O Louco é a única carta do tarot que, durante séculos, não teve número. No baralho de 1909 é um jovem bem vestido que caminha, de olhos no céu, até à beira de um precipício, com um cão aos saltos junto aos pés.
Na tradição de leitura moderna, representa o início de um caminho, a espontaneidade e o salto no desconhecido. Mas nem sempre foi assim: nas cartas antigas era um mendigo ou um tolo, e o próprio Waite ainda lia nele a «loucura».

Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Arcano | Maior |
| Número | 0 (no Rider-Waite); sem número em Marselha |
| Nome em Marselha / em inglês | Le Mat (também Le Fol) / The Fool |
| Golden Dawn | Letra hebraica Aleph; elemento Ar |
| Palavras-chave (direita) | começo, espontaneidade, liberdade, confiança, risco |
| Palavras-chave (invertida) | imprudência, descuido, apatia, dispersão |
O desenho
Waite descreve a cena assim: «um jovem em vestes vistosas para à beira de um precipício». Os elementos principais são:
- O precipício: o perigo que o jovem parece não ver. Na leitura moderna, é o risco que se aceita ao começar algo novo.
- O cão: nas cartas antigas, o cão perseguia o louco e rasgava-lhe as calças. Aqui acompanha-o aos saltos. Pode ser lido como aviso ou como instinto fiel.
- A rosa branca na mão esquerda: pureza, inocência.
- A trouxa ao ombro, que Waite chama «uma bolsa curiosamente bordada»: o pouco que leva consigo.
- O sol no alto e as montanhas ao fundo: a altura de onde parte e o caminho que ainda tem pela frente.
No Tarot de Marselha a imagem é bem diferente. Le Mat é um homem barbudo, com chapéu de bobo e guizos, que leva uma trouxa num pau. Um animal agarra-lhe a perna. Não há precipício: é um vagabundo na estrada, não um jovem idealista.
Na história
O Louco aparece já nas cartas italianas do séc. XV, com os nomes Il Matto ou Il Pazzo («o doido»). No baralho Visconti-Sforza (Milão, c. 1450) é um pobre andrajoso, descalço, de pau na mão e penas no cabelo. Lembra as imagens medievais da Loucura (Stultitia), como a que Giotto pintou em Pádua.
Nos jogos de cartas, o Louco não era um trunfo comum. Funcionava como «desculpa» (l'Excuse em francês): o jogador podia usá-lo para não seguir o naipe. É por isso que, nos baralhos antigos, quase nunca tinha número.
Houve exceções. O Tarot Sola-Busca (fim do séc. XV) já lhe dava o 0, e alguns baralhos belgas do séc. XVIII numeravam-no XXII.
Foi A. E. Waite, em 1909–1910, quem fixou o 0 para o público de língua inglesa, e com algarismo árabe, ao contrário dos numerais romanos das outras cartas. Na Golden Dawn, o Louco já abria a série das 22 letras hebraicas, com o Aleph.
Há quem veja no Louco o antepassado do Joker. A hipótese é antiga, mas as investigações apontam para uma origem independente do Joker, no jogo americano do euchre, por volta de 1850.
O significado na tradição
Direita
A leitura de Waite é surpreendente para quem conhece o tarot moderno:
«Loucura, mania, extravagância, embriaguez, delírio, frenesi.» — A. E. Waite, 1910
Ou seja, em 1910 o Louco ainda guardava o sentido da carta antiga: falta de juízo. No entanto, na parte simbólica do mesmo livro, Waite dá-lhe um sentido mais alto: «É o espírito em busca de experiência.»
A leitura moderna mais comum ficou com esta segunda ideia. O Louco é lido como começo, abertura ao novo, confiança, liberdade de quem ainda não tem medo. Muitos autores modernos falam da «viagem do Louco», que atravessa os outros 21 arcanos como etapas de uma vida. É uma ideia do séc. XX, não das cartas antigas.
Invertida
«Negligência, ausência, distribuição, descuido, apatia, nulidade, vaidade.» — A. E. Waite, 1910
Na leitura moderna, invertido costuma indicar imprudência: um salto dado sem olhar, decisões impulsivas, ou, pelo contrário, medo de arriscar e paralisia.
Na leitura: amor, trabalho e conselho
Amor. Na leitura tradicional moderna, o Louco costuma indicar leveza, uma relação que começa sem planos, ou vontade de liberdade. Invertido, é muitas vezes lido como pouca seriedade ou compromisso adiado.
Trabalho. Costuma ser associado a começos: um projeto novo, uma mudança de rumo, uma ideia ainda crua. Os leitores lembram quase sempre o precipício: entusiasmo sem preparação é um risco.
Conselho. Como conselho, a carta é lida como um convite a confiar e a experimentar, sem esquecer onde se põe o pé. Nenhuma carta decide por quem pergunta; decisões com peso real merecem informação e ponderação.
O que se diz e o que se sabe
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «O Louco sempre foi a carta 0» | Nas cartas antigas quase nunca tinha número; o 0 fixou-se com a Golden Dawn e Waite |
| «É uma carta de novos começos felizes» | É a leitura moderna; Waite (1910) dava-lhe «loucura, mania, delírio» |
| «O Joker nasceu do Louco» | Hipótese popular; a origem mais provável do Joker é o euchre americano (c. 1850) |
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➜ Índice: as 78 cartas do tarot
➜ A. E. Waite e Pamela Colman Smith
Fontes
- A. E. Waite, The Pictorial Key to the Tarot (1910), «The Fool» — sacred-texts.com; significados divinatórios — sacred-texts.com
- Wikipedia, «The Fool (tarot card)» — en.wikipedia.org
- Sherryl E. Smith, «From Il Matto to the Fool», Tarot Heritage — tarot-heritage.com
- Wikipedia, «Tarot of Marseilles» — en.wikipedia.org
- «Qlickable Qabalah» (atribuições hebraicas da Golden Dawn) — nofaithinthehumanrace.com