Antes da eletricidade, e muito antes das velas baratas de parafina, a luz das casas portuguesas vinha do azeite. A candeia iluminava a cozinha e o serão; a lamparina ardia, pequenina, diante do santo ou pelas almas.
Nesta página contamos a história destas duas luzes, o lugar que tiveram na devoção popular e como usá-las hoje em segurança.
Candeia, candeeiro e lamparina
| Nome | O que é |
|---|---|
| Candeia | Pequena lâmpada de azeite, de barro ou metal, com bico para a torcida |
| Candeeiro de azeite | Lâmpada maior, de latão ou cobre, com pé e vários bicos |
| Lamparina | Recipiente com azeite ou óleo onde flutua uma pequena torcida |
Como funcionava a candeia
O princípio é muito simples. Uma candeia de barro encontrada em Tavira (séculos XV–XVIII), hoje no Museu Municipal, mostra-o bem: é uma pequena taça com um bico apertado numa ponta e uma asa na outra. A torcida ficava deitada no fundo, com a ponta apoiada no bico, e a taça enchia-se de azeite. Acendia-se a ponta, e o azeite ia subindo pela torcida.
As marcas de fogo no bico dessa peça provam que serviu mesmo para iluminar.
O candeeiro de azeite
O candeeiro de latão, de pé alto, com depósito e vários bicos, é a peça que muitas famílias ainda guardam. Tinha acessórios presos por correntinhas: o espevitador (para avivar a torcida), o apagador e outros utensílios. Feitos por funileiros, raramente eram assinados.
O Museu de Évora tem uma coleção importante destas peças, e nos Açores o Museu da Graciosa guarda uma candeia de cobre de três bicos, usada numa casa da ilha até meados do século XX.
A lamparina
A lamparina é ainda mais simples: um copo ou pequeno recipiente com azeite (ou outro óleo) sobre o qual flutua um pedaço de cortiça ou madeira com uma torcida. Dá uma luz fraca mas muito duradoura. Por isso foi a luz das devoções e das noites de vigília.
A luz da devoção
Diante dos santos
Em muitas casas portuguesas havia um oratório ou uma imagem com uma lamparina acesa. Era um sinal de oração contínua, como a vela votiva da igreja.
Pelas almas
Nas alminhas de rua deixava-se, segundo registos de Ílhavo, «uma vela ou copo de azeite com lamparina», com a luz sempre acesa «para alumiar o caminho do Céu» às almas. Quem passava podia deixar azeite para que a chama não se apagasse.
Nos velórios feitos em casa, os candeeiros de azeite ladeavam o crucifixo e ficavam acesos até o defunto sair. O costume perdeu-se quando os velórios passaram para as capelas mortuárias.
A lâmpada do sacrário
Na igreja, a lamparina tem um lugar oficial. O Código de Direito Canónico (cân. 940) manda que diante do sacrário onde se guarda a Eucaristia brilhe continuamente uma lâmpada especial. A Instrução Geral do Missal Romano diz que deve ser alimentada a azeite ou a cera. É a luz vermelha que se vê em quase todas as igrejas — hoje muitas vezes elétrica.
Candeias e Candelária
A palavra candeia está ligada à festa de 2 de fevereiro, a Apresentação do Senhor, em que se benzem as velas. Em Portugal esta festa chama-se também Nossa Senhora das Candeias. Curiosamente, a peça do Museu de Tavira foi doada ao município precisamente num 2 de fevereiro.
Na tradição esotérica moderna
Algumas práticas esotéricas atuais preferem a lamparina de azeite à vela, por ser um material natural ligado à oliveira, árvore de paz na Bíblia. É uma preferência simbólica, não uma regra antiga nem um efeito provado. Na tradição portuguesa, o sentido da lamparina sempre foi simples: uma luz que acompanha a oração.
Segurança
O azeite a arder é traiçoeiro: se o recipiente cair, o óleo espalha-se e continua a arder.
- use um copo de vidro grosso e estável, com um prato por baixo;
- encha pouco e não acrescente azeite com a chama acesa;
- mantenha a lamparina longe de cortinas, toalhas, flores secas e prateleiras de madeira;
- nunca a deixe acesa sem vigilância, nem durante a noite;
- nunca apague óleo a arder com água: abafe com uma tampa;
- fora de casa (alminhas, campas), respeite a proibição de fogo em dias de risco de incêndio.
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Fontes
- Museu Municipal de Tavira, «Candeia de azeite» — museumunicipaldetavira.cm-tavira.pt
- Catálogo Coletivo dos Museus dos Açores, «Candeia [MG903]», Museu da Graciosa — ccmuseus.azores.gov.pt
- Candeeiros de azeite do Museu de Évora: colecção Margiochi (Évora: IMC–Museu de Évora, 2011).
- Câmara Municipal de Ílhavo, «Devoções populares» — cm-ilhavo.pt
- Código de Direito Canónico, cân. 940 — vatican.va