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🃏 Tarot e Adivinhação

O jogo de búzios: o oráculo de matriz africana

O que é o jogo de búzios (merindilogun): origem iorubá, os 16 búzios, os odus, a relação com Ifá, o papel no Candomblé e na Santería, e porque merece respeito.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. A origem: os iorubás
  3. Os búzios: conchas que já foram dinheiro
  4. Como funciona, em traços gerais
  5. Búzios e Ifá: parentes, mas diferentes
  6. Quem pode jogar
  7. Porque pedimos respeito
  8. Afirmações comuns
  9. Continue a ler
  10. Fontes

O jogo de búzios é uma prática de adivinhação das religiões de matriz africana, sobretudo do Candomblé brasileiro e da Santería cubana. Lançam-se pequenas conchas e lê-se a forma como caem.

Não é um «jogo» no sentido de passatempo, nem um oráculo que se aprende num livro, como o tarot. É uma prática religiosa, feita por pessoas iniciadas, dentro de uma casa com regras próprias.

Por isso, esta página explica o que é e de onde vem, sem ensinar a jogar.

Ficha

Nome iorubá Ẹẹ́rìndínlógún (merindilogun) — «dezasseis»
Origem Povo iorubá (atual Nigéria e Benim)
Instrumento 16 búzios (conchas de cauri)
Religiões Religião iorubá, Candomblé, Santería/Lucumí
Quem joga Pessoas iniciadas, segundo as regras de cada casa
Parente próximo O oráculo de Ifá, dos babalaôs

A origem: os iorubás

O jogo de búzios nasceu entre os iorubás, povo da atual Nigéria e do Benim. Chegou às Américas com os africanos escravizados, sobretudo ao Brasil e a Cuba. Aí manteve-se vivo dentro das religiões que se formaram nesses países.

O nome iorubá é Ẹẹ́rìndínlógún, que se costuma escrever merindilogun. Quer dizer «dezasseis» — literalmente, «quatro tirados de vinte». É o número de búzios do jogo.

Na tradição iorubá, o 16 tem um peso religioso: é o número atribuído às divindades originais que, segundo os mitos, vieram organizar a vida na Terra.

Os búzios: conchas que já foram dinheiro

Os búzios do jogo são conchas de cauri, sobretudo da espécie Monetaria moneta, a chamada «cauri-moeda».

Durante séculos, estas conchas foram dinheiro em várias partes de África e da Ásia. Eram difíceis de falsificar e vinham sobretudo das Ilhas Maldivas, no oceano Índico.

A partir do século XVI, os comerciantes europeus — portugueses incluídos — levaram enormes quantidades de cauris das Maldivas para a África Ocidental, sobretudo através do tráfico de escravos. É uma parte dura da história, que liga Portugal diretamente a este objeto.

Em partes da África Ocidental britânica, os cauris ainda eram aceites para pagar impostos no início do século XX. O nome da moeda do Gana, o cedi (1965), vem da palavra para estas conchas.

Como funciona, em traços gerais

Não ensinamos a jogar. Mas é possível descrever o princípio:

  • Muitas vezes, a parte redonda da concha é cortada ou limada, para que cada búzio tenha dois lados claros.
  • Cada búzio pode cair «aberto» (com a fenda para cima) ou «fechado» (com a fenda para baixo).
  • O número de búzios abertos indica um odu: um signo com histórias, conselhos e orixás associados.
  • Alguns sacerdotes lançam duas vezes e combinam os resultados. Assim chegam a 256 combinações possíveis.

O Museu Horniman, em Londres, guarda um conjunto de Candomblé com 16 búzios cortados, moedas, favas, cristais e colares de contas. Segundo a ficha do museu, 6 búzios abertos e 10 fechados formam o odu Obará, ligado à prosperidade.

O modo de ler varia de casa para casa. Cada terreiro segue a sua linhagem e os seus ensinamentos.

Búzios e Ifá: parentes, mas diferentes

O jogo de búzios é muitas vezes confundido com o oráculo de Ifá. São sistemas aparentados, mas diferentes.

Aspeto Ifá / Búzios
Ifá — quem consulta O babalaô (babaláwo), sacerdote de Orunmilá
Ifá — instrumentos Nozes de palmeira sagradas e a corrente divinatória (opelê)
Ifá — estrutura 256 odus, cada um com versos próprios
Búzios — quem consulta Sacerdotes e iniciados das casas de orixá
Búzios — instrumentos 16 búzios

Em 2005, a UNESCO proclamou o sistema divinatório de Ifá, da Nigéria, obra-prima do património oral e imaterial da humanidade. Foi inscrito na Lista Representativa em 2008.

A UNESCO sublinha que os versos de Ifá guardam a história, a língua e a visão do mundo do povo iorubá. Também alerta para o envelhecimento dos sacerdotes e para a intolerância contra estas práticas.

Quem pode jogar

No Candomblé, o jogo de búzios é feito por pais e mães de santo (babalorixás e ialorixás) ou por iniciados autorizados, depois de anos de formação.

Na Santería cubana, onde o jogo se chama dilogún, podem ler os búzios homens e mulheres iniciados, os santeros e santeras.

Em todos os casos, o jogo pressupõe iniciação. Não é algo que se aprenda sozinho em casa.

Porque pedimos respeito

Para milhões de pessoas em África, no Brasil, em Cuba e nas comunidades da diáspora, os búzios fazem parte da sua religião.

Estas religiões foram perseguidas durante muito tempo e ainda hoje sofrem preconceito. Tratar o jogo como curiosidade exótica, ou imitá-lo sem formação, é desrespeitoso.

Se tem interesse:

  • procure casas religiosas conhecidas e sérias;
  • desconfie de quem promete «trabalhos» caros ou resultados garantidos;
  • lembre-se de que decisões de saúde, dinheiro e justiça pedem profissionais, não oráculos.

Afirmações comuns

Afirmação comum O que se sabe
«Os búzios são um oráculo como o tarot» São uma prática religiosa, ligada a iniciação e aos orixás
«Qualquer pessoa pode aprender num livro» Na tradição, exige iniciação e formação numa casa
«Búzios e Ifá são a mesma coisa» São aparentados, mas com sacerdotes e instrumentos diferentes
«É magia negra» É uma prática religiosa; o rótulo nasce do preconceito
«Os búzios dizem sempre a verdade» É uma crença religiosa, sem prova científica

Continue a ler

➜ Candomblé

➜ Umbanda

➜ Santería

➜ Exu e Pombagira

➜ Tarot e cartomancia

Fontes

  • «Ifa Divination System», UNESCO — ich.unesco.org
  • «Cowrie-shell divination», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Cowrie», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Conjunto de jogo de búzios (objeto 2017.34.6), Horniman Museum and Gardens — horniman.ac.uk
  • William Bascom, Sixteen Cowries: Yoruba Divination from Africa to the New World, Indiana University Press, 1980

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