Resposta curta: no português do dia a dia, «feitiçaria» e «bruxaria» usam-se quase como sinónimos. Mas, na tradição popular portuguesa e nos estudos, há uma diferença clara: a feiticeira faz-se, a bruxa nasce.
A feiticeira é quem pratica feitiços: rezas, receitas, objetos. A bruxa, na crença antiga, é um ser com poder próprio: voa, muda de forma, entra pelas frestas e faz mal só por ser o que é.
Abaixo explicamos de onde vem esta distinção, como a viam o povo, a Inquisição e os antropólogos, e como se usam as palavras hoje.
Resumo
| Feitiçaria | Bruxaria |
|---|---|
| Palavra: do latim facticius, «feito, artificial» | Palavra: origem incerta |
| Na crença popular: arte que se aprende | Na crença popular: poder com que se nasce |
| Meios: rezas, ervas, objetos, «feitiços» | Meios: o próprio poder; metamorfose, voo |
| Imagem tradicional: adivinha, cura, faz «trabalhos» de amor | Imagem tradicional: chupa crianças, junta-se de noite |
De onde vêm as palavras
Feitiço
Segundo o Dicionário Priberam, feitiço vem do latim facticius, «artificial, imitativo». Um feitiço é, à letra, uma coisa feita. O dicionário define-o como «droga ou filtro de feiticeiros», «reza de feiticeiros» ou um objeto a que se atribuem poderes sobrenaturais.
A palavra portuguesa viajou. Os comerciantes e navegadores portugueses chamaram «feitiços» aos objetos sagrados que encontraram na costa de África Ocidental, nos séculos XVI e XVII. Daí nasceu o francês fétiche e o português fetiche, popularizado em 1757 pelo francês Charles de Brosses.
Bruxa
A origem de bruxa é incerta: o Priberam chama-lhe «duvidosa», e o dicionário da Real Academia Espanhola diz, para o castelhano bruja, «talvez de origem pré-romana». Não há consenso, e é melhor não acreditar em quem garante uma origem certa.
O Priberam define bruxa como «mulher que se crê ser capaz de fazer bruxarias, feitiços ou profecias», e regista os sentidos pejorativos («mulher velha e feia», «malvada»).
O que dizia o povo português
O etnógrafo José Leite de Vasconcelos notou, já em 1882, que o povo e os próprios autores confundiam a cada passo as duas palavras. Mas, a partir do que recolheu, distinguiu-as assim:
- as feiticeiras «não passam de simples adivinhadeiras com o poder de fazer feitiços (em questões de amor, etc.)»;
- as bruxas «são mais alguma cousa do que isso»: podem transformar-se, tornar-se invisíveis, chupar crianças.
Uma mulher do povo explicou-lhe a diferença numa frase: as feiticeiras operam «por arte do Demonio», enquanto as bruxas operam «por fado que Deus lhe deu».
Mais tarde, na Etnografia Portuguesa, a ideia aparece resumida numa fórmula que o historiador Francisco Bethencourt retomou: «a bruxa nasce, a feiticeira faz-se».
➜ Feitiçaria portuguesa: práticas e especialistas
E a Inquisição?
Nos processos da Inquisição portuguesa (1536–1821), o crime que aparece é sobretudo a feitiçaria: curas com rezas, adivinhação, magia amorosa, malefícios. O que preocupava os inquisidores era a suspeita de pacto com o Demónio e o uso de objetos sagrados.
A bruxa «clássica» das grandes caças europeias — que voa para o sabat, adora o Diabo e mata crianças — quase não aparece em Portugal. Os historiadores Francisco Bethencourt e José Pedro Paiva mostraram que os juízes portugueses eram, em geral, céticos quanto a voos e reuniões noturnas. Paiva chamou ao seu estudo Bruxaria e superstição num país sem «caça às bruxas».
Para Paiva, a bruxaria remete para o quadro mítico das ligações ao Diabo; a feitiçaria abrange as práticas mágicas concretas. Bethencourt sublinha que, na documentação, as duas palavras se usam lado a lado.
➜ Processos de feitiçaria na Inquisição portuguesa
O que diz a antropologia
Em 1937, o antropólogo britânico E. E. Evans-Pritchard publicou um estudo clássico sobre os Azande, na África Central. Separou duas ideias:
- witchcraft (bruxaria): fazer mal por um poder inato, às vezes sem querer;
- sorcery (feitiçaria): fazer mal com técnicas: ritos, fórmulas, substâncias.
A coincidência com o que o povo português dizia a Leite de Vasconcelos é notável. Mas atenção: os historiadores acharam esta distinção difícil de aplicar à Europa, onde se acreditava que as bruxas usavam técnicas e poder inato ao mesmo tempo. Hoje é usada com cuidado, sobretudo para as sociedades onde nasceu.
E hoje?
No uso corrente, as palavras voltaram a misturar-se:
- «bruxo» ou «bruxa» designa muitas vezes quem se consulta para adivinhar ou «tirar» males;
- «feitiço» é o «trabalho» feito com um fim, e diz-se «voltar-se o feitiço contra o feiticeiro»;
- os movimentos neopagãos, como a Wicca, adotaram «bruxa» como nome de identidade religiosa, sem o sentido maléfico antigo.
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Fontes
- José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882 (nota ao capítulo sobre bruxas e feiticeiras) — archive.org
- Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: feiticeiras, saludadores e nigromantes no século XVI, Lisboa, Universidade Aberta, 1987; José Pedro Paiva, Práticas e Crenças Mágicas, Coimbra, Minerva, 1992, e Bruxaria e superstição num país sem «caça às bruxas» (1600–1774), Lisboa, Notícias, 1997.
- Vânia Moreira, Bruxaria e a «caça às bruxas»: abordagens sobre a sua trajetória ao longo da Idade Moderna, dissertação de mestrado, Universidade do Minho, 2021 — repositorium.uminho.pt
- Dicionário Priberam, «feitiço» e «bruxa» — dicionario.priberam.org; Real Academia Española, «brujo» — dle.rae.es
- «Witchcraft» e «Fetishism», Wikipedia — en.wikipedia.org