Numa loja encontra velas de cera de abelha, de parafina, de estearina e de soja. À vista parecem iguais, mas têm origens, preços e histórias muito diferentes.
Nesta página explicamos a diferença entre as duas principais, o que a tradição da Igreja diz sobre a cera das velas e os mitos que convém desfazer.
As duas ceras lado a lado
| Cera de abelha / Parafina | |
|---|---|
| Origem | Produzida pelas abelhas / derivada do petróleo |
| Cor natural | Amarelada a acastanhada / branca |
| Cheiro | Leve cheiro a mel / sem cheiro |
| Ponto de fusão | Cerca de 62–64 °C / cerca de 46–68 °C (conforme a refinação) |
| Preço | Mais cara / mais barata |
| Uso mais comum | Liturgia, velas artesanais / velas correntes, lamparinas, velas de 7 dias |
A cera de abelha
É produzida pelas abelhas operárias em glândulas do abdómen e serve para construir os favos. Depois de retirado o mel, a cera é derretida, filtrada e moldada. Pode ser branqueada ao sol ou por processos químicos. É também um aditivo alimentar autorizado na União Europeia (E901).
A parafina
É uma mistura de hidrocarbonetos obtida na refinação do petróleo. Foi isolada pelo químico alemão Carl Reichenbach em 1830. Na década de 1850, o processo de destilação de James Young tornou-a barata, e as velas de parafina passaram a estar ao alcance de todos.
E as outras?
- Sebo: gordura animal. Foi a vela dos pobres durante séculos; fazia fumo e cheirava mal.
- Estearina: separada das gorduras nos anos 1820 (Chevreul e Gay-Lussac); dá velas mais duras.
- Soja e outras ceras vegetais: opção recente.
Um pouco de história
Na Europa medieval, a cera de abelha era cara. Quem podia usava-a; o povo iluminava-se com sebo ou com a candeia de azeite. A Igreja era uma das grandes consumidoras de cera, e fazer velas de cera era um ofício próprio, o de cerieiro.
Os ex-votos de cera e os círios das romarias portuguesas pertencem a este mundo, em que a cera era uma oferta valiosa.
➜ A candeia e a lamparina de azeite
A Igreja exige cera de abelha?
É uma pergunta frequente, e a resposta tem nuances.
Tradição e simbolismo. No Exsultet, o canto da Vigília Pascal, a cera do círio é louvada como obra da abelha. Os autores medievais viam na cera, feita por abelhas que se julgava serem virgens, um símbolo do corpo de Cristo nascido da Virgem; o pavio seria a alma e a chama a divindade.
A regra antiga. Um decreto da Sagrada Congregação dos Ritos de 14 de dezembro de 1904 mandava que o círio pascal e as velas principais do altar fossem de cera de abelha «na maior parte» (maxima parte). Na prática aplicou-se uma percentagem mínima de cera de abelha, mais alta para as velas principais e mais baixa para as restantes.
A regra atual. Depois do Concílio Vaticano II, a Santa Sé deixou de legislar em pormenor e passou o assunto para as conferências episcopais. A Instrução Geral do Missal Romano fala do número e do lugar das velas, mas não fixa o material. A exceção clara é o círio pascal, que, segundo a carta Paschalis Sollemnitatis (1988, n.º 82), deve ser de cera, nunca artificial, e renovado todos os anos.
Ou seja: a cera de abelha continua a ser a tradição preferida, mas hoje não é uma obrigação geral para todas as velas.
E na prática esotérica?
Na tradição esotérica moderna, muitos preferem a cera de abelha por ser um material natural e «vivo», associado ao Sol e ao mel. É uma preferência simbólica, não uma regra antiga nem um efeito comprovado. Uma vela de parafina serve igualmente para acender com uma oração.
Mitos a desfazer
- «A cera de abelha purifica o ar.» Não há provas sólidas disso. Qualquer vela é uma combustão e produz algum fumo.
- «A parafina é veneno.» Usada normalmente, com o pavio aparado e a divisão arejada, é o material da grande maioria das velas vendidas.
- «Só a cera de abelha é "verdadeira" para rezar.» A Igreja não o diz, salvo para o círio pascal.
Qualidade e segurança
Seja qual for a cera:
- apare o pavio a cerca de 5 mm antes de acender: menos fumo e fuligem;
- evite correntes de ar, que fazem a chama tremer e fumegar;
- use um castiçal estável e à medida da vela;
- nunca deixe a vela acesa sem vigilância, longe de cortinas, crianças e animais;
- areje a divisão, sobretudo se tiver asma.
As velas são uma causa importante de incêndios domésticos. Uma vela barata num suporte seguro é melhor do que uma vela cara num suporte instável.
➜ Como usar velas com segurança
Continue a ler
➜ Ceromancia: a leitura da cera
Fontes
- Catholic Encyclopedia (1908), «Candles» — newadvent.org
- EWTN, «Unbleached Candles» (regras antigas e atuais sobre a cera) — ewtn.com
- Adoremus, «What are the Church's norms about the Paschal Candle?» (Paschalis Sollemnitatis, n.º 82) — adoremus.org
- Wikipedia, «Beeswax» e «Paraffin wax» — en.wikipedia.org
- Wikipedia, «Candle» (sebo, estearina, parafina) — en.wikipedia.org