. O karma não é uma sentença; é um convite à responsabilidade.
Não justifica o sofrimento dos outros
Dizer a alguém doente ou pobre que «é o seu karma» é cruel e contrário ao espírito destas religiões, que valorizam a compaixão.
Uma ideia com paralelos
A intuição de que colhemos o que semeamos existe também na tradição cristã: «o que o homem semear, isso mesmo colherá» (Gálatas 6,7). As explicações são diferentes, mas a lição prática é parecida: agir com cuidado e bondade.
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➜ A alma
Fontes
- «Karma», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, 4.4.5 (trad. Patrick Olivelle, Upaniṣads, Oxford University Press, 1996).
- Wendy Doniger O'Flaherty (ed.), Karma and Rebirth in Classical Indian Traditions, University of California Press, 1980.