Resposta curta: depende da religião. Para a Igreja Católica e para a maioria das igrejas cristãs, não: a magia e a adivinhação são consideradas contrárias à fé (Catecismo, §2115–2117). Já para religiões como a Wicca ou algumas correntes afro-brasileiras, a prática mágica faz parte da própria vida religiosa.
Em Portugal, a realidade popular sempre foi mais misturada do que a doutrina.
Oração e magia: qual a diferença?
A distinção clássica, tanto na teologia como na antropologia, é esta:
- Na oração, a pessoa pede e entrega o resultado a Deus: «seja feita a Vossa vontade».
- Na magia, a pessoa procura obter um resultado através de uma técnica, de palavras ou objetos certos.
O antropólogo James George Frazer, em The Golden Bough (1.ª edição, 1890), já descrevia a magia como uma tentativa de controlar as forças do mundo, e a religião como uma tentativa de agradar a poderes superiores. A distinção é discutida hoje pelos antropólogos, mas continua a ajudar a perceber a posição das igrejas.
O que diz a Igreja Católica
O Catecismo pede ao cristão que confie na Providência quanto ao futuro (§2115). Rejeita todas as formas de adivinhação: horóscopos, astrologia, quiromancia, vidência, médiuns (§2116). E considera a magia e a feitiçaria «gravemente contrárias à virtude de religião», incluindo o uso de amuletos (§2117).
O Catecismo resume: a superstição manifesta-se «nas diferentes formas de adivinhação e magia» (§2138).
A religiosidade popular portuguesa
Na prática, durante séculos, muitos portugueses viveram as duas coisas juntas:
- as benzedeiras eram quase sempre católicas devotas e rezavam o Pai-Nosso e a Ave-Maria enquanto «tiravam» o mau-olhado;
- o Livro de São Cipriano mistura receitas mágicas com orações de forma católica;
- as simpatias dos santos populares (Santo António, São João) juntam devoção e adivinhação amorosa.
Os historiadores chamam a isto religiosidade popular. A Igreja tolerou algumas destas práticas e perseguiu outras, através da Inquisição.
Religiões em que a magia faz parte
- Wicca e neopaganismo: o ritual e a magia são práticas religiosas, com uma ética própria (o Wiccan Rede).
- Religiões afro-brasileiras: oferendas e «trabalhos» fazem parte de algumas casas, com regras diferentes de umas para outras.
- Esoterismo ocidental (hermetismo, magia cerimonial): muitos autores viam a magia como um caminho espiritual, não como oposto à fé.
➜ Wicca
E se eu tiver fé e dúvidas?
Se é católico e tem dúvidas sobre uma prática concreta, a resposta mais segura é falar com um sacerdote. Se segue outra tradição, procure os seus textos e responsáveis.
A fé também tem efeitos psicológicos conhecidos: rezar ou fazer um ritual pode acalmar e dar sensação de controlo. Isso não prova efeitos sobrenaturais, mas explica porque as pessoas se sentem melhor.
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➜ São Cipriano e a magia portuguesa
Fontes
- Catecismo da Igreja Católica, §2115–2117 e §2138 — vatican.va
- James George Frazer, The Golden Bough, edição abreviada de 1922, cap. IV, «Magic and Religion» — sacred-texts.com
- Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: Feiticeiras, Adivinhos e Curandeiros em Portugal no Século XVI, Companhia das Letras, 2004.
- Wikipedia, «Wiccan Rede» — en.wikipedia.org