São Cipriano é o santo que, segundo a lenda, conheceu os demónios por dentro. Antes da conversão, foi o maior feiticeiro do seu tempo e comandava espíritos das trevas. Por isso, muita gente imagina que o Livro de São Cipriano é um manual para os invocar.
A realidade é diferente. Nesta página explicamos o que dizem os textos antigos e o Livro português sobre os demónios.
«Daemon» ou demónio?
A palavra grega daímōn não queria dizer, na origem, um ser maligno. Na Grécia antiga, um daímōn era um espírito intermédio entre os deuses e os homens, que podia ser bom ou mau. Foi o cristianismo que passou a usar a palavra para os anjos caídos, inimigos de Deus.
Hoje, na espiritualidade moderna, alguns autores usam «daemon» para falar de espíritos neutros. No Livro de São Cipriano português, não há essa distinção: os demónios são sempre inimigos.
O que diz a Confissão de São Cipriano (século IV)
A Confissão é um dos textos mais antigos sobre Cipriano. Nela, o próprio Cipriano conta a sua vida de feiticeiro:
- em criança, foi iniciado nos mistérios dos deuses gregos, em Atenas e no monte Olimpo;
- estudou adivinhação e magia em várias terras do mundo antigo;
- aos vinte anos, em Mênfis, no Egito, aprendeu os nomes e os poderes dos demónios;
- aos trinta, na Babilónia, completou a formação e diz ter-se tornado um dos servidores do próprio Diabo.
Mas a conclusão do texto é clara. Depois de ver os demónios falharem perante a fé de Justina, Cipriano descreve-os como enganadores e sem poder real. O Diabo seria apenas um imitador de Deus, e o seu poder uma ilusão.
É uma lenda, escrita para mostrar a vitória do cristianismo sobre a magia pagã. Não é um relato histórico.
Os demónios no Livro português
No Grande Livro de S. Cypriano ou Thesouro do Feiticeiro, os demónios aparecem quase sempre como aquilo de que é preciso proteger-se:
- Satanás e Lúcifer são nomeados como os chefes dos demónios;
- os demónios entram no corpo das pessoas e causam os «malefícios»;
- estão por trás dos feitiços feitos por feiticeiros;
- há espíritos diabólicos que infestam casas com barulhos.
As respostas do Livro são sempre religiosas: o sinal da cruz, o preceito ao Demónio, as esconjurações do exorcismo e as palavras para fechar morada. Tudo em nome de Jesus Cristo, da Virgem e dos santos.
O Livro português antigo não tem um catálogo de demónios com nomes, selos e poderes para invocar. Esses catálogos existem noutros grimórios europeus.
➜ Desfazer feitiços no Livro de São Cipriano
Onde estão, então, os demónios «para invocar»?
Os catálogos de demónios vêm de outros grimórios europeus, sobretudo:
- a Goécia (parte do Lemegeton, século XVII), com 72 espíritos;
- o Grande Grimório (Grand Grimoire, França, século XVIII ou XIX), com o famoso Lucífugo Rofocale;
- o Grimorium Verum (século XVIII).
Algumas edições espanholas do Libro de San Cipriano, como o Libro Infernal, copiaram partes destes grimórios. Daí a confusão.
➜ As versões do Livro de São Cipriano
Uma nota de prudência
O Grimório.pt apresenta estes temas como história e cultura, e não ensina invocações. Se uma prática espiritual lhe causa medo intenso, pesadelos ou a sensação de estar a ser perseguido, fale com alguém de confiança e procure ajuda profissional.
Continue a ler
➜ Os anjos no Livro de São Cipriano
➜ Entidades e espíritos no Livro
Fontes
- «The Confession: Competing with Magic», Center for Hellenic Studies (Harvard) — chs.harvard.edu
- O Grande Livro de São Cipriano ou O Tesouro do Feiticeiro, Nascente, 2024 — excerto (PDF)
- «Book of Saint Cyprian», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Daimon», Wikipedia — en.wikipedia.org