Nas lojas esotéricas há velas em forma de homem, mulher, casal, gato, crânio, cruz ou com sete nós. Muitas pessoas perguntam se a forma «muda» alguma coisa.
A resposta curta: a forma é um símbolo. A maior parte destes modelos é recente e vem sobretudo da magia popular dos Estados Unidos no século XX. Mas a ideia por trás deles é muito antiga, e tem até uma versão bem portuguesa: os ex-votos de cera.
A ideia por trás: a imagem representa
A antropologia chama magia simpática à crença de que uma imagem está ligada àquilo que representa. James Frazer descreveu-a em O Ramo de Ouro (1890), com o princípio de que «o semelhante produz o semelhante».
Uma vela em forma de pessoa segue esta lógica: na crença de quem a usa, representa alguém. É a mesma ideia de muitas simpatias populares.
Em Portugal: os ex-votos de cera
Muito antes das velas figurativas das lojas esotéricas, os santuários portugueses recebiam figuras de cera: pés, mãos, cabeças, órgãos e até corpos inteiros, oferecidos a um santo ou a Nossa Senhora.
São ex-votos: pagam uma promessa e agradecem uma graça que o devoto acredita ter recebido. Nos séculos XVIII e XIX dominavam as tabuinhas pintadas; depois, a produção industrial tornou comuns as figuras de cera baratas.
Aqui a forma não serve para agir sobre outra pessoa. É um agradecimento: a figura mostra a parte do corpo pela qual se fez a promessa. Continua a ver-se em santuários de todo o país.
Nos Estados Unidos: hoodoo e as lojas de «spiritual supplies»
As velas em forma de figura, gato ou crânio ganharam fama no hoodoo, a magia popular afro-americana, e nas lojas chamadas botánicas e spiritual supply.
Dois autores americanos dos anos 1940 ajudaram a popularizar a magia com velas:
- Mikhail Strabo, com A Candle to Light Your Way (1941) e outros livrinhos;
- Henri Gamache, pseudónimo de Anne Fleitman, publicada em Nova Iorque, com The Master Book of Candle Burning (1942).
Os fabricantes passaram a vender velas com formas e rótulos para cada finalidade: amor, sorte, dinheiro. Muitas das «tradições» ligadas a estas formas têm, por isso, menos de cem anos.
As formas mais comuns
| Forma | O que a tradição moderna lhe atribui |
|---|---|
| Figura humana (homem ou mulher) | Representa uma pessoa, muitas vezes a própria |
| Casal | Relação amorosa, união |
| Gato (sobretudo preto) | Sorte, proteção, sorte no jogo |
| Crânio | A mente e os pensamentos; em algumas lojas, a memória dos mortos |
| Sete nós | Sete pedidos ou sete dias: arde um nó por dia |
| Cruz | Proteção e oração, na devoção popular |
| Pirâmide | Forma decorativa moderna; não encontrámos tradição antiga documentada |
A figura que representa a própria pessoa
O uso mais sensato de uma vela em forma de figura é representar-se a si mesmo: um momento para pensar na sua saúde, no seu trabalho ou num novo começo.
O crânio e a mente
No hoodoo, a vela em forma de crânio é descrita como uma vela para influenciar a mente. Na simbologia mexicana, os crânios ligam-se sobretudo à memória dos mortos, como no Dia dos Mortos.
A vela de sete nós
Os fornecedores de hoodoo recomendam acender um nó por dia, durante sete dias, com um pedido ou uma etapa em cada nó. Tem semelhanças com as velas de sete dias, mas com as etapas marcadas na própria cera.
O que não ensinamos
Algumas lojas vendem velas de casal, figura ou crânio para prender, separar, dominar ou «amarrar» outra pessoa. O Grimório.pt explica a crença, mas não ensina práticas para controlar a vontade de alguém.
Nenhuma forma de vela garante qualquer resultado. Se usar uma vela figurativa, use-a para si próprio, para a sua oração ou para agradecer.
Segurança
As velas com forma ardem de maneira irregular: as partes finas derretem depressa, a cera escorre e a vela pode tombar a meio.
- Coloque-as sempre num prato largo e fundo ou numa bandeja metálica.
- Nunca as deixe acesas sem vigilância nem durante o sono. Para uma vela de sete nós, apague-a e volte a acender no dia seguinte.
- Afaste-as de cortinas, papéis e plantas secas; afaste crianças e animais; areje a divisão.
➜ Como usar velas com segurança
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➜ Cores das velas e os seus significados
➜ Ceromancia: ler a cera e a chama
Fontes
- Association of Independent Readers and Rootworkers, «Hoodoo Candles and Lamps» — readersandrootworkers.org
- Wikipedia, «Henri Gamache» — en.wikipedia.org
- Pe. Estevinho Pires, «Ex-votos», Mensageiro de Bragança — mdb.pt
- Original Botanica, «7 Knob, Cross, and Cat Candles» — originalbotanica.com
- James George Frazer, The Golden Bough (O Ramo de Ouro), 1890