«Como funciona uma amarração?» é das perguntas mais pesquisadas sobre magia em Portugal. Por trás dela há quase sempre uma dor: alguém que partiu, um amor não correspondido, um ciúme.
Este artigo explica o que a tradição diz sobre a amarração, de onde vem esta prática e o que dizem a ética e o bom senso. Não ensina a fazer nenhuma: o Grimório.pt não publica práticas para forçar a vontade de outra pessoa.
O que é uma amarração
Na linguagem popular portuguesa e brasileira, amarração é um ritual que pretende «prender» uma pessoa a outra: fazê-la voltar, ficar ou deixar de desejar outros.
A palavra diz tudo: amarrar, atar. É a mesma imagem das tabuinhas de «ligação» da Antiguidade. O objetivo não é pedir amor, é prender a vontade de alguém.
Como a tradição diz que «funciona»
Segundo a crença, uma amarração atua por três vias. Nenhuma está demonstrada; são as explicações que os praticantes dão.
1. A representação da pessoa
Um nome escrito, uma fotografia, um boneco ou um objeto pessoal (cabelo, roupa) «substituiria» a pessoa. O que se faz ao objeto, acredita-se, afeta a pessoa. Os estudiosos chamam a isto magia simpática.
2. A invocação de uma força
Muitas amarrações pedem ajuda a santos, espíritos, demónios ou «entidades». Nas tabuinhas antigas eram os deuses do mundo subterrâneo e os mortos; no Livro de São Cipriano, várias fórmulas de conjuro.
3. A repetição e os materiais
Velas, mel, nós, datas lunares, orações repetidas. Na tradição, estes elementos «reforçam» a intenção. Na prática, dão forma ritual a um desejo muito forte.
➜ O que é uma amarração amorosa (secção Amarrações)
Uma prática com milhares de anos
Tabuinhas de chumbo gregas e romanas
Os gregos chamavam katadesmos («ligação») a uma tabuinha de chumbo gravada e enterrada num túmulo ou num poço. Os romanos chamavam-lhe defixio. Conhecem-se mais de mil. Muitas visam rivais em tribunal ou no desporto; outras, o amor.
Os Papiros Mágicos Gregos, do Egito romano, contêm receitas de «feitiços de atração» muito parecidos com as amarrações atuais. No Louvre está uma figura de barro atada e trespassada por alfinetes, com uma tabuinha onde um homem pede que uma mulher não aceite mais ninguém senão ele.
Feitiços de amor na Idade Média
A magia amorosa foi comum em toda a Europa medieval. A Igreja condenava-a como superstição ou pacto com o demónio. Em Portugal, os processos da Inquisição registam orações, «cartas de tocar» e outros recursos para atrair ou prender alguém.
O Livro de São Cipriano
No século XIX, as edições populares do Livro de São Cipriano espalharam receitas de amor em Portugal e no Brasil. Hoje, a palavra «amarração» aparece sobretudo em anúncios de serviços, muitas vezes com promessas que nenhuma tradição antiga fazia.
➜ Amarrações de São Cipriano: o que diz o Livro
O que diz a ética: o livre-arbítrio
A amarração é talvez a prática mais criticada dentro do próprio mundo esotérico. O motivo é simples: procura anular a liberdade de outra pessoa.
- No cristianismo, o livre-arbítrio é um dom de Deus que não deve ser violado.
- Em muitas correntes da bruxaria moderna, vale a máxima de «não fazer mal a ninguém».
- Na tradição popular, fala-se do «retorno»: o mal feito voltaria a quem o fez.
E há uma pergunta humana: quem quer ser amado por alguém que não escolheu amá-lo?
Porque nenhuma amarração garante resultados
- Não há prova de que um ritual mude os sentimentos de alguém.
- Quando «resulta», é impossível saber se a pessoa voltaria de qualquer forma.
- Os «sinais de que está a fazer efeito» (sonhos, mensagens, coincidências) são muitas vezes lidos à luz da esperança.
- As promessas de «amarração definitiva» ou «em 7 dias» são argumentos de venda.
Se alguém lhe pede cada vez mais dinheiro para «reforçar» um trabalho, leia antes o nosso guia contra burlas.
➜ Como escolher um bruxo sério e evitar burlas
Alternativas respeitosas
Na tradição há também orações e práticas que não tentam controlar ninguém: pedir serenidade, pedir que o amor certo chegue, pedir força para seguir em frente. E há ajuda humana: uma conversa sincera, amigos, terapia. Se a dor não passa, a linha SNS 24 (808 24 24 24) tem psicólogos disponíveis.
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➜ Como desfazer uma amarração (a crença)
Fontes
- John G. Gager, Curse Tablets and Binding Spells from the Ancient World, Oxford University Press, 1992.
- Hans Dieter Betz (ed.), The Greek Magical Papyri in Translation, University of Chicago Press, 1986.
- Museu do Louvre, figura e tabuinha de chumbo (E 27145) — collections.louvre.fr
- Richard Kieckhefer, Magic in the Middle Ages, Cambridge University Press, 1989.
- Biblioteca Nacional de Portugal, O grande livro de S. Cypriano ou o thesouro do feiticeiro — purl.pt/16504