A Sacerdotisa é a carta II. Uma mulher de azul está sentada entre duas colunas, uma negra e uma branca, com um rolo parcialmente escondido no colo e uma lua crescente aos pés. Atrás dela, um véu esconde o que está do outro lado.
Na tradição de leitura, é a carta do segredo, da intuição e do saber que não se mostra. Em Portugal muitos ainda lhe chamam a Papisa, o nome que tinha no Tarot de Marselha.

Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Arcano | Maior |
| Número | II |
| Nome em Marselha / em inglês | La Papesse / The High Priestess |
| Outros nomes | Papisa, Grande Sacerdotisa |
| Golden Dawn | Letra hebraica Gimel; a Lua |
| Palavras-chave (direita) | segredo, intuição, silêncio, estudo, mistério |
| Palavras-chave (invertida) | superficialidade, segredos revelados, desligamento da intuição |
O desenho
Waite descreveu a carta com cuidado. Estes são os símbolos principais:
- Os dois pilares, «o branco e o negro — J. e B. — do Templo místico». As letras remetem para Jaquim e Boaz, as colunas do Templo de Salomão (1 Reis 7,21), um símbolo muito usado na maçonaria.
- O rolo onde se lê «Tora», que Waite interpreta como «a Lei Maior». Está meio tapado pelo manto: o conhecimento não se entrega todo.
- O véu do Templo, «bordado com palmas e romãs», que esconde o que está para lá das colunas.
- A lua crescente aos pés e o diadema com cornos: imagens lunares. Waite chama-lhe «a Rainha da luz emprestada», porque a Lua brilha com a luz do Sol.
- A cruz de braços iguais no peito.
No Tarot de Marselha, La Papesse é uma mulher com a tiara papal de três coroas, sentada, de livro aberto no colo, com uma cortina atrás. Não há pilares, nem lua, nem letras hebraicas.
Na história
Uma «papisa» numa carta de jogar do séc. XV parece estranho, e por isso a carta deu origem a várias teorias.
A teoria de Maifreda. A investigadora Gertrude Moakley, seguida por Michael Dummett, propôs que a Papisa do baralho Visconti-Sforza representasse Maifreda da Pirovano, freira e parente dos Visconti. A seita dos guglielmitas, em Milão, tê-la-ia escolhido como «papisa». Maifreda foi queimada pela Inquisição em 1300. A teoria é engenhosa, mas é discutida: há quem note que a figura veste um hábito franciscano, não o da ordem de Maifreda.
A lenda da Papisa Joana. Outros ligaram a carta à lenda medieval de uma mulher que teria sido papa disfarçada de homem. É uma lenda, sem base histórica, e a ligação à carta também não está provada.
Uma alegoria da Igreja. A leitura mais simples é que a figura represente a Igreja ou a Fé, como outras cartas representam virtudes. Figuras femininas com tiara e chaves aparecem noutras obras de arte religiosa.
Nos países protestantes, a carta incomodava. Nos baralhos de Besançon foi substituída por Juno, e noutros lugares por figuras sem ligação à Igreja.
Em 1781, Antoine Court de Gébelin chamou-lhe Grande Prêtresse (Grande Sacerdotisa) e ligou-a ao Egito e a Ísis. A ideia não tinha base, mas pegou. A Golden Dawn manteve o nome e Waite (1909) deu-lhe a forma que hoje se conhece.
O significado na tradição
Direita
«Segredos, mistério, o futuro ainda não revelado; […] silêncio, tenacidade; mistério, sabedoria, ciência.» — A. E. Waite, 1910
A lista de Waite inclui ainda «a mulher que interessa ao consulente», se este for homem, ou a própria consulente, se for mulher. É um resto da cartomancia do séc. XIX, em que certas cartas representavam pessoas.
A leitura moderna acentua a intuição: a Sacerdotisa pede silêncio, estudo, paciência e atenção ao que não é dito. É a carta do saber interior, em contraste com o Mago, que age para fora.
Invertida
«Paixão, ardor moral ou físico, presunção, conhecimento superficial.» — A. E. Waite, 1910
Na leitura moderna, invertida costuma indicar segredos que vêm à luz, desconfiança da própria intuição ou conhecimento apenas de fachada.
Na leitura: amor, trabalho e conselho
Amor. Na leitura tradicional, costuma indicar algo que ainda não foi dito: sentimentos guardados, uma pessoa reservada, ou uma situação que precisa de tempo para se esclarecer. Invertida, é lida como segredos ou pouca clareza.
Trabalho. Costuma ser associada a estudo, investigação, discrição e informação que ainda não está completa. Na tradição, sugere esperar antes de decidir.
Conselho. Como conselho, a carta é lida como um convite a ouvir mais e falar menos, e a não forçar respostas que ainda não existem. A intuição é um ponto de partida para refletir, não uma prova.
O que se diz e o que se sabe
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «A carta representa a Papisa Joana» | Hipótese antiga; a Papisa Joana é lenda e a ligação à carta não está provada |
| «A Sacerdotisa vem do antigo Egito» | Ideia de Court de Gébelin (1781); o tarot nasceu no Norte de Itália no séc. XV |
| «B e J são letras mágicas secretas» | Remetem às colunas Boaz e Jaquim do Templo de Salomão, descritas na Bíblia |
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Fontes
- A. E. Waite, The Pictorial Key to the Tarot (1910), «II. The High Priestess» — sacred-texts.com; significados divinatórios — rider-waite.com
- Wikipedia, «The High Priestess» — en.wikipedia.org
- Sherryl E. Smith, «La Papessa, La Papesse, The Popess, The High Priestess», Tarot Heritage — tarot-heritage.com
- Wikipedia, «Tarot of Marseilles» — en.wikipedia.org
- «Qlickable Qabalah» (atribuições da Golden Dawn) — nofaithinthehumanrace.com