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O olho gordo é real? O que dizem a antropologia e a psicologia

O olho gordo é uma das crenças mais antigas do Mediterrâneo. Veja o que dizem antropólogos e psicólogos sobre a inveja, o medo e a explicação dos azares.

3 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Uma crença com milhares de anos
  2. O que diz a antropologia
  3. O que diz a psicologia
  4. Então, o que fazer?
  5. Continue a ler
  6. Fontes

«Puseram-lhe olho gordo.» Em Portugal, a frase explica uma planta que secou, um bebé que chora sem parar ou um negócio que começou a correr mal. É uma das crenças mais antigas e mais espalhadas do mundo.

Mas o que há de verdade nela? Neste artigo não explicamos como tirar o mau-olhado (isso está noutra página). Explicamos o que os estudiosos dizem sobre esta crença e porque é que ela resiste há milhares de anos.

➜ Desfazer mau-olhado: tradições portuguesas

Uma crença com milhares de anos

O olho gordo, mau-olhado ou quebranto é a ideia de que o olhar de uma pessoa invejosa pode causar dano, muitas vezes sem ela querer.

  • Os gregos antigos chamavam-lhe baskania, e Plutarco discutiu o tema num dos seus diálogos.
  • Os romanos falavam de fascinatio e protegiam as crianças com amuletos.
  • A crença está presente em todo o Mediterrâneo, nos Balcãs, no Médio Oriente, no Sul da Ásia e na América Latina.

Portugal está bem dentro desta área. A figa, as fitas vermelhas e as rezas das benzedeiras são as nossas respostas tradicionais ao mesmo medo.

➜ Olho turco

O que diz a antropologia

O folclorista Alan Dundes reuniu dezenas de estudos sobre o tema no livro The Evil Eye: A Casebook. A conclusão comum é que o olho gordo é, no fundo, uma teoria sobre a inveja.

Nas sociedades tradicionais, sobretudo nas aldeias, os bens pareciam limitados: uma boa colheita, um filho saudável, uma vaca que dava leite. O antropólogo George Foster chamou a isto a ideia do «bem limitado»: se alguém tem muito, parece que foi à custa dos outros.

Nesse contexto, a crença tinha funções sociais:

  • Explicava azares que de outra forma não tinham explicação (doenças de bebés, animais que morriam).
  • Ensinava modéstia: não se gabava um filho ou uma colheita, para não «atrair olho».
  • Controlava a inveja: quem elogiava devia dizer «Deus o abençoe» ou tocar na criança, mostrando que não desejava mal.

Por isso tantos elogios, em Portugal, vinham acompanhados de um «benza-o Deus».

O que diz a psicologia

A psicologia não confirma que o olhar cause dano físico. Mas explica bem porque é que a crença parece verdadeira:

  • A inveja é real. É uma emoção humana estudada pela psicologia, e pode levar a comportamentos hostis: críticas, boatos, sabotagem. Nesses casos, o mal vem de ações concretas, não do olhar.
  • Procuramos causas. Quando algo corre mal, a mente procura um culpado. Uma pessoa invejosa é uma explicação fácil.
  • Efeito de confirmação. Lembramo-nos do elogio que foi seguido de azar e esquecemos os cem elogios que não foram.
  • O corpo reage ao stress. Viver com medo de ser invejado causa ansiedade, dores de cabeça e insónias, que depois são lidas como «sintomas» do olho gordo.

E a «física quântica»? Alguns sites afirmam que a física quântica explica o mau-olhado. Não é verdade. Nenhum físico defende isso. É uso abusivo de uma palavra científica.

➜ A magia funciona mesmo?

Então, o que fazer?

  • Valorize a crença como património: as rezas, a figa e os costumes fazem parte da cultura portuguesa.
  • Não deixe que o medo mande. Suspeitar de familiares, vizinhos ou colegas estraga relações reais.
  • Perante sintomas físicos ou psicológicos, procure o médico ou ligue para o SNS 24 (808 24 24 24).
  • Desconfie de quem diga que tem «olho gordo muito forte» e peça dinheiro para o tirar.

Continue a ler

➜ Desfazer olho gordo

➜ Oração para desfazer olho gordo

➜ Símbolos de proteção

Fontes

  • Alan Dundes (org.), The Evil Eye: A Casebook, University of Wisconsin Press, 1992 (1.ª ed. 1981)
  • George M. Foster, «The Anatomy of Envy: A Study in Symbolic Behavior», Current Anthropology, 13(2), 1972
  • José Leite de Vasconcelos, Signum Salomonis. A Figa. A Barba em Portugal, Etnográfica Press — OpenEdition
  • Raymond S. Nickerson, «Confirmation Bias: A Ubiquitous Phenomenon in Many Guises», Review of General Psychology, 1998 — doi.org

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