O jogo de búzios é uma prática de adivinhação das religiões de matriz africana, sobretudo do Candomblé brasileiro e da Santería cubana. Lançam-se pequenas conchas e lê-se a forma como caem.
Não é um «jogo» no sentido de passatempo, nem um oráculo que se aprende num livro, como o tarot. É uma prática religiosa, feita por pessoas iniciadas, dentro de uma casa com regras próprias.
Por isso, esta página explica o que é e de onde vem, sem ensinar a jogar.
Ficha
| Nome iorubá | Ẹẹ́rìndínlógún (merindilogun) — «dezasseis» |
| Origem | Povo iorubá (atual Nigéria e Benim) |
| Instrumento | 16 búzios (conchas de cauri) |
| Religiões | Religião iorubá, Candomblé, Santería/Lucumí |
| Quem joga | Pessoas iniciadas, segundo as regras de cada casa |
| Parente próximo | O oráculo de Ifá, dos babalaôs |
A origem: os iorubás
O jogo de búzios nasceu entre os iorubás, povo da atual Nigéria e do Benim. Chegou às Américas com os africanos escravizados, sobretudo ao Brasil e a Cuba. Aí manteve-se vivo dentro das religiões que se formaram nesses países.
O nome iorubá é Ẹẹ́rìndínlógún, que se costuma escrever merindilogun. Quer dizer «dezasseis» — literalmente, «quatro tirados de vinte». É o número de búzios do jogo.
Na tradição iorubá, o 16 tem um peso religioso: é o número atribuído às divindades originais que, segundo os mitos, vieram organizar a vida na Terra.
Os búzios: conchas que já foram dinheiro
Os búzios do jogo são conchas de cauri, sobretudo da espécie Monetaria moneta, a chamada «cauri-moeda».
Durante séculos, estas conchas foram dinheiro em várias partes de África e da Ásia. Eram difíceis de falsificar e vinham sobretudo das Ilhas Maldivas, no oceano Índico.
A partir do século XVI, os comerciantes europeus — portugueses incluídos — levaram enormes quantidades de cauris das Maldivas para a África Ocidental, sobretudo através do tráfico de escravos. É uma parte dura da história, que liga Portugal diretamente a este objeto.
Em partes da África Ocidental britânica, os cauris ainda eram aceites para pagar impostos no início do século XX. O nome da moeda do Gana, o cedi (1965), vem da palavra para estas conchas.
Como funciona, em traços gerais
Não ensinamos a jogar. Mas é possível descrever o princípio:
- Muitas vezes, a parte redonda da concha é cortada ou limada, para que cada búzio tenha dois lados claros.
- Cada búzio pode cair «aberto» (com a fenda para cima) ou «fechado» (com a fenda para baixo).
- O número de búzios abertos indica um odu: um signo com histórias, conselhos e orixás associados.
- Alguns sacerdotes lançam duas vezes e combinam os resultados. Assim chegam a 256 combinações possíveis.
O Museu Horniman, em Londres, guarda um conjunto de Candomblé com 16 búzios cortados, moedas, favas, cristais e colares de contas. Segundo a ficha do museu, 6 búzios abertos e 10 fechados formam o odu Obará, ligado à prosperidade.
O modo de ler varia de casa para casa. Cada terreiro segue a sua linhagem e os seus ensinamentos.
Búzios e Ifá: parentes, mas diferentes
O jogo de búzios é muitas vezes confundido com o oráculo de Ifá. São sistemas aparentados, mas diferentes.
| Aspeto | Ifá / Búzios |
|---|---|
| Ifá — quem consulta | O babalaô (babaláwo), sacerdote de Orunmilá |
| Ifá — instrumentos | Nozes de palmeira sagradas e a corrente divinatória (opelê) |
| Ifá — estrutura | 256 odus, cada um com versos próprios |
| Búzios — quem consulta | Sacerdotes e iniciados das casas de orixá |
| Búzios — instrumentos | 16 búzios |
Em 2005, a UNESCO proclamou o sistema divinatório de Ifá, da Nigéria, obra-prima do património oral e imaterial da humanidade. Foi inscrito na Lista Representativa em 2008.
A UNESCO sublinha que os versos de Ifá guardam a história, a língua e a visão do mundo do povo iorubá. Também alerta para o envelhecimento dos sacerdotes e para a intolerância contra estas práticas.
Quem pode jogar
No Candomblé, o jogo de búzios é feito por pais e mães de santo (babalorixás e ialorixás) ou por iniciados autorizados, depois de anos de formação.
Na Santería cubana, onde o jogo se chama dilogún, podem ler os búzios homens e mulheres iniciados, os santeros e santeras.
Em todos os casos, o jogo pressupõe iniciação. Não é algo que se aprenda sozinho em casa.
Porque pedimos respeito
Para milhões de pessoas em África, no Brasil, em Cuba e nas comunidades da diáspora, os búzios fazem parte da sua religião.
Estas religiões foram perseguidas durante muito tempo e ainda hoje sofrem preconceito. Tratar o jogo como curiosidade exótica, ou imitá-lo sem formação, é desrespeitoso.
Se tem interesse:
- procure casas religiosas conhecidas e sérias;
- desconfie de quem promete «trabalhos» caros ou resultados garantidos;
- lembre-se de que decisões de saúde, dinheiro e justiça pedem profissionais, não oráculos.
Afirmações comuns
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «Os búzios são um oráculo como o tarot» | São uma prática religiosa, ligada a iniciação e aos orixás |
| «Qualquer pessoa pode aprender num livro» | Na tradição, exige iniciação e formação numa casa |
| «Búzios e Ifá são a mesma coisa» | São aparentados, mas com sacerdotes e instrumentos diferentes |
| «É magia negra» | É uma prática religiosa; o rótulo nasce do preconceito |
| «Os búzios dizem sempre a verdade» | É uma crença religiosa, sem prova científica |
Continue a ler
➜ Umbanda
➜ Santería
Fontes
- «Ifa Divination System», UNESCO — ich.unesco.org
- «Cowrie-shell divination», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Cowrie», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Conjunto de jogo de búzios (objeto 2017.34.6), Horniman Museum and Gardens — horniman.ac.uk
- William Bascom, Sixteen Cowries: Yoruba Divination from Africa to the New World, Indiana University Press, 1980