Nascer, crescer, casar, perder alguém, mudar de vida. Todas as culturas marcam estes momentos com rituais. Não por acaso: são as alturas em que mais precisamos de sentido e de companhia.
Esta página explica o que os antropólogos chamam ritos de passagem, como a tradição portuguesa os viveu e como pode, hoje, marcar uma transição de forma simbólica e segura, sem promessas.
A ideia de Van Gennep
Em 1909, o etnólogo Arnold van Gennep publicou Les rites de passage. Mostrou que estes ritos seguem quase sempre três fases: separação do estado anterior, um tempo de margem («entre dois mundos») e agregação a um novo estatuto. O antropólogo Victor Turner chamou à fase do meio liminaridade.
Desenvolvemos este modelo, e os ritos iniciáticos dos mistérios antigos e das ordens esotéricas, noutra página:
Os ritos da vida em Portugal
A tradição portuguesa, profundamente católica, acompanhava cada etapa:
- Nascimento: o batizado, com padrinhos que assumiam um compromisso para a vida.
- Infância e juventude: a Primeira Comunhão e o Crisma. Para os rapazes, a antiga «ida às sortes» (a inspeção militar) marcava a entrada na idade adulta.
- Estudantes: a praxe e a Queima das Fitas, em Coimbra e noutras cidades académicas.
- Casamento: com os seus costumes locais, do enxoval às bênçãos.
- Morte: o velório, o funeral, a missa do sétimo dia e o luto, com roupa escura e recato durante meses.
Muitos destes ritos seguem o esquema de Van Gennep: deixa-se uma condição, passa-se um tempo à parte, regressa-se com um novo lugar na comunidade.
E hoje?
Muitas transições atuais não têm ritual: um divórcio, a reforma, a saída dos filhos de casa, uma mudança de país, o fim de uma doença. É por isso que muitas pessoas procuram criar rituais pessoais.
Um ritual simples pode ajudar a dar forma ao momento:
- Escrever o que termina e o que começa.
- Arrumar ou doar objetos ligados à fase que acabou.
- Reunir pessoas próximas numa refeição.
- Acender uma vela em silêncio, num castiçal estável, sem a deixar sozinha.
- Rezar ou meditar, conforme a sua fé.
➜ Como usar velas com segurança
Expectativas honestas
Um ritual de passagem tem valor simbólico e emocional: ajuda a encerrar, a lembrar e a recomeçar. Não garante proteção, sorte ou «caminhos abertos».
Desconfie de quem diz que as transições «abrem a aura» a energias negativas e que só um trabalho pago o protege. É um argumento de medo.
➜ Como escolher um bruxo sério
Se uma transição, como um divórcio ou um luto, está a ser muito difícil, falar com um psicólogo ajuda. A linha SNS 24 (808 24 24 24) tem aconselhamento psicológico.
Perguntas frequentes
Um ritual de passagem é religioso?
Pode ser, mas não tem de ser. Uma festa de reforma também é um rito de passagem.
Posso fazer o meu próprio ritual?
Sim. O que conta é o sentido que tem para si.
O que é a «liminaridade»?
O tempo «entre», quando já saímos de uma fase e ainda não entrámos na seguinte.
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Fontes
- Arnold van Gennep, Les rites de passage, Paris, 1909
- «Rite of passage», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Victor Turner, The Ritual Process: Structure and Anti-Structure, 1969