Diz-se muitas vezes que o tarot vem do Antigo Egito, dos ciganos ou dos templos secretos da Atlântida. Nenhuma destas ideias tem fundamento histórico.
A história documentada é outra, e não menos interessante: o tarot nasceu como jogo de cartas nas cortes do norte de Itália, no século XV. Só mais de três séculos depois, em França, passou a ser lido como livro de sabedoria oculta e instrumento de adivinhação.
As cartas chegam à Europa
As cartas de jogar chegaram à Europa no fim do século XIV, vindas do mundo islâmico (o sultanato mameluco). Tinham quatro naipes, semelhantes aos das cartas tradicionais portuguesas e espanholas: copas, ouros, espadas e paus.
O nascimento do tarot em Itália
Por volta de 1440, nas cortes de Milão e Ferrara, alguém teve a ideia de juntar aos quatro naipes um conjunto extra de cartas ilustradas: os trunfos. O jogo chamava-se então trionfi («triunfos»). Uma das referências mais antigas é um registo de despesas da corte de Ferrara, de 1442.
O nome tarocchi só aparece no início do século XVI. Dele vêm «tarot», em francês, e «tarô», em português do Brasil.
Os baralhos Visconti-Sforza
Os tarots mais antigos que chegaram até nós são os luxuosos baralhos pintados à mão para as famílias Visconti e Sforza, duques de Milão, em meados do século XV. Muitos são atribuídos ao pintor Bonifacio Bembo.
As cartas destes baralhos estão hoje dispersas por várias coleções, como a Morgan Library, em Nova Iorque, e a Accademia Carrara, em Bérgamo.
As imagens — o Imperador, o Papa, a Morte, a Roda da Fortuna — eram temas comuns da arte e da moral cristã da época, não símbolos de uma doutrina secreta.
Um jogo, não um oráculo
Durante mais de trezentos anos, o tarot foi sobretudo um jogo de vazas, parecido com a sueca. Ainda hoje se joga, em França, Itália, Áustria e outros países.
O Tarot de Marselha
Nos séculos XVII e XVIII, fabricantes franceses — sobretudo em Marselha e noutras cidades — produziram um modelo de baralho com 78 cartas (22 trunfos e 56 cartas de naipe) que se tornou padrão. É o chamado Tarot de Marselha, ainda muito usado.
A viragem ocultista (1781)
Em 1781, o pastor protestante Antoine Court de Gébelin publicou no 8.º volume da sua obra Le Monde primitif a tese de que o tarot era o «Livro de Thot», um resumo da sabedoria dos sacerdotes egípcios.
Não apresentou qualquer prova. E nessa altura ninguém sabia ler hieróglifos: só em 1822 Champollion os decifrou — e nada confirmou esta ideia.
Logo a seguir, Etteilla (Jean-Baptiste Alliette, 1738–1791) publicou entre 1783 e 1785 um tratado sobre como ler o tarot e, em 1789, lançou o primeiro baralho de tarot desenhado de propósito para adivinhação. Foi, provavelmente, o primeiro profissional conhecido a viver da leitura do tarot.
Cabala, Golden Dawn e o século XX
- Éliphas Lévi, em meados do século XIX, ligou os 22 trunfos às 22 letras do alfabeto hebraico e à Cabala.
- A Golden Dawn (1888) integrou o tarot no seu sistema mágico.
- Em 1909, Arthur Edward Waite e a artista Pamela Colman Smith publicaram o baralho hoje conhecido como Rider-Waite (ou Rider-Waite-Smith). Foi dos primeiros com todas as cartas ilustradas com cenas, o que facilitou a leitura intuitiva.
- Aleister Crowley e a pintora Frieda Harris criaram o Tarot de Thoth entre 1938 e 1943; só foi publicado em 1969.
A maioria dos baralhos modernos segue o modelo Rider-Waite-Smith.
Mitos e factos
| Afirmação | O que diz a história |
|---|---|
| Veio do Egito antigo | Sem qualquer prova; ideia de 1781 |
| Foi trazido pelos ciganos | Associação do século XIX, sem base |
| É um livro secreto da Cabala | Interpretação de Lévi, séc. XIX |
| Nasceu como jogo em Itália | Documentado, séc. XV |
Estas interpretações esotéricas fazem hoje parte da tradição do tarot moderno e têm valor dentro dela. Mas são interpretações posteriores, não a origem histórica.
O tarot e a adivinhação hoje
Muitas pessoas usam o tarot como ferramenta de reflexão: as imagens ajudam a pensar numa situação sob outro ângulo. Não há prova científica de que preveja o futuro.
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➜ Cabala
Fontes
- Dummett, Michael, The Game of Tarot, Duckworth, 1980
- Decker, Ronald; Depaulis, Thierry; Dummett, Michael, A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot, St. Martin's Press, 1996
- The World of Playing Cards, «History of Tarot and Playing Cards: Timeline» — wopc.co.uk
- Wikipedia, «Etteilla» — en.wikipedia.org
- Wikipedia, «Antoine Court de Gébelin» — en.wikipedia.org