A ideia de vender a alma em troca de poder, amor ou riqueza é uma das histórias mais antigas e mais repetidas da cultura europeia. Ainda hoje há quem procure «fazer um pacto» ou pagar a alguém para o «mediar».
Esta página conta a história do pacto com o diabo: de onde vem, como passou das lendas de santos para a literatura e para os tribunais, e como se ligou a São Cipriano. Não ensina a fazer pactos.
Teófilo de Adana: o primeiro grande pacto
A lenda de Teófilo, originária do século VI, conta a história de um clérigo da Cilícia (atual Turquia) afastado injustamente do cargo. Para o recuperar, assina um contrato com o diabo.
Arrependido, reza e jejua. A Virgem Maria intercede por ele e devolve-lhe o contrato. A moral é clara: o pacto pode ser quebrado pelo arrependimento.
A história foi muito copiada na Idade Média, em latim e em línguas vulgares. Aparece nas esculturas de catedrais e nos milagres marianos. É considerada uma das fontes da lenda de Fausto.
Fausto: o pacto na literatura
Houve um Johann Georg Faust real, mágico e astrólogo alemão que viveu por volta de 1480–1540. Pouco se sabe dele.
Depois da sua morte nasceu a lenda. Em 1587 saiu em Frankfurt a Historia von D. Johann Fausten, que conta como Fausto vende a alma a Mefistófeles por 24 anos de saber e prazeres. Seguiram-se a peça de Christopher Marlowe (c. 1592) e o Fausto de Goethe (1808 e 1832).
Fausto tornou-se o modelo do pacto: contrato escrito, prazo, assinatura com sangue e condenação final.
Urbain Grandier: um pacto num tribunal
Em Loudun, França, várias freiras ursulinas disseram-se possuídas e acusaram o padre Urbain Grandier. No processo foi apresentado um pacto em latim, escrito de trás para a frente e «assinado» por vários demónios.
Grandier nunca confessou, mesmo sob tortura. Foi queimado a 18 de agosto de 1634. Os historiadores veem o caso como um processo político e religioso, e o documento como prova fabricada ou obtida sob coação.
E São Cipriano?
A lenda de Cipriano de Antioquia, dos séculos IV e V, conta que um mágico pagão tentou usar demónios para conquistar a jovem Justina. Falhou, porque ela se protegia com o sinal da cruz, e acabou por se converter.
O famoso «pacto com Lúcifer» não aparece com essa forma nas fontes antigas. Foi crescendo ao longo dos séculos, por exemplo com a peça El mágico prodigioso (1637), de Calderón de la Barca, próxima do tema de Fausto. Os livros populares de São Cipriano herdaram esta camada.
O que ensinam estas histórias
Em todas elas, o pacto é uma história moral: o poder obtido é passageiro e o preço é alto. Na versão cristã, a saída é o arrependimento.
Não existe nenhum documento que prove um pacto real com um ser sobrenatural. O que existe são lendas, obras literárias e provas fabricadas em tribunais.
Se alguém lhe propõe um pacto
Há praticantes que oferecem «mediar pactos» com entidades. Desconfie de quem diz que o pacto é «vinculativo» e que haverá castigos se não pagar mais. Esse medo é, muitas vezes, a ferramenta da burla.
Sinais de alerta: garantias, prazos de resultado, pedidos sucessivos de dinheiro, ameaças. Tem direito a fatura e ao Livro de Reclamações.
➜ Como escolher um bruxo sério
Se estiver a ser ameaçado ou pressionado, a APAV (116 006) pode ajudar.
Perguntas frequentes
O pacto de Grandier existe?
Sim, o documento foi apresentado no processo e publicado em muitos livros. Não prova nenhum pacto real: foi usado para o condenar.
São Cipriano fez um pacto com o diabo?
Na lenda antiga, usou demónios e depois renunciou a eles. O pacto formal é um acrescento posterior.
Um pacto pode ser «desfeito»?
Nas próprias lendas, sim: Teófilo recupera o contrato pelo arrependimento.
Continue a ler
➜ Os demónios no Livro de São Cipriano
Fontes
- «Theophilus of Adana», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Faust», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Urbain Grandier», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Center for Hellenic Studies (Harvard), «The Confession: Competing with Magic» — chs.harvard.edu