A palavra necromancia vem do grego nekros, «morto», e manteia, «adivinhação». Na origem, significava consultar os mortos para conhecer o futuro ou segredos escondidos.
Com o tempo, a palavra mudou de sentido. Na Idade Média passou a designar a magia que invocava demónios, e deu origem à expressão «magia negra». Esta página conta essa história. Não ensina a invocar mortos.
Na Antiguidade
A Odisseia
O relato literário mais antigo está no canto XI da Odisseia, de Homero. Ulisses cava uma fossa, faz libações e oferendas, e as almas dos mortos aproximam-se. Quer falar com o adivinho Tirésias para saber como regressar a casa.
A necromante de Endor
Na Bíblia, em 1 Samuel 28, o rei Saul, desesperado antes de uma batalha, procura uma mulher em Endor capaz de chamar os mortos. Pede-lhe que faça aparecer o profeta Samuel. A lei bíblica proibia estas consultas (Deuteronómio 18), e o episódio termina com a morte de Saul.
Desde a Antiguidade se discute o que aconteceu: a tradução grega chama à mulher «ventríloqua», e muitos teólogos defenderam que não era Samuel quem aparecia.
Na Idade Média: a «nigromancia»
Os escribas latinos escreveram muitas vezes nigromantia, como se viesse de niger, «negro». A necromancia virou nigromancia, as «artes negras».
O conteúdo também mudou. A nigromancia medieval já quase não falava de mortos: era a invocação de demónios, com círculos, nomes secretos e orações. Quem a praticava eram sobretudo clérigos com instrução latina, que adaptavam as fórmulas do exorcismo.
O exemplo mais conhecido é o manual de Munique (Bayerische Staatsbibliothek, Clm 849), do século XV, estudado por Richard Kieckhefer no livro Forbidden Rites.
➜ O que é a magia negra: a origem do termo
Em Portugal
Em português antigo, nigromante era sinónimo de feiticeiro sábio, alguém que dominava livros de magia. Os processos da Inquisição portuguesa usam a palavra, mas mostram sobretudo magia popular.
A religiosidade portuguesa tem outra relação com os mortos: rezar por eles, e não chamá-los. É o que se vê nas alminhas dos caminhos e no próprio Livro de São Cipriano.
➜ Os mortos no Livro de São Cipriano
Do espiritismo aos dias de hoje
No século XIX, o espiritismo propôs comunicar com os mortos através de médiuns, sem demónios nem círculos. Hoje, a palavra necromancia aparece sobretudo em jogos, filmes e anúncios de serviços.
Riscos reais
- Luto: quem perdeu alguém pode ficar preso à promessa de «falar com o falecido». Isso pode atrasar o luto e custar muito dinheiro.
- Burla: «mensagens do além» obtidas por leitura fria são uma técnica antiga de fraude.
- Lei: mexer em sepulturas ou restos mortais é crime (Código Penal, artigo 254.º).
Se a perda de alguém continua a pesar muito, fale com um psicólogo. A linha SNS 24 (808 24 24 24) tem aconselhamento psicológico.
Antes de pagar a quem promete contacto com um morto, leia:
➜ Como escolher um bruxo sério
Perguntas frequentes
Necromancia e nigromancia são a mesma coisa?
Têm a mesma origem. Na Idade Média, «nigromancia» passou a significar sobretudo invocação de demónios.
O Livro de São Cipriano ensina necromancia?
Não. O Livro português pede orações pelos mortos.
É possível falar com os mortos?
É uma crença antiga. Não existe prova científica de que aconteça.
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Fontes
- «Necromancy», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Witch of Endor», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Munich Manual of Demonic Magic», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Richard Kieckhefer, Forbidden Rites: A Necromancer's Manual of the Fifteenth Century, Pennsylvania State University Press, 1998
- Homero, Odisseia, canto XI