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Bruxaria em Portugal: guia completo

Guia da bruxaria em Portugal: de Martinho de Dume às Ordenações, à Inquisição e às benzedeiras. Um país quase sem caça às bruxas, por temas e regiões.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Resumo rápido
  2. 1. Martinho de Dume e as «superstições dos rústicos» (séc. VI)
  3. 2. As Ordenações do Reino
  4. 3. A Inquisição (1536–1821)
  5. 4. 1774: de pacto diabólico a embuste
  6. 5. Bruxa, feiticeira e benzedeira
  7. 6. Séculos XIX e XX: a tradição viva
  8. Explore por tema
  9. Explore por região
  10. Para aprofundar: as obras de referência
  11. Continue a ler
  12. Fontes

Em Portugal houve sempre crença em bruxas, feiticeiras, mau-olhado e benzeduras. Houve leis duras e tribunais. Mas, ao contrário de grande parte da Europa, quase ninguém foi executado por bruxaria.

Este guia é o ponto de partida. Conta a história em poucas etapas, com datas e fontes, e depois encaminha para as páginas próprias de cada tema e de cada região.

As práticas concretas (benzedeiras, ensalmos, cartas de tocar) estão explicadas na página sobre feitiçaria portuguesa.

➜ Feitiçaria portuguesa: práticas e especialistas populares

Resumo rápido

Período O que se sabe
Séc. VI Martinho de Dume condena as superstições dos camponeses
Séc. XV–XVII As Ordenações do Reino punem os feiticeiros
1536–1821 A Inquisição julga casos de feitiçaria
1774 Novo Regimento: a feitiçaria passa a ser vista como embuste
Séc. XIX–XX Benzedeiras, Livro de São Cipriano, recolhas etnográficas

1. Martinho de Dume e as «superstições dos rústicos» (séc. VI)

O documento mais antigo é do século VI. São Martinho de Dume, bispo de Braga a partir de 569, escreveu o De correctione rusticorum («Da correção dos rústicos»), dirigido ao bispo Polémio de Astorga.

Ali condena o que os camponeses ainda faziam: acender velinhas junto a pedras, árvores, fontes e encruzilhadas, deitar pão na fonte, observar augúrios e dias, encantar ervas para malefícios e invocar nomes de demónios.

Muitas destas práticas reaparecem, séculos depois, nas recolhas dos etnógrafos.

➜ São Martinho de Dume e o «De correctione rusticorum»

2. As Ordenações do Reino

A feitiçaria era um crime de foro misto: podiam julgá-la os tribunais do rei, os bispos e, mais tarde, a Inquisição.

As Ordenações Manuelinas e as Ordenações Filipinas (1603) tinham um título «Dos feiticeiros». Previam a pena de morte para os casos mais graves, como usar a pedra de ara ou outras coisas sagradas para fazer feitiços. Para casos menores previam açoites, multa e degredo (por exemplo, para o Brasil).

Na prática, como se verá, a lei foi muito mais dura no papel do que nos tribunais.

3. A Inquisição (1536–1821)

A Inquisição portuguesa foi criada em 1536 e abolida em 1821. Julgava a feitiçaria quando suspeitava de pacto com o Demónio ou de heresia.

Segundo o historiador José Pedro Paiva, entre 1600 e 1774 os tribunais de Lisboa, Coimbra e Évora processaram cerca de 818 pessoas por feitiçaria, e só quatro foram entregues à justiça civil para execução. As denúncias foram muito mais numerosas do que os processos.

Paiva identifica três momentos de maior repressão: a partir de 1620, de 1680 e de 1710, este último muito ligado às curas supersticiosas.

➜ A Inquisição em Portugal (1536–1821)

➜ Processos de feitiçaria na Inquisição portuguesa

Porque não houve caça às bruxas?

Os historiadores apontam várias razões:

  • A Inquisição concentrou-se nos cristãos-novos acusados de judaísmo.
  • Os juízes eram céticos quanto ao voo das bruxas e às reuniões com o Diabo.
  • A teologia portuguesa produziu pouca demonologia.
  • A Igreja controlava as práticas populares por meios menos violentos: catequese, confissão e visitas pastorais.

Paiva resume assim o paradoxo: uma legislação muito repressiva conviveu com uma ação relativamente benevolente.

