A magia cerimonial, também chamada alta magia, é a tradição de magia erudita da Europa. Baseia-se em livros, rituais longos, instrumentos consagrados, nomes divinos e correspondências entre planetas, anjos, cores e metais.
Opõe-se, na forma, à magia popular: a da benzedeira que reza de memória uma oração aprendida com a avó. A magia cerimonial exige saber ler, estudar e seguir instruções complexas.
Esta página conta a sua história, dos grimórios medievais às ordens ocultistas do século XX. Não ensina rituais. Nenhum ritual garante resultados.
As raízes antigas e árabes
A magia cerimonial europeia bebe de várias fontes: os papiros mágicos gregos do Egito romano, a astrologia, o neoplatonismo e a magia astral árabe.
Uma obra decisiva foi o Picatrix, tratado árabe de magia astral (em árabe Ghāyat al-Ḥakīm). Foi traduzido para castelhano em 1256, na corte de Afonso X de Castela, e depois para latim.
Os grimórios medievais
Entre os séculos XIII e XVI circularam manuscritos de magia ritual, muitas vezes atribuídos a figuras lendárias:
| Obra | O que é |
|---|---|
| Ars Notoria | Orações e figuras para obter conhecimento |
| Liber Iuratus Honorii | «Livro Jurado de Honório», século XIII |
| Clavicula Salomonis | A Chave de Salomão, atribuída ao rei Salomão |
| Lemegeton | A Chave Menor de Salomão, do século XVII |
A atribuição a Salomão é lendária. Estes textos foram escritos por autores cristãos europeus, muitas vezes clérigos, e misturam orações católicas com invocações.
O Renascimento
No Renascimento, a magia tornou-se tema de filósofos:
- Marsílio Ficino traduziu o Corpus Hermeticum (1471) e escreveu sobre a magia natural.
- Cornélio Agrippa publicou De occulta philosophia (versão completa em 1533), a grande síntese da magia natural, celeste e cerimonial.
- John Dee, matemático e conselheiro da rainha Isabel I de Inglaterra, registou na década de 1580 sessões com o médium Edward Kelley, em que diziam comunicar com anjos.
Os elementos de um ritual cerimonial
Os grimórios descrevem, com variações, os mesmos elementos:
- O círculo mágico, traçado no chão, como espaço de proteção.
- Os pentáculos e selos, desenhos com nomes e símbolos.
- Os instrumentos: varinha, espada, cálice, incenso, vestes.
- Os nomes divinos, muitas vezes em hebraico.
- O tempo certo: dias, horas planetárias e fases da Lua.
- A purificação do praticante: jejum, orações, banhos.
Estes elementos pertencem à tradição esotérica. Não há prova de que produzam efeitos para além dos psicológicos.
O renascimento oculto do século XIX
Em França, Éliphas Lévi (Alphonse-Louis Constant) publicou Dogme et Rituel de la Haute Magie (1854–1856). Foi ele quem popularizou a expressão «alta magia» e ligou a magia à Cabala e ao tarot.
Em 1888, em Londres, foi fundada a Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn). Organizou a magia cerimonial num sistema de graus, inspirado na maçonaria, e influenciou quase todo o ocultismo do século XX.
➜ Cabala
Aleister Crowley e Portugal
O inglês Aleister Crowley (1875–1947), antigo membro da Aurora Dourada, fundou a sua própria religião, a Thelema, e tornou-se o ocultista mais famoso do século XX.
Tem uma ligação curiosa a Portugal. Em 1930 veio a Lisboa para conhecer Fernando Pessoa, com quem se correspondia por causa de astrologia. Durante a visita, com a ajuda de Pessoa, encenou o próprio desaparecimento na Boca do Inferno, em Cascais, deixando uma carta de despedida. Pouco depois, reapareceu vivo em Berlim.
Magia cerimonial e magia popular
As duas tradições cruzaram-se muitas vezes. O Livro de São Cipriano português, por exemplo, mistura receitas populares com elementos dos grimórios eruditos, como círculos e esconjuros.
Uma nota de prudência
Rituais longos, jejuns e isolamento podem afetar a saúde física e mental. Se sentir ansiedade, medo intenso ou perturbações do sono ligadas a estas práticas, pare e procure ajuda de um médico ou psicólogo.
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➜ Livros de magia recomendados
Fontes
- Owen Davies, Grimoires: A History of Magic Books, Oxford University Press, 2009.
- Richard Kieckhefer, Magic in the Middle Ages, Cambridge University Press, 1989.
- Ronald Hutton, The Triumph of the Moon, Oxford University Press, 1999 (sobre a Aurora Dourada e o ocultismo moderno).
- «O Mistério da Boca do Inferno: quando Fernando Pessoa ajudou Aleister Crowley a forjar o seu próprio suicídio», Observador — observador.pt