Cartomancia é o nome geral para a leitura das cartas. Inclui o tarot e o baralho cigano. Mas esta página trata da forma mais popular: ler a sina com o baralho de jogar comum, o das copas, ouros, paus e espadas.
Em Portugal, foi esta a cartomancia mais comum durante gerações. As edições populares do Livro de São Cipriano do século XIX já traziam capítulos para «deitar as cartas».
Aqui separamos o que é história documentada do que é tradição de leitura. As cartas contam uma história interessante, mas não há prova de que prevejam o futuro.
Ficha
| O que é | Leitura das cartas de jogar como forma de adivinhação |
| Cartas na Europa | Desde o século XIV (proibição em Florença, 1377) |
| Primeiro manual conhecido | Etteilla, Paris, 1770 |
| Baralhos usados | 32 cartas (França), 52 cartas, ou outros |
| Em Portugal | Livros de São Cipriano (séc. XIX), tradição oral |
| Base científica | Nenhuma prova de valor preditivo |
De onde vêm as cartas
As cartas de jogar chegaram à Europa no século XIV, muito provavelmente a partir dos baralhos dos mamelucos do Egito. Os naipes mamelucos — taças, moedas, espadas e tacos de polo — deram origem aos naipes latinos: copas, ouros, espadas e paus.
A primeira referência segura é uma proibição de jogos de cartas em Florença, em 1377. Mas na Catalunha a palavra naip já aparece num dicionário de rimas de 1371. É dessa família a nossa palavra «naipe».
O baralho português
Durante séculos, Portugal teve um baralho próprio, de naipes latinos. Tinha uma marca muito reconhecível: dragões desenhados nos ases e valetes femininos.
Em 1769 foi fundada em Lisboa a Real Fábrica de Cartas de Jogar. A partir de cerca de 1800, os portugueses foram trocando este baralho pelo de naipes franceses (corações, losangos, trevos e piques). A troca estava feita no fim do século XIX.
Curiosamente, em português os naipes franceses ficaram com os nomes antigos: o coração chama-se copas, o losango ouros, o trevo paus e o pique espadas.
As cartas portuguesas viajaram com os navegadores. No Japão, onde os mercadores portugueses as levaram no século XVI, deram origem às karuta — palavra que vem de «carta».
Quando as cartas passaram a servir para adivinhar
Formas de cartomancia surgiram pouco depois de as cartas chegarem à Europa. Mas o primeiro livro conhecido dedicado a isto é de Etteilla, pseudónimo do francês Jean-Baptiste Alliette (1738–1791).
Em 1770 publicou em Paris Etteilla, ou maniere de se récréer avec un jeu de cartes. Ensinava a ler um baralho de 32 cartas (o de piquet, do 7 ao Ás) mais uma carta própria, a «Etteilla».
Só mais tarde se virou para o tarot. Entre 1783 e 1785 publicou um tratado sobre o tarot e, por volta de 1789, lançou o primeiro baralho de tarot feito de propósito para adivinhação.
Depois dele, a cartomancia com o baralho comum espalhou-se por toda a Europa. No século XIX juntou-se-lhe o baralho de 36 cartas que hoje se chama Lenormand ou baralho cigano.
A cartomancia no Livro de São Cipriano
As edições portuguesas do Livro de São Cipriano mostram bem como a cartomancia entrou na cultura popular. O Grande Livro de S. Cypriano ou Thesouro do Feiticeiro, impresso em Lisboa no fim do século XIX, tem vários textos sobre cartas:
- o capítulo «Novo systema de deitar as cartas»;
- o «modo de deitar as cartas» e um «responso antes de deitar as cartas»;
- um «novo tratado de cartomancia»;
- e, na segunda parte, uma «cartomancia cruzada».
Aparecem ao lado da leitura das mãos, da interpretação dos sonhos e da adivinhação com peneira. Isto mostra que, para o leitor popular do século XIX, as cartas faziam parte do mesmo «pacote» de saberes de adivinhação.
➜ O Grande Livro de S. Cypriano: a Vida e o índice completo
➜ História do Livro de São Cipriano
Que baralho se usa
- 32 cartas: do 7 ao Ás de cada naipe. É o baralho clássico da cartomancia francesa.
- 52 cartas: o baralho inteiro, sem jokers. Comum na tradição inglesa e americana.
Cada família e cada região tem os seus costumes. Não há um sistema único, nem um livro «oficial».
O sentido tradicional dos naipes
Nos manuais de cartomancia mais divulgados, os naipes costumam ter estes temas:
| Naipe | Tema na tradição |
|---|---|
| Copas ♥ | Amor, família, emoções, alegrias |
| Ouros ♦ | Dinheiro, negócios, notícias |
| Paus ♣ | Trabalho, projetos, amizades |
| Espadas ♠ | Obstáculos, preocupações, conflitos |
As figuras (valete, dama, rei) costumam representar pessoas. Em muitos sistemas, o naipe indica a cor do cabelo ou o temperamento.
Os significados variam muito de autor para autor. O que está na tabela é uma tendência geral, não uma regra.
Uma tiragem simples de três cartas
- Baralhe as cartas enquanto pensa numa pergunta clara.
- Corte o baralho. Muitos cartomantes pedem que se corte com a mão esquerda — é um costume, não uma regra histórica.
- Tire três cartas e coloque-as da esquerda para a direita.
- Leia-as como passado — presente — tendência.
Leia as cartas em conjunto, como uma pequena história, e não cada uma isolada.
➜ Como fazer uma tiragem de tarot
Afirmações comuns
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «A cartomancia é tão antiga como as cartas» | Houve usos cedo, mas o primeiro manual conhecido é de 1770 |
| «O tarot nasceu para adivinhar» | Nasceu em Itália no séc. XV como jogo; a adivinhação veio no séc. XVIII |
| «O baralho cigano foi criado pelos ciganos» | Não há prova; o modelo é alemão, de c. 1799 |
| «O Livro de São Cipriano é antiquíssimo» | As edições portuguesas com cartomancia são do séc. XIX |
| «As cartas preveem o futuro» | Não há prova científica disso |
Uma nota importante
A cartomancia é uma tradição cultural e, para muitos, uma forma de reflexão. Não tome decisões de saúde, dinheiro ou justiça com base numa leitura: fale com um médico, um advogado ou um técnico de finanças.
Continue a ler
➜ Baralho cigano ou tarot: qual a diferença?
Fontes
- «Etteilla», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Playing card», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Portuguese-suited playing cards», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Tarot», Wikipedia — en.wikipedia.org
- O Grande Livro de S. Cypriano ou Thesouro do Feiticeiro, Lisboa, Livraria Económica, fim do séc. XIX (índice transcrito no Grimório.pt)