Acender uma vela por quem morreu é dos gestos mais portugueses que existem. Faz-se na campa, no dia de Todos os Santos, na igreja, na alminha da estrada ou em casa, junto a uma fotografia.
Nesta página explicamos de onde vem este gesto, onde e quando se faz na tradição portuguesa, o que é crença e o que é doutrina, e como acender a vela das almas em segurança.
Porque uma luz?
A luz perpétua
Uma das orações pelos mortos mais conhecidas da liturgia católica pede precisamente luz:
Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso,
entre os esplendores da luz perpétua.
Descansem em paz.
Ámen.
(Versão portuguesa tradicional do Requiem aeternam.)
Na fé cristã, a luz é Cristo ressuscitado. A vela acesa pelo defunto é, antes de mais, uma oração feita gesto: pede para ele essa luz e mostra que os vivos não o esqueceram.
Uma prática muito antiga
Segundo a Catholic Encyclopedia, as velas já se usavam de forma cerimonial nos funerais cristãos do século IV.
Onde se acende a vela das almas
No velório
Nos velórios feitos em casa, os candeeiros de azeite ou as velas ladeavam o crucifixo junto ao caixão e ficavam acesos até o defunto sair. Hoje, nas capelas mortuárias, as velas (muitas vezes elétricas) cumprem o mesmo papel.
➜ A candeia e a lamparina de azeite
Na campa: Todos os Santos e Fiéis Defuntos
O 1 de novembro (Todos os Santos, feriado nacional) é o dia em que a maior parte das famílias vai ao cemitério. Limpam-se as campas, põem-se crisântemos e acendem-se lamparinas ou velas em lanternas. O 2 de novembro é o dia dos Fiéis Defuntos, dedicado na doutrina católica às almas do Purgatório.
➜ Dia de Finados e Todos os Santos
Nas alminhas
Nos nichos das almas à beira dos caminhos, quem passava deixava uma vela ou um copo de azeite com lamparina. Em Ílhavo, por exemplo, registou-se que essa luz devia estar sempre acesa «para alumiar o caminho do Céu» às almas.
Na Quaresma: a encomendação das almas
Em muitas aldeias do Norte, o canto noturno pelas almas na Quaresma — encomendação ou amentar das almas — fazia-se com velas ou lanternas, que marcavam o caminho e simbolizavam a fé e a esperança.
Em casa
É comum acender uma vela ou lamparina junto à fotografia de um familiar no aniversário da morte, numa data especial ou simplesmente quando se sente a falta. Não há regra: a tradição católica não fixa dias, cores nem horas.
Que vela usar?
Na tradição católica, a vela pelos mortos é branca ou cor de cera. Não é preciso comprar uma «vela das almas» especial.
No comércio esotérico vendem-se velas com esse nome e circulam instruções sobre cores, dias e números de velas. São convenções recentes, não tradição antiga portuguesa.
Crença, doutrina e medo
É bom separar três coisas:
- Doutrina católica: a oração, as missas e as esmolas podem ajudar as almas do Purgatório. A vela é um sinal dessa oração.
- Crença popular: a luz «alumia o caminho» das almas; as almas ajudadas pela oração intercedem por quem reza por elas.
- Medo moderno: há quem diga que acender velas aos mortos «atrai espíritos». Não é ensinamento da Igreja nem tem prova. É sobretudo um tema de sites de paranormal.
Não recomendamos rituais para «chamar» ou «falar» com os mortos. Se está a viver um luto difícil, falar com a família, um padre, um psicólogo ou o seu médico ajuda mais do que qualquer ritual.
Segurança
A vela das almas arde muitas vezes em sítios arriscados: cemitérios cheios de flores secas, alminhas junto ao mato, prateleiras de casa.
- em casa, use castiçal estável ou copo de vidro grosso, sobre um prato;
- nunca a deixe acesa sem vigilância, nem durante a noite;
- afaste-a de cortinas, flores secas e fotografias em papel;
- no cemitério, use lanternas fechadas próprias e respeite as regras do cemitério;
- nas alminhas e no campo, respeite a proibição de fogo em dias de risco de incêndio;
- uma vela LED é uma alternativa segura; o sentido da oração é o mesmo.
➜ Como usar velas com segurança
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Fontes
- Catholic Encyclopedia (1908), «Candles» — newadvent.org
- Câmara Municipal de Ílhavo, «Devoções populares» — cm-ilhavo.pt
- «Vila Verde: Nevogilde recriou a tradição do "Amentar das Almas"», O Vilaverdense — ovilaverdense.pt
- «Um candeeiro de azeite: a luz dos mortos», blogue Velharias (com base no catálogo do Museu de Évora) — velhariasdoluis.blogspot.com