A demonologia é o estudo dos demónios: a sua natureza, os seus nomes e a sua relação com os seres humanos. Foi durante séculos um ramo da teologia cristã e, mais tarde, um tema central dos grimórios.
Esta página conta a história das ideias sobre os demónios. Não ensina invocações. Explica de onde vêm os nomes e hierarquias que circulam hoje, e o papel trágico que a demonologia teve na caça às bruxas.
Os demónios na Bíblia
Na Bíblia hebraica, a figura de Satanás (em hebraico, «o adversário») é ainda pouco desenvolvida. No Novo Testamento, os demónios aparecem sobretudo nos relatos de exorcismos feitos por Jesus.
A ideia de que os demónios são anjos caídos, que se revoltaram contra Deus, desenvolveu-se no judaísmo antigo (por exemplo, no Livro de Enoque) e foi fixada pelos teólogos cristãos.
Palavras que mudaram de sentido
- Demónio vem do grego daimōn, que para os gregos era um espírito intermédio, nem bom nem mau. Só com o cristianismo passou a significar um espírito maligno.
- Lúcifer significa «portador de luz» e era o nome latino do planeta Vénus visto de manhã. A identificação com Satanás veio de uma leitura cristã de Isaías 14.
- Belzebu vem de Baal-Zebub, um deus filisteu mencionado na Bíblia.
➜ Os daemons no Livro de São Cipriano
A Idade Média
Os teólogos medievais, como São Tomás de Aquino, discutiram o que os demónios podiam ou não fazer. A ideia do pacto com o Demónio ganhou força e tornou-se a base da acusação de bruxaria.
Na mesma época circulavam grimórios com listas de espíritos, como o Testamento de Salomão, texto grego antigo, e várias obras latinas de nigromancia.
Os tratados da caça às bruxas
Entre os séculos XV e XVII surgiram tratados que descreviam as bruxas como servas do Diabo:
| Obra | Autor e data |
|---|---|
| Malleus Maleficarum | Heinrich Kramer, 1486–1487 |
| De la démonomanie des sorciers | Jean Bodin, 1580 |
| Daemonologie | Jaime VI da Escócia, 1597 |
| Disquisitionum magicarum libri sex | Martín del Río, 1599–1600 |
Estes livros ajudaram a justificar processos e execuções em muitos países europeus.
Os céticos
Nem todos acreditavam. O médico Johann Weyer publicou em 1563 De praestigiis daemonum, defendendo que muitas «bruxas» eram mulheres doentes ou iludidas, e não aliadas do Diabo.
Em 1584, o inglês Reginald Scot, em The Discoverie of Witchcraft, foi ainda mais longe e criticou duramente a caça às bruxas.
As hierarquias de demónios
Curiosamente, foi Weyer quem divulgou uma das listas mais conhecidas. Em 1577 juntou ao seu livro a Pseudomonarchia Daemonum, com os nomes de 69 demónios. Publicou-a para mostrar o absurdo destas crenças, não para as promover.
No século XVII, uma lista semelhante apareceu na Ars Goetia, a primeira parte da Lemegeton ou Chave Menor de Salomão, com 72 espíritos. É desta obra que vêm muitos nomes usados hoje, como Baal, Paimon ou Asmodeus.
Estas hierarquias são construções de grimórios, sem base na Bíblia. Variam muito de livro para livro.
E em Portugal?
Portugal quase não produziu demonologia. O historiador José Pedro Paiva nota que poucos teólogos portugueses escreveram sobre o tema, ao contrário do que aconteceu na Alemanha ou em França.
Esta é uma das razões apontadas para Portugal não ter tido uma caça às bruxas. Os juízes portugueses tendiam a duvidar de voos noturnos e reuniões com o Diabo.
Na tradição popular, porém, o Diabo estava muito presente: nas lendas, nas orações de esconjuro e no Livro de São Cipriano.
➜ Entidades e espíritos no Livro de São Cipriano
A demonologia hoje
A Igreja Católica mantém a crença na existência do Demónio e tem um rito oficial de exorcismo, reservado a sacerdotes autorizados pelo bispo. A própria Igreja recomenda que se exclua primeiro uma doença física ou psíquica.
Uma nota importante: medo intenso de estar possuído, vozes ou alterações de comportamento podem ser sinais de problemas de saúde. Nesses casos, procure um médico ou psicólogo.
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➜ Lúcifer
Fontes
- Stuart Clark, Thinking with Demons: The Idea of Witchcraft in Early Modern Europe, Oxford University Press, 1997.
- Johann Weyer, De praestigiis daemonum, 1563 (com a Pseudomonarchia Daemonum na edição de 1577).
- José Pedro Paiva, Bruxaria e superstição num país sem «caça às bruxas» (1600–1774), Lisboa, Notícias, 1997.
- «Demon», Encyclopaedia Britannica — britannica.com