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Demonologia: a história do estudo dos demónios

A história da demonologia: os demónios na Bíblia, os tratados da caça às bruxas, Weyer, a Goécia e os 72 espíritos, e o caso de Portugal.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Os demónios na Bíblia
  2. Palavras que mudaram de sentido
  3. A Idade Média
  4. Os tratados da caça às bruxas
  5. Os céticos
  6. As hierarquias de demónios
  7. E em Portugal?
  8. A demonologia hoje
  9. Continue a ler
  10. Fontes

A demonologia é o estudo dos demónios: a sua natureza, os seus nomes e a sua relação com os seres humanos. Foi durante séculos um ramo da teologia cristã e, mais tarde, um tema central dos grimórios.

Esta página conta a história das ideias sobre os demónios. Não ensina invocações. Explica de onde vêm os nomes e hierarquias que circulam hoje, e o papel trágico que a demonologia teve na caça às bruxas.

Os demónios na Bíblia

Na Bíblia hebraica, a figura de Satanás (em hebraico, «o adversário») é ainda pouco desenvolvida. No Novo Testamento, os demónios aparecem sobretudo nos relatos de exorcismos feitos por Jesus.

A ideia de que os demónios são anjos caídos, que se revoltaram contra Deus, desenvolveu-se no judaísmo antigo (por exemplo, no Livro de Enoque) e foi fixada pelos teólogos cristãos.

➜ Angelologia

Palavras que mudaram de sentido

  • Demónio vem do grego daimōn, que para os gregos era um espírito intermédio, nem bom nem mau. Só com o cristianismo passou a significar um espírito maligno.
  • Lúcifer significa «portador de luz» e era o nome latino do planeta Vénus visto de manhã. A identificação com Satanás veio de uma leitura cristã de Isaías 14.
  • Belzebu vem de Baal-Zebub, um deus filisteu mencionado na Bíblia.

➜ Os daemons no Livro de São Cipriano

A Idade Média

Os teólogos medievais, como São Tomás de Aquino, discutiram o que os demónios podiam ou não fazer. A ideia do pacto com o Demónio ganhou força e tornou-se a base da acusação de bruxaria.

Na mesma época circulavam grimórios com listas de espíritos, como o Testamento de Salomão, texto grego antigo, e várias obras latinas de nigromancia.

Os tratados da caça às bruxas

Entre os séculos XV e XVII surgiram tratados que descreviam as bruxas como servas do Diabo:

Obra Autor e data
Malleus Maleficarum Heinrich Kramer, 1486–1487
De la démonomanie des sorciers Jean Bodin, 1580
Daemonologie Jaime VI da Escócia, 1597
Disquisitionum magicarum libri sex Martín del Río, 1599–1600

Estes livros ajudaram a justificar processos e execuções em muitos países europeus.

➜ Malleus Maleficarum

Os céticos

Nem todos acreditavam. O médico Johann Weyer publicou em 1563 De praestigiis daemonum, defendendo que muitas «bruxas» eram mulheres doentes ou iludidas, e não aliadas do Diabo.

Em 1584, o inglês Reginald Scot, em The Discoverie of Witchcraft, foi ainda mais longe e criticou duramente a caça às bruxas.

As hierarquias de demónios

Curiosamente, foi Weyer quem divulgou uma das listas mais conhecidas. Em 1577 juntou ao seu livro a Pseudomonarchia Daemonum, com os nomes de 69 demónios. Publicou-a para mostrar o absurdo destas crenças, não para as promover.

No século XVII, uma lista semelhante apareceu na Ars Goetia, a primeira parte da Lemegeton ou Chave Menor de Salomão, com 72 espíritos. É desta obra que vêm muitos nomes usados hoje, como Baal, Paimon ou Asmodeus.

Estas hierarquias são construções de grimórios, sem base na Bíblia. Variam muito de livro para livro.

➜ A Chave de Salomão

➜ Grimorium Verum

E em Portugal?

Portugal quase não produziu demonologia. O historiador José Pedro Paiva nota que poucos teólogos portugueses escreveram sobre o tema, ao contrário do que aconteceu na Alemanha ou em França.

Esta é uma das razões apontadas para Portugal não ter tido uma caça às bruxas. Os juízes portugueses tendiam a duvidar de voos noturnos e reuniões com o Diabo.

Na tradição popular, porém, o Diabo estava muito presente: nas lendas, nas orações de esconjuro e no Livro de São Cipriano.

➜ Bruxaria em Portugal

➜ Entidades e espíritos no Livro de São Cipriano

A demonologia hoje

A Igreja Católica mantém a crença na existência do Demónio e tem um rito oficial de exorcismo, reservado a sacerdotes autorizados pelo bispo. A própria Igreja recomenda que se exclua primeiro uma doença física ou psíquica.

Uma nota importante: medo intenso de estar possuído, vozes ou alterações de comportamento podem ser sinais de problemas de saúde. Nesses casos, procure um médico ou psicólogo.

Continue a ler

➜ Anjos, Demónios e Entidades

➜ Lúcifer

➜ A Goécia e os 72 espíritos

➜ Magia cerimonial

➜ A Inquisição em Portugal

➜ Magia medieval

➜ Enciclopédia do Oculto

Fontes

  • Stuart Clark, Thinking with Demons: The Idea of Witchcraft in Early Modern Europe, Oxford University Press, 1997.
  • Johann Weyer, De praestigiis daemonum, 1563 (com a Pseudomonarchia Daemonum na edição de 1577).
  • José Pedro Paiva, Bruxaria e superstição num país sem «caça às bruxas» (1600–1774), Lisboa, Notícias, 1997.
  • «Demon», Encyclopaedia Britannica — britannica.com

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