O Mago é a carta I do tarot. No desenho de 1909, um jovem de túnica branca e manto vermelho ergue uma varinha para o céu e aponta a outra mão para a terra. À sua frente, numa mesa, estão os quatro símbolos dos naipes.
Na tradição de leitura, é a carta da vontade e da capacidade: ter os meios à mão e saber usá-los. Curiosamente, a figura original não era um mago, mas um artista de feira que fazia truques com copos e bolas.

Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Arcano | Maior |
| Número | I |
| Nome em Marselha / em inglês | Le Bateleur / The Magician |
| Nome italiano antigo | Il Bagatto (ou Bagatello) |
| Golden Dawn | Letra hebraica Beth; planeta Mercúrio |
| Palavras-chave (direita) | vontade, habilidade, iniciativa, concentração, recursos |
| Palavras-chave (invertida) | manipulação, engano, talento desperdiçado, insegurança |
O desenho
Quase todos os pormenores do Mago de Pamela Colman Smith têm uma explicação no texto de Waite:
- O sinal do infinito (lemniscata) sobre a cabeça. Waite chama-lhe «o sinal da vida, como um cordão sem fim, formando o número 8 deitado».
- O cinto em forma de serpente que morde a própria cauda: o ouroboros, símbolo da eternidade.
- Uma mão para cima, outra para baixo: a ideia de trazer para a terra o que vem do alto. Na tradição esotérica, lembra a máxima hermética «o que está em cima é como o que está em baixo».
- A mesa com os quatro naipes (taça, espada, moeda e bastão). Para Waite, são «os elementos da vida natural»: água, ar, terra e fogo.
- Rosas e lírios em baixo e em cima: segundo Waite, flores do campo «transformadas em flores de jardim, para mostrar a cultura da aspiração».
No Tarot de Marselha, Le Bateleur é um saltimbanco de chapéu largo diante de uma mesa com copos, dados e facas. É uma cena de feira, não de templo.
Na história
O nome italiano Il Bagatto vem de bagattella, «ninharia». Era o trunfo mais baixo do jogo, e o nome acabou por evocar os truques de mão.
O exemplar mais antigo conhecido está no baralho Visconti-Sforza (Milão, meados do séc. XV), pintado à mão e com fundo dourado. A figura tem uma vara e uma mesa com objetos difíceis de identificar.
Durante séculos, os ilusionistas de feira faziam nas praças o jogo dos copos e das bolas, um dos truques de ilusionismo mais antigos. Muitas vezes era também jogo de apostas. É este personagem que o Bateleur francês retrata: a palavra significa saltimbanco ou prestidigitador.
A transformação em «mago» é obra dos ocultistas:
- Éliphas Lévi, em Dogma e Ritual da Alta Magia (1854–1856), ligou a carta a uma letra hebraica e leu-a como o iniciado que domina os elementos.
- A Golden Dawn (Londres, 1888) associou-a à letra Beth e ao planeta Mercúrio.
- Waite e Pamela Colman Smith (1909) desenharam-na já como mago cerimonial, com a mesa transformada em altar.
O significado na tradição
Direita
A lista de Waite mistura sentidos bons e maus, como era comum nos significados herdados da cartomancia francesa:
«Habilidade, diplomacia, desembaraço, subtileza; doença, dor, perda, desastre, ciladas de inimigos; autoconfiança, vontade.» — A. E. Waite, 1910
Na parte simbólica, Waite é mais elevado: a carta significa «o motivo divino no homem», a vontade unida ao que está acima.
A leitura moderna mais comum ficou apenas com a parte positiva: o Mago é iniciativa, talento, capacidade de concretizar. É a carta de quem tem os instrumentos e decide usá-los.
Invertida
«Médico, mago, doença mental, desgraça, inquietação.» — A. E. Waite, 1910
Na leitura moderna, invertido costuma indicar o lado sombrio do saltimbanco: manipulação, promessas vazias, truques. Também pode ser lido como talento que não se usa, por insegurança ou dispersão.
Na leitura: amor, trabalho e conselho
Amor. Na leitura tradicional, o Mago costuma indicar iniciativa: alguém que dá o primeiro passo, ou charme e boa comunicação. Invertido, é lido como aviso contra palavras bonitas sem substância.
Trabalho. É associado a começar projetos com os meios certos, a competências que se podem pôr em prática e a apresentações ou negociações. Invertido, sugere planos mal preparados ou alguém que promete mais do que faz.
Conselho. Como conselho, a carta é lida como um lembrete de que muitos recursos já estão em cima da mesa. Cabe a quem pergunta decidir como os usar; o tarot não substitui um parecer profissional em assuntos de saúde, dinheiro ou lei.
O que se diz e o que se sabe
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «O Mago sempre foi um mago» | Nas cartas antigas era um saltimbanco de feira; o mago é invenção dos ocultistas do séc. XIX |
| «O Mago tem poderes mágicos reais» | É uma alegoria; na leitura, fala de vontade e de habilidade humanas |
| «É sempre uma carta positiva» | Waite incluía «doença, perda, ciladas de inimigos» na leitura direita |
Continue a ler
➜ Carta seguinte: A Sacerdotisa
➜ Dogma e Ritual da Alta Magia
Fontes
- A. E. Waite, The Pictorial Key to the Tarot (1910), «I. The Magician» — sacred-texts.com; significados divinatórios — rider-waite.com
- Wikipedia, «The Magician (tarot card)» — en.wikipedia.org
- Sherryl E. Smith, «From Il Bagatto to the Magician», Tarot Heritage — tarot-heritage.com
- Wikipedia, «Visconti-Sforza tarot deck» — en.wikipedia.org
- «Qlickable Qabalah» (atribuições da Golden Dawn) — nofaithinthehumanrace.com