Quando tudo corre mal ao mesmo tempo, é humano perguntar: «Será que me fizeram alguma coisa?» Em Portugal, a ideia de «trabalho feito», mau-olhado ou quebranto está muito viva, e a pergunta aparece todos os dias no Google.
Este artigo explica a crença e os «sinais» que a tradição popular aponta. Mas começa pelo que é mais importante: quase todos esses sinais têm causas conhecidas, que devem ser vistas primeiro.
Antes de tudo: a sua saúde
Cansaço, insónia, pesadelos, dores sem explicação, tristeza, sensação de ser observado ou perseguido: estes são também sintomas de doenças físicas e psicológicas que têm tratamento.
Algumas causas frequentes:
- Depressão e ansiedade: cansaço, falta de vontade, pensamentos negativos, sensação de «peso».
- Problemas de sono (incluindo apneia): acordar cansado, pesadelos, irritabilidade.
- Anemia, problemas de tiroide, falta de vitaminas: fadiga persistente.
- Paralisia do sono: acordar sem se conseguir mexer, com a sensação de uma presença no quarto. Assusta muito, mas é um fenómeno conhecido e geralmente benigno.
- Luto e stress prolongado: afetam o corpo, o sono e a memória.
- Álcool, medicamentos ou outras substâncias.
Fale com o seu médico de família. Se precisar de conselho rápido, ligue para o SNS 24: 808 24 24 24. A mesma linha tem aconselhamento psicológico gratuito, 24 horas por dia.
Se tem pensamentos de fazer mal a si próprio, ou sente que alguém o quer prejudicar e tem medo, ligue 112.
A crença: o que é estar «enfeitiçado»
Na tradição popular portuguesa, fala-se de várias formas de mal enviado por outra pessoa:
- Mau-olhado ou olho gordo: o mal causado pela inveja, muitas vezes sem intenção.
- Quebranto: sobretudo em crianças, «tratado» por benzedeiras com orações.
- Enguiço: uma espécie de azar persistente.
- «Trabalho feito»: um feitiço feito de propósito por alguém, por vezes pago a um bruxo.
Estas crenças são antigas. Os processos da Inquisição portuguesa estão cheios de acusações de feitiçaria entre vizinhos, quase sempre em momentos de doença, morte ou perda inexplicável.
Os «sinais» segundo a crença popular
Estes são os sinais que mais se ouvem, e o que eles podem ser na realidade:
| «Sinal» popular | O que pode ser |
|---|---|
| Cansaço sem causa | Anemia, depressão, sono de má qualidade |
| Pesadelos repetidos | Ansiedade, stress, paralisia do sono |
| Azar em tudo ao mesmo tempo | Crise real que arrasta outras (dinheiro, trabalho, relação) |
| Pessoas a afastarem-se | Isolamento, tristeza, conflitos por resolver |
| Sensação de ser seguido | Ansiedade intensa, ou um problema a avaliar por um médico |
| Dores que «os médicos não explicam» | Diagnóstico ainda incompleto; pedir segunda opinião |
Um sinal não é uma prova. Quando estamos em sofrimento, é natural procurar uma causa exterior e ligar coincidências.
➜ Porque a minha vida está bloqueada?
Cuidado com quem «confirma» o feitiço
Uma das burlas mais comuns em Portugal começa assim: alguém que não o conhece diz-lhe que tem «um trabalho feito» e que só ele o pode desfazer, por um preço que vai subindo.
- Ninguém pode «ver» um feitiço por mensagem.
- Ninguém pode garantir que o desfaz.
- Ameaças («se não pagar, piora») são sinal de burla.
➜ Como escolher um bruxo sério e evitar burlas
Se tem fé
Para quem crê, a tradição oferece caminhos que não custam dinheiro nem fazem mal a ninguém: a oração, a confiança e o apoio da comunidade. Muitas pessoas procuram também o seu pároco ou líder religioso. Estes caminhos podem acompanhar o tratamento médico, nunca substituí-lo.
➜ Oração para desfazer bruxaria (a tradição)
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➜ Como saber se tem bruxaria (pergunta frequente)
➜ Sinais de inimigos espirituais
Fontes
- SNS 24, Aconselhamento psicológico — sns24.gov.pt
- Eu Sinto-me, «Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS 24» — eusinto.me
- José Pedro Paiva, Bruxaria e Superstição num País sem «Caça às Bruxas» (1600–1774), Notícias Editorial, 1997.
- Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: Feiticeiras, Adivinhos e Curandeiros em Portugal no Século XVI, Companhia das Letras, 2004.