Muitas pessoas perguntam como rezar «com eficácia». Quase sempre, a pergunta esconde outra: porque é que sinto que as minhas orações não chegam a lado nenhum?
Este artigo reúne o que a tradição cristã, e em especial a católica, ensina sobre rezar bem. E diz também, com franqueza, o que a oração não é: uma técnica para obter resultados garantidos.
Primeiro: o que é rezar
O Catecismo da Igreja Católica recolhe uma definição antiga, de São João Damasceno: a oração é «a elevação da alma para Deus», ou o pedido a Deus de bens convenientes.
Repare na ordem. Pedir faz parte da oração, mas não é o todo. A tradição fala também de louvar, agradecer, pedir perdão e interceder pelos outros.
Por isso, na tradição, a «eficácia» de uma oração não se mede só por receber o que se pediu. Mede-se também pela paz, pela confiança e pela mudança em quem reza.
As três formas de rezar
O Catecismo distingue três expressões da oração. Todas são válidas.
Oração vocal
Rezar com palavras: o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o terço, as orações aprendidas em criança. Não é uma oração «menor». A repetição ajuda a acalmar e a concentrar.
Meditação
Ler devagar um texto (um salmo, um trecho do Evangelho) e pensar nele: o que me diz hoje? É uma prática antiga, conhecida como leitura orante.
Contemplação
Estar em silêncio diante de Deus. Santa Teresa de Ávila descreveu a oração mental como «tratar de amizade» com Quem sabemos que nos ama.
Conselhos práticos da tradição
- Escolha um momento fixo. Ao acordar, ao deitar, antes das refeições. O hábito vale mais do que a intensidade de um dia.
- Escolha um lugar calmo. Um canto da casa, uma igreja, um passeio.
- Comece por se acalmar. Respire devagar, sente-se direito, faça o sinal da cruz.
- Seja sincero. Não precisa de palavras bonitas. Diga o que sente.
- Agradeça antes de pedir. Muitos mestres espirituais recomendam começar pelo que já recebeu.
- Reze pelos outros. A intercessão por quem sofre é uma das formas mais antigas de oração.
- Termine em silêncio, um minuto que seja.
E as distrações?
O Catecismo reconhece-o sem rodeios: a dificuldade habitual da oração é a distração. Acontece a toda a gente, incluindo aos santos.
A tradição não manda lutar contra cada pensamento. Aconselha a reparar na distração e voltar, com calma, ao que se estava a rezar. Às vezes, a própria distração mostra o que nos preocupa e pode tornar-se matéria de oração.
Rezar com velas, horas e números
A tradição popular portuguesa juntou à oração muitos costumes: acender uma vela, rezar às três da tarde, fazer novenas de nove dias, rezar «sete vezes».
São costumes de devoção, não condições para que a oração seja ouvida. Se acender uma vela, faça-o com segurança: castiçal estável, longe de cortinas, e nunca a deixe acesa sem vigilância.
➜ Como usar velas com segurança
O que a oração não promete
Muitas páginas vendem «orações infalíveis» ou «orações que funcionam em 24 horas». Nenhuma tradição cristã séria faz essa promessa. O próprio Pai-Nosso diz «seja feita a vossa vontade».
A ciência também tentou medir o efeito da oração. O maior estudo, o STEP (2006), acompanhou cerca de 1800 doentes de cirurgia cardíaca e não encontrou diferença nos que receberam orações de intercessão. Para quem crê, isto não anula o valor da oração; mostra apenas que ela não é um medicamento.
A oração acompanha o tratamento médico, nunca o substitui.
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➜ Magia e fé: qual a diferença?
Fontes
- Catecismo da Igreja Católica, §2559 — vatican.va
- Catecismo da Igreja Católica, §2697–2758 (expressões da oração, distrações) — vatican.va
- H. Benson et al., «Study of the Therapeutic Effects of Intercessory Prayer (STEP)», American Heart Journal, 2006 — PubMed
- Harvard Gazette, «Prayers don't help heart surgery patients», 2006 — news.harvard.edu