➜ A caça às bruxas na Europa

4. 1774: de pacto diabólico a embuste

Com o Regimento da Inquisição de 1774, no tempo do Marquês de Pombal, a feitiçaria deixou de ser tratada como pacto com o Diabo. Passou a ser vista como superstição e impostura.

Os inquisidores já não perguntavam pelo pacto, mas porque é que o acusado «fingia» poderes. A repressão continuou, mas por razões de ordem pública.

5. Bruxa, feiticeira e benzedeira

Na tradição portuguesa, as palavras não querem dizer o mesmo. O etnógrafo José Leite de Vasconcelos registou a fórmula popular «a bruxa nasce, a feiticeira faz-se».

Figura Na crença popular
Bruxa Nasce assim; temida, faz mal de noite
Feiticeira Aprende o ofício; procurada para amores e adivinhas
Benzedeira Reza e benze contra males do corpo e da sorte

A bruxa era quase uma figura lendária. Feiticeiras, benzedeiras e saludadores eram pessoas reais, conhecidas na aldeia.

➜ Feitiçaria ou bruxaria: qual a diferença?

6. Séculos XIX e XX: a tradição viva

Depois do fim da Inquisição, as práticas não desapareceram. As benzedeiras continuaram a benzer o quebranto, o cobrão e o mau-olhado, sobretudo no interior.

O Livro de São Cipriano, em edições populares, tornou-se o grande livro da magia portuguesa, cercado de tabus.

Os etnógrafos, como Leite de Vasconcelos, Teófilo Braga e Consiglieri Pedroso, recolheram orações, superstições e lendas que hoje são a principal fonte para conhecer esta tradição.

Desde 1983, o Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes (Montalegre) junta curiosos, curandeiros e investigadores.

➜ São Cipriano: guia completo

Nota de saúde: as benzeduras fazem parte do património cultural, mas não substituem o médico. Em caso de doença, procure sempre um profissional de saúde.

Explore por tema

Práticas e especialistas

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

➜ Os saludadores

➜ Ensalmos e ensalmadores

Males e crenças populares

➜ O quebranto

➜ O enguiço

➜ Superstições portuguesas

Amuletos e símbolos

➜ Amuletos portugueses

➜ O signo-saimão

História e pessoas

➜ Bruxas e feiticeiras famosas da história portuguesa

➜ As bruxas de Évora: lenda e história

Lendas e lugares

➜ As mouras encantadas

➜ Lugares de bruxaria e lendas em Portugal

➜ O diabo na tradição portuguesa

Explore por região

Região O que vai encontrar
Trás-os-Montes Bruxas, benzedeiras, caretos, Montalegre
Minho Romarias, benzedeiras, a vizinha Galiza
Beiras Recolhas etnográficas, Monsanto, almas penadas
Alentejo Évora, Inquisição, mouras encantadas
Açores Espírito Santo, bruxas e lobisomens
Madeira A visita da Inquisição de 1618, lendas, festas populares

Para aprofundar: as obras de referência

  • Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: feiticeiras, saludadores e nigromantes no século XVI (1987).
  • José Pedro Paiva, Práticas e Crenças Mágicas (1992) e Bruxaria e Superstição num País sem «Caça às Bruxas» (1600–1774) (1997).
  • Giuseppe Marcocci e José Pedro Paiva, História da Inquisição Portuguesa, 1536–1821 (2013).
  • José Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa.

Continue a ler

➜ Tradição Portuguesa

➜ Feitiçaria portuguesa

➜ Malleus Maleficarum

➜ Enciclopédia do Oculto

Fontes

  • Martinho de Braga, De correctione rusticorum, texto latino, §16 — thelatinlibrary.com
  • «São Martinho de Dume», Arquidiocese de Braga — diocese-braga.pt
  • «Feitiço / feitiçaria», léxico do projeto RESISTANCE, Universidade de Évora (Ordenações e foro misto) — resistance.uevora.pt
  • José Pedro Paiva, Bruxaria e superstição num país sem «caça às bruxas» (1600–1774), Lisboa, Notícias, 1997 — academia.edu; recensão na revista Textos de História (UnB) — periodicos.unb.br
  • Evergton Sales Souza, «Catolicismo ilustrado e feitiçaria», CEM – Cultura, Espaço & Memória, n.º 3 (Regimento de 1774) — ler.letras.up.pt

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